domingo, 25 de março de 2012

Le soleil, une nouvelle coupe de cheveux et l'ascenseur

E daí que a primavera chegou e todo mundo decidiu ir pra rua. Todo mundo mesmo. Inclusíve nós, brasileiros, que achamos que 21ºC nem é tão quente. Aqui em Paris é. Juro.

E ontem, sábado, o dia tava lindo, céu claro, temperatura subindo e eu e Fernanda resolvemos comprar roupa para o trabalho. A gente sempre trabalhou em redação, então é um pouco diferente ir para uma empresa todos os dias, onde a maioria das pessoas não veste calça jeans. Enfim. Fomos lá nas lojas de sempre e decidimos almoçar num restaurante mais tradicional, no Châtelet. Vale fazer um parênteses para falar dos efeitos do sol no humor das pessoas. É incrível. Os garçons têm sido extremamente simpáticos. E, olha, todo mundo já deve ter ouvido falar do atendimento na França. Eles não conhecem aquela frase do 'cliente tem sempre razão'.

Bref. A gente almoçou, todo mundo tava dando sorrisos em volta e a gente decidiu cortar o cabelo. Esse era um assunto que tava sendo discutido há um tempão. Desde o começo do inverno, queria cortar franja. Decidi que ia fazer isso no Brasil, mas o calor era tanto que não conseguia imaginar o cabelo caindo no rosto. Aí que  surgiu a oportunidade. Rumamos para um salão que tinha horário para dali a 40 minutos. Et voilà. Passamos por uma nova experiência antropológica, falando em francês com a cabeleireira e explicando o corte. Agora, temos franja. E a cabeleireira ainda disse que as brasileiras geralmente têm bastante cabelo e eles são muito brilhantes. Foi simpática, como os garçons.

Aí que chegando no prédio onde moro, encontrei dois rapazes que seguraram a porta do elevador. E entrei. E eles entraram em seguida. E aí éramos em seis num elevador que tem capacidade para cinco pessoas. O que o elevador fez? Parou. Assim, entre o térreo e o primeiro andar. Uma nova experiência antropológica. Éramos eu, um casal muçulmano (com a moça com o véu), dois jovens rapazes e uma senhora. Um dos rapazes ligou para o técnico, apertando um botãozinho no 'painel'. A senhora ficava falando 'é nossa culpa, o elevador tem capacidade para cinco pessoas'. E a muçulmana começou a reclamar que tava sentindo vertigem. Sem saber o que fazer, falei para ela afrouxar o véu. E me toquei, instantaneamente, que poderia estar cometendo algum sacrilégio. Olhei para o marido dela, assustada, e falei 'é proibido?'. Ele riu, provavelmente da minha cara de vergonha, e disse que tudo bem. Aí ela disse que tinha melhorado e ligou para os bombeiros. 'Oi, a gente tá preso no elevador. Somos em seis em um elevador pequeno'. O bombeiros perguntou a capacidade e aí respondeu 'Mas a culpa é de vcs'. Pois é. Um lugar em que bombeiro dá bronca pelo telefone. Eu tava estranhando mesmo o bom humor durante o dia. No fim, depois de uns 15 min, eu acho, chegou o técnico, que abriu a porta e a gente saiu. Foi rápido, ninguém nem teve falta de ar grave. Foi só um susto. O mais bem humorado dos rapazes ainda falou 'É bom que a gente tem assunto para falar na mesa do jantar'. Pq, gente, foi dia de sol e é claro que a gente tinha que acabar rindo. Menos os bombeiros.

terça-feira, 20 de março de 2012

Happy hour

Existe uma espécie de piada que fazemos por aqui, que é o fato de não podermos reclamar de nada porque a gente tá em Paris. Parece que fica proibido ter qualquer tipo de problema ou dificuldade por aqui. E não é fácil. Porque viemos pra cá pra estudar. Todo mundo faz master e o ensino aqui é bem puxado. Fora que é em francês. E não é só entender as aulas. A gente tem de fazer trabalho, prova, apresentação e dissertação em outro idioma.

Claro que todo mundo sabia que não ia ser um mar de rosas. Mas todo o nosso percurso não foi um *click*. A gente decidiu, a gente passou por todas as burocracias, fez milhares de cartas de motivação (pois é, nem queira saber o que é isso), pagou tradução juramentada de todos os documentos, passou pela agonia da espera do resultado, teve de pagar passagem, procurar lugar pra morar, fazer as contas da cotação do euro, passar pelo estresse do visto, se despedir de toda a família...

E aí, depois de toda essa defesa a nós, estudantes sofredores, tenho de confessar: não é fácil, mas tem dia que vale muito a pena ter passado por todo esse sacrifício. E dá até um sentimento de "não posso reclamar, porque estou em Paris".

Não sei se ficou muito claro. Mas foi assim na sexta-feira passada. Estava rolando um clima de "a primavera chegou antes do previsto". Na quinta, como comentei por aqui, fez 20 graus. Na sexta, parecia menos, mas ainda estava "quente". E eu e Fernanda, minha amiga de todas horas francesas, decidimos fazer uma happy hour perto da Rue Mouffetard que, por acaso, é perto de onde fiz meu aniversário no ano passado. Aí a gente já tinha bebido nossas cervejas e falei "É aqui perto que fica aquela escada onde passava o carro de Meia-noite em Paris". E decidimos encontrá-la. E encontramos.

Meia-noite em Paris (foto de celular, hein)
Quando olhamos para o lado, vimos o Panthéon. E fomos para lá. Coisamaislinda. Foi exatamente lá, há dois anos, que decidi que queria morar em Paris. Eu lembro de ter saído do Panthéon, olhado para a faculdade de direito que fica ao lado e pensado "Pq não sou advogada?". Mas nem precisei. Vim, como jornalista. Vim, do jeito que queria.

O Panthéon (em foto roubada da Fe, com o maior carinho)...


A faculdade de direito, linda, linda
Depois, descemos o Boulevard Saint Michel e paramos na Place de la Sorbonne. Que é nossa escola.

A Fer acabou entrando no RER e eu ainda vi mais uma vez a estátua de Saint Michel e, no outro quarteirão, a Notre Dame.

E cheguei em casa com uma sensação boa. De que, sim, a gente tá em Paris. E "só" isso já é bem legal. Mas me deixa reclamar em paz qdo eu quiser, hein? ;-)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Les 4 saisons

Sempre achei muito interessante essa relação com o clima aqui no hemisfério Norte. Geralmente, quando falamos que somos do Brasil, uma das primeiras reações é "Ah, lá faz sol".

Eu não gosto de calor, de todo mundo transpirando, aquele bafo e depois aquela chuva. Claro que é outra coisa se vc está de férias, pode ir à piscina ou à praia. Mas, mesmo assim, não me agrada muito a ideia de ter essa rotina por muitos meses seguidos.

Quando cheguei em Paris, a temperatura estava perto do 15ºC. Depois, veio uma onda de calor. E aí começou a esfriar. Agora, está começando a esquentar de novo. Há duas semanas, fez 12ºC e até combinamos um pique-nique nas escadarias da Sacré Coeur para comemorar. Não deu muito certo. O tempo virou e até choveu. Mas foi divertido.

Helena-querida e nossa mesa de
pique-nique, antes da chuva

Semana passada, começou a esquentar de novo. Hoje, chegou a fazer 20ºC, segundo o serviço de meteorologia. É muito engraçado reparar nas mudanças. As pessoas começam a olhar mais pra cima e parecem, sim, mais simpáticas e felizes. Os bares, que antes eram todos fechados, agora têm mesas e cadeiras nas ruas e portas e janelas escancaradas. A cerveja deve continuar quente -- mas isso ainda não conferi.

Eu acho que essa sequência de estações, de verdade, explica um pouco dessa coisa dos europeus serem mais 'organizados'. Porque a gente realmente acompanha um ciclo, sabe? No inverno, todo mundo fica em casa, mais família, recebendo amigos. Aí, aos poucos, começa a sair. Até que, no verãozão, vc já tá mais cansado. E vem o outono, que te faz reduzir o ritmo. E começa tudo de novo.

Nesse tempo todo, tem de arrumar armário, pq geralmente as pessoas não têm espaço para todas as roupas. Aí vc separa seus casacões e vestidinhos. É uma outra organização da vida mesmo. E estou gostando de passar por isso.

Paris e o sol, hoje (15.mar), no fim da tarde. A foto é da
comunidade J'aime Paris, do Facebook

segunda-feira, 5 de março de 2012

Six mois

Céu claro. Uma casa de boneca. Papelada pra matrícula. Papelada pro titre de séjour. Pontes do Sena, torre, Arco do Triunfo. Tosse. Aulas. Encontros e reencontros. Vinho bom e barato no supermercado. Pique-nique. Mais aulas. Trabalhos em grupo. Cadê o francês que estudei tanto? Bière pression mais barata na happy hour. Sopa de cebola. Mais aulas. Trabalhos em grupo. Um pouco de inglês e um tantão de francês. Calor. Flores na casa do Monet. Moules et frites. Aniversário. Frio. Folhas da cor do outono. Sobrinho nascendo (ainda bem que o Facebook avisa). Champs Elysées de domingo. Rugby. Compras. Feriado sem nada pra fazer. Mais aulas. Apresentações. Feriado com viagem curta. Mais trabalhos. Mudança. Encontros e desencontros. Férias curtas, mas com direito a folga no Natal e Ano Novo. Neve nos Alpes. Strasbourg. Simpatia de réveillon. Casa cheia. Champagne, bière pression na jarra, shots. Casa vazia. Coração vazio, sem minha avó. Mais aulas. Mais trabalhos. E provas. E apresentações. Gripe. Mais provas e apresentações. Neve antes de pegar o metrô. Samba. Brasil. Miguel. Minha casa, tão longe da dos meus pais. Biblioteca. Mémoire. Carnaval pela metade. Folga sem folga. Moulin Rouge, Sacré Coeur, Café 2 Moulins. Samba de verdade. Encontros. Mais papelada. Notre Dame, cadeados dos apaixonados, Tuileries, boeuf bourguignon. Estágio.

E assim foram meus primeiros seis meses de Paris.