Eu tinha um bom emprego, um bom salário. Pagava todas as minhas contas, tinha tempo até de "atividades paralelas". Eu morava bem. Ia a pé para o trabalho, podia pegar metrô ou ônibus para qualquer lugar. E ainda tinha um carro. Que era pequeno, mas era meu. Me levava para todos os lugares e ainda cabia na vaga da garagem. Eu tava perto da minha família, dos meus amigos...minha irmã tava grávida e me disse que eu seria madrinha do meu pequeno sobrinho. Eu tinha a comida da minha mãe nos fins de semana. O arroz doce da minha vó qdo tinha vontade. Mas faltava alguma coisa.
Resolvi que eu tinha saudades de Paris. Das ruas com construções antigas, dos telhados azuis. Da torre, da Champs Elysées. Dos franceses fazendo bico. Do metrô que vai para todos os cantos até de madrugada. Desse idioma tão lindo, dessa cultura tão presente.
Aí eu cheguei aqui. Peguei o metrô e desci na Notre Dame. Depois passei pelo Arco do Triunfo. Numa caminhada, cheguei à torre. Nas primeiras semanas, a cabeça estava tão cheia que não tive tempo de sentir falta. Fiz até uma "festinha" de aniversário num bar bem localizado, com uma mesa cheia de pessoas que eu mal conhecia, mas com quem já tinha laços bem fortes. Laços que só quem está longe de casa consegue construir (e entender). E nos meses seguintes a programação continuou intensa. Era tanta coisa que ainda não dava tempo de definir o que fazia parte da minha vida e o que me faltava.
Aí minha avó foi embora. E eu lembrava da cena da nossa despedida. Ela chorando no portão e limpando as lágrimas que escorriam pelas bochechas fofas e pelo nariz. Naquele momento, eu comecei a sentir falta. Comecei a pensar que, meudeus, tinha tanta coisa pra contar pra ela. Era uma falta estranha. Porque eu tava tão longe que não conseguia saber a medida de tanta saudade da mãozinha gordinha, do sorriso de criança, dos passos lentos. E essa saudade nunca mais ia ser amenizada.
E em seguida fui para o Brasil e fiquei agoniada porque tinha tanta coisa pra resolver na França. Eu voltei para Paris e tive uma dor no coração horrível de perder o carnaval e de saber que deixei longe meu pequeno sobrinho sorridente, que aprendia uma coisa nova por dia.
E daí que começou o estagio. Cabeça cheia de novo. Tanta novidade, tanta gente nova. Quando as coisas começaram a virar rotina, meus pais vieram me visitar. Foi tudo magico. E nem teve lagrima escorrendo na despedida. Minha mãe teve uma linda explicação: "Ela (eu, no caso) tá tão bem que meu choro não faz sentido". Logo ela, que tem o choro tão fácil (por isso sou assim).
Aí foi a vez da Deborinha, minha irmã de alma. E ela trouxe a Tati. Deborinha me avisou que a prioridade era conhecer o museu do Rodin, porque ela adorava Camille Claudel. Foi fácil passar quase uma semana indo dormir de madrugada, com a barriga doendo de tanto rir. Receber abraços e olhares de "compreensão" todos os dias. No fim da viagem das duas, fomos até a casa onde morou a Camille, na Île Saint Louis. Na parede, uma placa, informando da moradora ilustre. E uma frase: "Il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente" (Há sempre alguma coisa faltando que me atormenta -- como mostra a foto abaixo).
Eu já tinha visto na internet. Mas foi diferente. Depois que as meninas foram embora, teve o casamento da Fernanda, no Rio. Foi a gota d'água. De repente, tudo e todos me faziam falta e essa falta me atormentava. Foram umas duas ou três semanas assim. Um misto de ansiedade, de medo, de pânico. Uma solidão que nunca tinha feito parte de mim. A frase da Camille não saía da minha cabeça.
A solução foi me acostumar com ela. E aí me lembrei que sempre tinha alguma coisa faltando. E, provavelmente, sempre terá. E daí? Daí que a gente tem de aprender a guardar essa saudade. A se virar com o Skype, com o telefone, com a chuva, com o sol...com a vida.
E devo começar mais um ano em Paris. Com um gostinho de que muitas missões foram cumpridas em 2012, apesar dos pesares. Quer coisa melhor?
**
PS: Helena, querida. Se vc passar de novo pelo blog, saiba que Camille vai me fazer pra sempre lembrar de vc. E mesmo que seu nome não tenha sido citado nos ultimos posts, vc ta dentro da parte francesa do meu coração. Merci por esse ano! E merci tb pra Fernanda, pro Thiago, pro Gui (de quem copiei a citação do coração), pra Alice e pra tantos outros que apareceram na minha vida por aqui e, espero, continuem comigo por um bom tempo
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Bonjour-excusez-moi-s'il-vous-plaît
Pronto. Ja faz mais de um ano que estou aqui e as dificuldades não acabam nunca, nunca.
Pelo menos agora acho que estou mais relaxada e acostumada ao aparente mau humor.
Fim de semana passado eu e a Fernanda, minha coloc, fomos almoçar no "Marché des Enfants Rouges", que é o mais antigo de Paris, dizem.
Vc chega, tem as bancas de flores e frutas, como nos mercados que ja visitei.
Mas tem um monte de "traiteur". E uma "vendinha" comum por aqui. Tem comida pronta, geralmente de uma região especifica. No marché em questão, de varios paises. A gente começou a passar nos traiteurs sem nem comentar nada com a outra.
De repente, escolhemos o libanês, pelo mesmo motivo: não tinha fila e daria pra gente perguntar como pede a comida. Maaaas. Não foi exatamente o que aconteceu. Escolhemos uma formule de "3 saladas" + uma "mistura" (sabe coisa do interior? Podia ser carne, frango, falafel...) + uma outra porção quente, de bxxx (não lembro mais o nome) ou legumes.
Tinha uma "vitrine" imensa com saladas, charutos, homus, coalhada...e como saber como falar coalhada e charuto em francês? Como perguntar qual formule tinha essa opção?
Olhei para o lado e o senhor que cuidava do caixa e da "mistura" tinha um prato na frente dele, com charuto. Do jeito mais francês, perguntei: "Bom dia, senhor, da licença! Desculpa te atrapalhar, por favor, como chama isso?". E apontei. Ele olhou pra mim e falou: "Em francês ou em arabe?" Nada é facil, gente. Nada. La no traiteur, nem kibe, que eu jurava que era assim no mundo todo, escreve igual. No fim, nem pedi charuto. Acho que foi o trauma.
Depois, chegou a hora da parte quente. Perguntei o que era bxxx.... Ele falou um monte. A gente so entendeu a parte "é como arroz". Resolvemos arriscar. E era bem bom.
Comemos dando risada, apertadas na mesa que a garçonete indicou.
Apesar de tudo, foi bem legal. Eu recomendo.
Ja me disseram que o traiteur japonês é bem gostoso. E nos gostamos do visual dos pratos italianos. So falta saber como pedir, né??
![]() |
| A foto é do lefigaro.fr, pq ainda não deu tempo de tirar... |
Ai ta em francês -- inclusive o corretor. Eu sei que posso mudar a configuração para o português, mas é bom saber usar essas coisas do dia a dia no "outro" idioma, né?
E dai que demoro cinco minutos pra escrever qualquer mensagem de duas linhas em português.
Cada vez mais tenho a impressão que não sei direito mais nenhum idioma do mundo...
Se alguém se interessar: Marché des Enfants Rouges
39 Rue de Bretagne
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Petite mise à jour
Muita coisa aconteceu desde o ultimo post. Tentando montar uma ordem cronologica...
- Vi o desfile oficial na Champs Elysées e a queima de fogos na torre Eiffel no dia da queda da Bastille. Foi mais uma noite memoravel.
- Fui para as Olimpiadas, pela primeira vez na minha vida. Foi quase um bate-e-volta para a Inglaterra (Paris-Londres-Newscastle-Londres-Paris em três dias) para as oitavas de final do futebol masculino Brasil e Honduras. Deu Brasil. Foi bem divertido. E eu peguei uma promoção na primeira classe do Eurostar. Super recomendo!!
- Mudei de apartamento. Sofri horrores ao sair da minha casinha querida. Levei tudo para um estudio bem menor, mas bem localizado, perto da Bastille. Lembrei agora de uma coisa importante no fimde da mudança: passei na igreja perto do antigo apartamento para doar roupas e um padre veio falar comigo. Eu chorando, chorando. E ele “pq vc esta triste?” E eu “estou mudando” E ele “pra onde?” Respondi. E ouvi: “mas é aqui do lado. Não precisa sofrer”. Pois é. Queimando filme em francês na igreja. Sou eu.
- Passei calor em Paris. Emendei baladinhas e almoço como se não houvesse amanhã nas semanas que, imaginei, seriam as mais dificeis da minha vida francesa. Comi feijoada no dia mais quente do verão, emendei com samba e me diverti horrores com pessoas queridas que fizeram os dias mais leves. Dei risada de ficar com dor na barriga. Procurei chuveirinho de agua e dancei descalça na beira do Sena até ficar com o pé preto. Voltei pra casa meio atordoada, sem nem conseguir pensar. Fez um bem danado pra alma.
- Acabei o estagio, acabei o mémoire e comecei a trabalhar. Isso significa: vou continuar em Paris por um tempo ainda :-)
- Acabou o ramadã. Muita gente querida voltou para o Brasil. Aprendi que louco tem em qualquer parte. E a parte boa: acho que aprendi a reagir mais rapido ao que não me faz bem.
- Ganhei uma coloc. Depois de velha, estou dividindo o pequeno estudio com minha amiga-irmã parisiense. E tem sido divertido.
- Estou com visitas. Meu sobrinho mais lindo do mundo cruzou o oceano. Com ele, vieram minha irmã, meu cunhado e minha mãe. E tanto amor, tanto bem querer que fico emocionada quase todas as noites. E tb de manhã, qdo levanto e ja ouço a vozinha dele querendo brincar. Me da um orgulho tremendo ver a maneira como minha irmã esta criando o bebê, que é simpatico com todo mundo e não da trabalho, mesmo em dias mais gelados em que ele tem de vestir jaqueta, cachecol e gorro, como nunca precisou. Me da um orgulho tremendo ver que minha mãe atravessou o oceano e passou pela imigração sozinha. Me da um orgulho tremendo fazer parte dessa familia e saber que tenho raizes firmes e fortes, mesmo que elas não fiquem enterradas em um so lugar.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Fête de la Musique
Diz a lenda que a Fête de la Musique inspirou a Virada Cultural de SP. Para quem não sabe do que estou falando, explico bem por cima: são eventos que preveem uma série de shows musicais gratuitos por toda a cidade. Na França, a festa ocorre desde 1982. Segundo o site oficial, o modelo começou a ser “exportado” em 1985, no “ano europeu da musica”.
Sinceramente, nunca fui a um evento desse no Brasil. Nem trabalhando, nem a passeio. Cheguei a combinar no ano passado, mas tive que fazer um curso de meteorologia (!!!) e estava muito cansada para sair depois. Eu tenho preguiça de eventos que mobilizam muita gente (menos do carnaval) e sempre achava dificil o acesso a alguns palcos interessantes.
Em SP, o que chama a atenção são os shows de artistas famosos. Me falaram que eles inclusive recebem pela apresentação, como se fosse qquer festival. Aqui na França é bem diferente. E bem interessante. A começar pela data: sempre ocorre em 21 de junho, o “solcistico” de verão. Este ano, caiu numa quinta-feira. E eu sempre ja estou bem cansada nessa “fase” da semana. Ai a Fernanda, sempre ela, me manda um e-mail para perguntar o que a gente ia fazer. Fui bem sincera. Respondi que o meu medo era sair e encontrar todos os musicos do metrô enfileirados e tocando Bamboleo ou Bésame mucho ou alguma letra que não entendo. Ela riu e tentou argumentar: “também estou cansada, mas é a Virada Cultural original. A gente vai se arrepender se não for”.
Coincidentemente, logo depois comecei a dar uma pesquisada nos eventos para o fim de semana. E achei um show do nosso grupo de samba favorito daqui, o Roda do Cavaco, no lugar de sempre, bem na Fête de la Musique. Ça veut dire: de graça!
No dia, até pensamos em alguma coisa mais “francesa”, um parque, uma musica classica, algum show que acabasse mais cedo. Comecei a procurar, mas não conhecia nenhum artista. E voilà a maior diferença: aqui a grande atração são os amadores. E ai caiu o maior temporal e decidimos ir ao bom e velho samba, pq sabiamos que era coberto.
Chegamos la e estava tendo uma aula de cavaquinho. Uma coisa surreal. Como o ambiente estava quieto (ng conversava além do prof), decidimos sair. Na rua, uns africanos passaram com a sua batucada. E, na esquina, vimos uns brasileiros tocando.
No fim das contas, como tudo que é brasileiro por aqui, o show atrasou. Mas foi um dos mais legais que ja vi. O clima era otimo, com brasileiros e franceses, crianças, adultos...todo mundo dançando e cantando. A seleção de musicas foi genial. E nem a fome atrapalhou.
No fim, la pelas 2h, desci a pé até em casa. O caminho todo estava cheio de gente. O 20eme parecia Salvador no carnaval (embora eu nunca tenha ido a Salvador no carnaval). Tinha batuques por todos os cantos.
Quando cheguei no meu quarteirão, tinha palco de hip hop e, um pouco mais pra frente, um povo dançando Black Eyed Peas. As ruas e calçadas estavam lotadas. Mas sem aquele medo, aquela preocupação de te levarem qquer coisa. Foi dificil alcançar o portão do prédio, meu celular tava sem bateria e eu não lembrava o novo codigo (que obviamente estava registrado no meu celular). Mas, mesmo assim, estava tudo bem. No fim, acabei usando o chaveiro de segurança e deu tudo certo.
A Fernanda foi dormir em casa e saiu mais cedo no dia seguinte. Ela tirou as fotos da sujeira em frente do meu prédio. Eu sai mais ou menos uma hora mais tarde e ja não tinha nada. A calçada tava toda molhada – imagino que fazia parte da limpeza. Alias, todas as fotos desse post foram feitas por ela! Merci, chérie.
Ha alguns dias, conheci um brasileiro que vem aqui todos os anos para a Fête de la Musique. Não acho que ninguém tem de virar assiduo. Mas super recomendo!
Sinceramente, nunca fui a um evento desse no Brasil. Nem trabalhando, nem a passeio. Cheguei a combinar no ano passado, mas tive que fazer um curso de meteorologia (!!!) e estava muito cansada para sair depois. Eu tenho preguiça de eventos que mobilizam muita gente (menos do carnaval) e sempre achava dificil o acesso a alguns palcos interessantes.
Em SP, o que chama a atenção são os shows de artistas famosos. Me falaram que eles inclusive recebem pela apresentação, como se fosse qquer festival. Aqui na França é bem diferente. E bem interessante. A começar pela data: sempre ocorre em 21 de junho, o “solcistico” de verão. Este ano, caiu numa quinta-feira. E eu sempre ja estou bem cansada nessa “fase” da semana. Ai a Fernanda, sempre ela, me manda um e-mail para perguntar o que a gente ia fazer. Fui bem sincera. Respondi que o meu medo era sair e encontrar todos os musicos do metrô enfileirados e tocando Bamboleo ou Bésame mucho ou alguma letra que não entendo. Ela riu e tentou argumentar: “também estou cansada, mas é a Virada Cultural original. A gente vai se arrepender se não for”.
Coincidentemente, logo depois comecei a dar uma pesquisada nos eventos para o fim de semana. E achei um show do nosso grupo de samba favorito daqui, o Roda do Cavaco, no lugar de sempre, bem na Fête de la Musique. Ça veut dire: de graça!
No dia, até pensamos em alguma coisa mais “francesa”, um parque, uma musica classica, algum show que acabasse mais cedo. Comecei a procurar, mas não conhecia nenhum artista. E voilà a maior diferença: aqui a grande atração são os amadores. E ai caiu o maior temporal e decidimos ir ao bom e velho samba, pq sabiamos que era coberto.
Chegamos la e estava tendo uma aula de cavaquinho. Uma coisa surreal. Como o ambiente estava quieto (ng conversava além do prof), decidimos sair. Na rua, uns africanos passaram com a sua batucada. E, na esquina, vimos uns brasileiros tocando.
No fim das contas, como tudo que é brasileiro por aqui, o show atrasou. Mas foi um dos mais legais que ja vi. O clima era otimo, com brasileiros e franceses, crianças, adultos...todo mundo dançando e cantando. A seleção de musicas foi genial. E nem a fome atrapalhou.
No fim, la pelas 2h, desci a pé até em casa. O caminho todo estava cheio de gente. O 20eme parecia Salvador no carnaval (embora eu nunca tenha ido a Salvador no carnaval). Tinha batuques por todos os cantos.
Quando cheguei no meu quarteirão, tinha palco de hip hop e, um pouco mais pra frente, um povo dançando Black Eyed Peas. As ruas e calçadas estavam lotadas. Mas sem aquele medo, aquela preocupação de te levarem qquer coisa. Foi dificil alcançar o portão do prédio, meu celular tava sem bateria e eu não lembrava o novo codigo (que obviamente estava registrado no meu celular). Mas, mesmo assim, estava tudo bem. No fim, acabei usando o chaveiro de segurança e deu tudo certo.
A Fernanda foi dormir em casa e saiu mais cedo no dia seguinte. Ela tirou as fotos da sujeira em frente do meu prédio. Eu sai mais ou menos uma hora mais tarde e ja não tinha nada. A calçada tava toda molhada – imagino que fazia parte da limpeza. Alias, todas as fotos desse post foram feitas por ela! Merci, chérie.
Ha alguns dias, conheci um brasileiro que vem aqui todos os anos para a Fête de la Musique. Não acho que ninguém tem de virar assiduo. Mas super recomendo!
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Le plan, la feijoada, la samba, les années 40...
Eu sei que estou atrasada. A impressão que tenho, agora, é que tenho de correr atras, recuperar o tempo. Mas não acho que foi perdido.
Nas ultimas semanas, recebi as visitas mais queridas (e depois tenho de escrever sobre isso), e com elas andei como turista pelas ruas de Paris, procurando informações, dando passos mais lentos, aproveitando os museus e até Versailles. Viajei, conheci novos lugares, aprendi novas teorias, dei risada alto e não chorei nem nas despedidas. Mas ai que as visitas se foram e agora é hora de retomar o plano inicial: eu vim pra estudar, certo? Fico repetindo isso, pra ver se consigo evoluir no mémoire.
Pra tentar re-entrar no clima de "vim estudar em Paris", nada como um encontro com brasileiros que estão por aqui. Cada um com sua meta e sua expectativa.
O plano era reunir no sabado (passado) e me concentrar no domingo.
Minha casa tava quase cheia. O fogão pequeno segurou a onda e fizemos uma feijoada. O arroz era minha responsabilidade e, aiquevergonha, ficou quase um sushi gigante de tão empapado. Ainda bem que todo mundo foi gentil e disse que ele tava bom, na mistura com o feijão.
Depois do almoço, uma sonequinha coletiva e samba. Quer dizer. Falaram que era samba. Chegamos no fim de uma roda que estava até animada. Ai pagamos para entrar em outro ambiente. O "show" demorou duas horas para começar (o que, descobrimos, é uma das caracteristicas dos brasileiros e tudo o que tem a ver com isso por aqui). E ai sobem uns franceses no palco e dizem "Bem-vindos à Lapa dos anos 40". Era o que faltava.
Depois de uma semana cansativa, esperamos até a 1h da madrugada e pagamos em euro pra entrar numa apresentação de seresta, sabe? Poderia ser legal, se não fosse uma balada. Depois ainda esperamos o DJ acertar na musica, mas ele tb não colaborou.
Eu e a Fe, sempre ela, voltamos para casa a pé, depois da pior balada que enfrentamos em Paris. O unico saldo positivo foi que descobrimos que estamos a um grau de separação do Chico Buarque. Sim, ele mesmo. O Chico jogava bola com um brasileiro que saiu decepcionado, antes de nos, da "Lapa-antiga".
Pra arrematar o fim de semana de surpresas, meu vizinho bateu na porta de casa em pleno domingo de manhã.
Ele: Vc entende francês?
Eu: Sim
Ele: Vc é italiana?
Eu: Não
Ele: E a sua amiga?
Eu: Não
Ele: Mas vcs são de onde?
Eu: Somos brasileiras
Ele: E que minha mãe é siciliana e eu sei que os italianos falam mais alto. Mas aqui na França todo mundo fala baixo. E a sua janela fica proxima da minha e eu so queria pedir, gentilmente, para vcs falarem mais baixo. Eu sei que é cultural, mas aqui se fala baixo e é domingo
DETALHE: Domingo de manhã, a gente tava acabando de acordar. Ninguém nem tinha forças para gritar. Mas, enfim. Como a gente ja sabia, na França, fale como os franceses. Ou vão te achar italiana! Fica a dica.
Nas ultimas semanas, recebi as visitas mais queridas (e depois tenho de escrever sobre isso), e com elas andei como turista pelas ruas de Paris, procurando informações, dando passos mais lentos, aproveitando os museus e até Versailles. Viajei, conheci novos lugares, aprendi novas teorias, dei risada alto e não chorei nem nas despedidas. Mas ai que as visitas se foram e agora é hora de retomar o plano inicial: eu vim pra estudar, certo? Fico repetindo isso, pra ver se consigo evoluir no mémoire.
Pra tentar re-entrar no clima de "vim estudar em Paris", nada como um encontro com brasileiros que estão por aqui. Cada um com sua meta e sua expectativa.
O plano era reunir no sabado (passado) e me concentrar no domingo.
Minha casa tava quase cheia. O fogão pequeno segurou a onda e fizemos uma feijoada. O arroz era minha responsabilidade e, aiquevergonha, ficou quase um sushi gigante de tão empapado. Ainda bem que todo mundo foi gentil e disse que ele tava bom, na mistura com o feijão.
Depois do almoço, uma sonequinha coletiva e samba. Quer dizer. Falaram que era samba. Chegamos no fim de uma roda que estava até animada. Ai pagamos para entrar em outro ambiente. O "show" demorou duas horas para começar (o que, descobrimos, é uma das caracteristicas dos brasileiros e tudo o que tem a ver com isso por aqui). E ai sobem uns franceses no palco e dizem "Bem-vindos à Lapa dos anos 40". Era o que faltava.
Depois de uma semana cansativa, esperamos até a 1h da madrugada e pagamos em euro pra entrar numa apresentação de seresta, sabe? Poderia ser legal, se não fosse uma balada. Depois ainda esperamos o DJ acertar na musica, mas ele tb não colaborou.
Eu e a Fe, sempre ela, voltamos para casa a pé, depois da pior balada que enfrentamos em Paris. O unico saldo positivo foi que descobrimos que estamos a um grau de separação do Chico Buarque. Sim, ele mesmo. O Chico jogava bola com um brasileiro que saiu decepcionado, antes de nos, da "Lapa-antiga".
Pra arrematar o fim de semana de surpresas, meu vizinho bateu na porta de casa em pleno domingo de manhã.
Ele: Vc entende francês?
Eu: Sim
Ele: Vc é italiana?
Eu: Não
Ele: E a sua amiga?
Eu: Não
Ele: Mas vcs são de onde?
Eu: Somos brasileiras
Ele: E que minha mãe é siciliana e eu sei que os italianos falam mais alto. Mas aqui na França todo mundo fala baixo. E a sua janela fica proxima da minha e eu so queria pedir, gentilmente, para vcs falarem mais baixo. Eu sei que é cultural, mas aqui se fala baixo e é domingo
DETALHE: Domingo de manhã, a gente tava acabando de acordar. Ninguém nem tinha forças para gritar. Mas, enfim. Como a gente ja sabia, na França, fale como os franceses. Ou vão te achar italiana! Fica a dica.
sábado, 14 de abril de 2012
Joyeuses Pâques (en retard)
Diálogos surreais de um domingo de Páscoa em Paris...
Cenário: pós-show do Revelação, numa casa de show onde não tinha mais bebida, os dois banheiros estavam bloqueados (um para limpeza e outro pq ficava perto do camarim) e perto de uma grande fila para tirar o casaco do vestiário.
Moço brasileiro (abreviado como O): Vamos para o Mexicano?
Moça brasileira 1 (A1): Que mexicano?
O: O mexicano onde todo mundo vai.
A1: Mas como chama esse mexicano?
O: Mexicano, ué.
A1: E onde fica?
O: E aqui perto. Vcs não conhecem? Todo mundo vai. De domingo, toca samba, axé, pagode, forró...Toca de tudo. Todo mundo vai
Outra moça brasileira (A2): É pra ir direto?
O: Não...começa a ficar bom, de domingo, lá pelas 22h30, 23h...
A2: Ah, mas aí é tarde
A1: Mas amanhã é feriado...
O: É, amanhã é feriado. E todo mundo vai
A2: Todo mundo quem?
O: Falaram que até o Ronaldinho ia
A2: Ah, é? Vai jogador de futebol? Aliás, vc sabe onde vão os jogadores do PSG?
O: Ah, vc quer ver jogador de futebol? Eu ja fui à casa do Ceará
A1: Como assim na casa do Ceará?
O: Ah, é que tem um culto. A gente vai lá, ouve a palavra e depois tem uma mesa imensa, cheia de comida. Tem gente que vai lá só pra comer
A2: Que palavra? Peraí. Tem que ir lá pra ouvir a palavra?
A1: A gente não quer comer. A gente queria tirar foto. Quer dizer, ela que quer ver jogador de futebol...
O: Dá pra tirar foto. O Ceará é pastor, já. Aí depois dá pra falar com ele e a mulher dele, lá na mesa de comida
A2: Escuta, como vc foi parar na casa do Ceará?
O: Ah, eu tava procurando emprego e um colega meu me falou pra ir lá. Pq o Ceará tb ajuda a arrumar emprego
A2: Ah, é uma boa. Ele é bonzinho, então
A1: Mas onde é a casa do Ceará? Dá pra gente ir?
O: Dá, sim. Mas é longe...
A1: Longe quanto?
O: Tem de pegar RER...
A1 e A2: Ah, mas RER tudo bem...
O: Depois vc desce do RER e tem um cara com uma Topic te esperando e ele te leva lá na casa dele
A1: E aí tem de ouvir a palavra?
O: Isso. Mas tem gente que vai lá so pra comer...
Outro moço brasileiro (O2): Oi, como vcs chamam?
A1: XYZ
O2: Tem uma musica com o seu nome XYZinha, XYZinha...
A1: Jura mesmo? Tem uma música com o meu nome?
O2: Tô cantando pra vc
A1: Ah, não acredito...
O2: E vcs vão ao Mexicano?
A2: Gente, todo mundo conhece esse mexicano
O2: Quanto tempo faz que vcs estão em Paris?
A1: Sete meses
O2: E não conhecem o Mexicano? Nossa! É como não conhecer a torre
A2: Vamos embora?
...
A1: Se a gente não for hoje nesse Mexicano, nunca mais vai conseguir. Pq amanhã é feriado, e o lugar esquenta lá pelas 23h. A gente nunca mais vai conseguir
A2: Até o samba que a gente gosta fica difícil de ir de domingo. E ele começa mais cedo
A1: Vamos?
...
Olha a onda, olha a onda (clap clap)...olha a onda, olha a onda (clap, clap)...
Cenário: pós-show do Revelação, numa casa de show onde não tinha mais bebida, os dois banheiros estavam bloqueados (um para limpeza e outro pq ficava perto do camarim) e perto de uma grande fila para tirar o casaco do vestiário.
Moço brasileiro (abreviado como O): Vamos para o Mexicano?
Moça brasileira 1 (A1): Que mexicano?
O: O mexicano onde todo mundo vai.
A1: Mas como chama esse mexicano?
O: Mexicano, ué.
A1: E onde fica?
O: E aqui perto. Vcs não conhecem? Todo mundo vai. De domingo, toca samba, axé, pagode, forró...Toca de tudo. Todo mundo vai
Outra moça brasileira (A2): É pra ir direto?
O: Não...começa a ficar bom, de domingo, lá pelas 22h30, 23h...
A2: Ah, mas aí é tarde
A1: Mas amanhã é feriado...
O: É, amanhã é feriado. E todo mundo vai
A2: Todo mundo quem?
O: Falaram que até o Ronaldinho ia
A2: Ah, é? Vai jogador de futebol? Aliás, vc sabe onde vão os jogadores do PSG?
O: Ah, vc quer ver jogador de futebol? Eu ja fui à casa do Ceará
A1: Como assim na casa do Ceará?
O: Ah, é que tem um culto. A gente vai lá, ouve a palavra e depois tem uma mesa imensa, cheia de comida. Tem gente que vai lá só pra comer
A2: Que palavra? Peraí. Tem que ir lá pra ouvir a palavra?
A1: A gente não quer comer. A gente queria tirar foto. Quer dizer, ela que quer ver jogador de futebol...
O: Dá pra tirar foto. O Ceará é pastor, já. Aí depois dá pra falar com ele e a mulher dele, lá na mesa de comida
A2: Escuta, como vc foi parar na casa do Ceará?
O: Ah, eu tava procurando emprego e um colega meu me falou pra ir lá. Pq o Ceará tb ajuda a arrumar emprego
A2: Ah, é uma boa. Ele é bonzinho, então
A1: Mas onde é a casa do Ceará? Dá pra gente ir?
O: Dá, sim. Mas é longe...
A1: Longe quanto?
O: Tem de pegar RER...
A1 e A2: Ah, mas RER tudo bem...
O: Depois vc desce do RER e tem um cara com uma Topic te esperando e ele te leva lá na casa dele
A1: E aí tem de ouvir a palavra?
O: Isso. Mas tem gente que vai lá so pra comer...
Outro moço brasileiro (O2): Oi, como vcs chamam?
A1: XYZ
O2: Tem uma musica com o seu nome XYZinha, XYZinha...
A1: Jura mesmo? Tem uma música com o meu nome?
O2: Tô cantando pra vc
A1: Ah, não acredito...
O2: E vcs vão ao Mexicano?
A2: Gente, todo mundo conhece esse mexicano
O2: Quanto tempo faz que vcs estão em Paris?
A1: Sete meses
O2: E não conhecem o Mexicano? Nossa! É como não conhecer a torre
A2: Vamos embora?
...
A1: Se a gente não for hoje nesse Mexicano, nunca mais vai conseguir. Pq amanhã é feriado, e o lugar esquenta lá pelas 23h. A gente nunca mais vai conseguir
A2: Até o samba que a gente gosta fica difícil de ir de domingo. E ele começa mais cedo
A1: Vamos?
...
Olha a onda, olha a onda (clap clap)...olha a onda, olha a onda (clap, clap)...
domingo, 25 de março de 2012
Le soleil, une nouvelle coupe de cheveux et l'ascenseur
E daí que a primavera chegou e todo mundo decidiu ir pra rua. Todo mundo mesmo. Inclusíve nós, brasileiros, que achamos que 21ºC nem é tão quente. Aqui em Paris é. Juro.
E ontem, sábado, o dia tava lindo, céu claro, temperatura subindo e eu e Fernanda resolvemos comprar roupa para o trabalho. A gente sempre trabalhou em redação, então é um pouco diferente ir para uma empresa todos os dias, onde a maioria das pessoas não veste calça jeans. Enfim. Fomos lá nas lojas de sempre e decidimos almoçar num restaurante mais tradicional, no Châtelet. Vale fazer um parênteses para falar dos efeitos do sol no humor das pessoas. É incrível. Os garçons têm sido extremamente simpáticos. E, olha, todo mundo já deve ter ouvido falar do atendimento na França. Eles não conhecem aquela frase do 'cliente tem sempre razão'.
Bref. A gente almoçou, todo mundo tava dando sorrisos em volta e a gente decidiu cortar o cabelo. Esse era um assunto que tava sendo discutido há um tempão. Desde o começo do inverno, queria cortar franja. Decidi que ia fazer isso no Brasil, mas o calor era tanto que não conseguia imaginar o cabelo caindo no rosto. Aí que surgiu a oportunidade. Rumamos para um salão que tinha horário para dali a 40 minutos. Et voilà. Passamos por uma nova experiência antropológica, falando em francês com a cabeleireira e explicando o corte. Agora, temos franja. E a cabeleireira ainda disse que as brasileiras geralmente têm bastante cabelo e eles são muito brilhantes. Foi simpática, como os garçons.
Aí que chegando no prédio onde moro, encontrei dois rapazes que seguraram a porta do elevador. E entrei. E eles entraram em seguida. E aí éramos em seis num elevador que tem capacidade para cinco pessoas. O que o elevador fez? Parou. Assim, entre o térreo e o primeiro andar. Uma nova experiência antropológica. Éramos eu, um casal muçulmano (com a moça com o véu), dois jovens rapazes e uma senhora. Um dos rapazes ligou para o técnico, apertando um botãozinho no 'painel'. A senhora ficava falando 'é nossa culpa, o elevador tem capacidade para cinco pessoas'. E a muçulmana começou a reclamar que tava sentindo vertigem. Sem saber o que fazer, falei para ela afrouxar o véu. E me toquei, instantaneamente, que poderia estar cometendo algum sacrilégio. Olhei para o marido dela, assustada, e falei 'é proibido?'. Ele riu, provavelmente da minha cara de vergonha, e disse que tudo bem. Aí ela disse que tinha melhorado e ligou para os bombeiros. 'Oi, a gente tá preso no elevador. Somos em seis em um elevador pequeno'. O bombeiros perguntou a capacidade e aí respondeu 'Mas a culpa é de vcs'. Pois é. Um lugar em que bombeiro dá bronca pelo telefone. Eu tava estranhando mesmo o bom humor durante o dia. No fim, depois de uns 15 min, eu acho, chegou o técnico, que abriu a porta e a gente saiu. Foi rápido, ninguém nem teve falta de ar grave. Foi só um susto. O mais bem humorado dos rapazes ainda falou 'É bom que a gente tem assunto para falar na mesa do jantar'. Pq, gente, foi dia de sol e é claro que a gente tinha que acabar rindo. Menos os bombeiros.
E ontem, sábado, o dia tava lindo, céu claro, temperatura subindo e eu e Fernanda resolvemos comprar roupa para o trabalho. A gente sempre trabalhou em redação, então é um pouco diferente ir para uma empresa todos os dias, onde a maioria das pessoas não veste calça jeans. Enfim. Fomos lá nas lojas de sempre e decidimos almoçar num restaurante mais tradicional, no Châtelet. Vale fazer um parênteses para falar dos efeitos do sol no humor das pessoas. É incrível. Os garçons têm sido extremamente simpáticos. E, olha, todo mundo já deve ter ouvido falar do atendimento na França. Eles não conhecem aquela frase do 'cliente tem sempre razão'.
Bref. A gente almoçou, todo mundo tava dando sorrisos em volta e a gente decidiu cortar o cabelo. Esse era um assunto que tava sendo discutido há um tempão. Desde o começo do inverno, queria cortar franja. Decidi que ia fazer isso no Brasil, mas o calor era tanto que não conseguia imaginar o cabelo caindo no rosto. Aí que surgiu a oportunidade. Rumamos para um salão que tinha horário para dali a 40 minutos. Et voilà. Passamos por uma nova experiência antropológica, falando em francês com a cabeleireira e explicando o corte. Agora, temos franja. E a cabeleireira ainda disse que as brasileiras geralmente têm bastante cabelo e eles são muito brilhantes. Foi simpática, como os garçons.
Aí que chegando no prédio onde moro, encontrei dois rapazes que seguraram a porta do elevador. E entrei. E eles entraram em seguida. E aí éramos em seis num elevador que tem capacidade para cinco pessoas. O que o elevador fez? Parou. Assim, entre o térreo e o primeiro andar. Uma nova experiência antropológica. Éramos eu, um casal muçulmano (com a moça com o véu), dois jovens rapazes e uma senhora. Um dos rapazes ligou para o técnico, apertando um botãozinho no 'painel'. A senhora ficava falando 'é nossa culpa, o elevador tem capacidade para cinco pessoas'. E a muçulmana começou a reclamar que tava sentindo vertigem. Sem saber o que fazer, falei para ela afrouxar o véu. E me toquei, instantaneamente, que poderia estar cometendo algum sacrilégio. Olhei para o marido dela, assustada, e falei 'é proibido?'. Ele riu, provavelmente da minha cara de vergonha, e disse que tudo bem. Aí ela disse que tinha melhorado e ligou para os bombeiros. 'Oi, a gente tá preso no elevador. Somos em seis em um elevador pequeno'. O bombeiros perguntou a capacidade e aí respondeu 'Mas a culpa é de vcs'. Pois é. Um lugar em que bombeiro dá bronca pelo telefone. Eu tava estranhando mesmo o bom humor durante o dia. No fim, depois de uns 15 min, eu acho, chegou o técnico, que abriu a porta e a gente saiu. Foi rápido, ninguém nem teve falta de ar grave. Foi só um susto. O mais bem humorado dos rapazes ainda falou 'É bom que a gente tem assunto para falar na mesa do jantar'. Pq, gente, foi dia de sol e é claro que a gente tinha que acabar rindo. Menos os bombeiros.
terça-feira, 20 de março de 2012
Happy hour
Existe uma espécie de piada que fazemos por aqui, que é o fato de não podermos reclamar de nada porque a gente tá em Paris. Parece que fica proibido ter qualquer tipo de problema ou dificuldade por aqui. E não é fácil. Porque viemos pra cá pra estudar. Todo mundo faz master e o ensino aqui é bem puxado. Fora que é em francês. E não é só entender as aulas. A gente tem de fazer trabalho, prova, apresentação e dissertação em outro idioma.
Claro que todo mundo sabia que não ia ser um mar de rosas. Mas todo o nosso percurso não foi um *click*. A gente decidiu, a gente passou por todas as burocracias, fez milhares de cartas de motivação (pois é, nem queira saber o que é isso), pagou tradução juramentada de todos os documentos, passou pela agonia da espera do resultado, teve de pagar passagem, procurar lugar pra morar, fazer as contas da cotação do euro, passar pelo estresse do visto, se despedir de toda a família...
E aí, depois de toda essa defesa a nós, estudantes sofredores, tenho de confessar: não é fácil, mas tem dia que vale muito a pena ter passado por todo esse sacrifício. E dá até um sentimento de "não posso reclamar, porque estou em Paris".
Não sei se ficou muito claro. Mas foi assim na sexta-feira passada. Estava rolando um clima de "a primavera chegou antes do previsto". Na quinta, como comentei por aqui, fez 20 graus. Na sexta, parecia menos, mas ainda estava "quente". E eu e Fernanda, minha amiga de todas horas francesas, decidimos fazer uma happy hour perto da Rue Mouffetard que, por acaso, é perto de onde fiz meu aniversário no ano passado. Aí a gente já tinha bebido nossas cervejas e falei "É aqui perto que fica aquela escada onde passava o carro de Meia-noite em Paris". E decidimos encontrá-la. E encontramos.
Quando olhamos para o lado, vimos o Panthéon. E fomos para lá. Coisamaislinda. Foi exatamente lá, há dois anos, que decidi que queria morar em Paris. Eu lembro de ter saído do Panthéon, olhado para a faculdade de direito que fica ao lado e pensado "Pq não sou advogada?". Mas nem precisei. Vim, como jornalista. Vim, do jeito que queria.
Depois, descemos o Boulevard Saint Michel e paramos na Place de la Sorbonne. Que é nossa escola.
A Fer acabou entrando no RER e eu ainda vi mais uma vez a estátua de Saint Michel e, no outro quarteirão, a Notre Dame.
E cheguei em casa com uma sensação boa. De que, sim, a gente tá em Paris. E "só" isso já é bem legal. Mas me deixa reclamar em paz qdo eu quiser, hein? ;-)
Claro que todo mundo sabia que não ia ser um mar de rosas. Mas todo o nosso percurso não foi um *click*. A gente decidiu, a gente passou por todas as burocracias, fez milhares de cartas de motivação (pois é, nem queira saber o que é isso), pagou tradução juramentada de todos os documentos, passou pela agonia da espera do resultado, teve de pagar passagem, procurar lugar pra morar, fazer as contas da cotação do euro, passar pelo estresse do visto, se despedir de toda a família...
E aí, depois de toda essa defesa a nós, estudantes sofredores, tenho de confessar: não é fácil, mas tem dia que vale muito a pena ter passado por todo esse sacrifício. E dá até um sentimento de "não posso reclamar, porque estou em Paris".
Não sei se ficou muito claro. Mas foi assim na sexta-feira passada. Estava rolando um clima de "a primavera chegou antes do previsto". Na quinta, como comentei por aqui, fez 20 graus. Na sexta, parecia menos, mas ainda estava "quente". E eu e Fernanda, minha amiga de todas horas francesas, decidimos fazer uma happy hour perto da Rue Mouffetard que, por acaso, é perto de onde fiz meu aniversário no ano passado. Aí a gente já tinha bebido nossas cervejas e falei "É aqui perto que fica aquela escada onde passava o carro de Meia-noite em Paris". E decidimos encontrá-la. E encontramos.
![]() |
| Meia-noite em Paris (foto de celular, hein) |
![]() |
| O Panthéon (em foto roubada da Fe, com o maior carinho)... |
![]() |
| A faculdade de direito, linda, linda |
A Fer acabou entrando no RER e eu ainda vi mais uma vez a estátua de Saint Michel e, no outro quarteirão, a Notre Dame.
E cheguei em casa com uma sensação boa. De que, sim, a gente tá em Paris. E "só" isso já é bem legal. Mas me deixa reclamar em paz qdo eu quiser, hein? ;-)
quinta-feira, 15 de março de 2012
Les 4 saisons
Sempre achei muito interessante essa relação com o clima aqui no hemisfério Norte. Geralmente, quando falamos que somos do Brasil, uma das primeiras reações é "Ah, lá faz sol".
Eu não gosto de calor, de todo mundo transpirando, aquele bafo e depois aquela chuva. Claro que é outra coisa se vc está de férias, pode ir à piscina ou à praia. Mas, mesmo assim, não me agrada muito a ideia de ter essa rotina por muitos meses seguidos.
Quando cheguei em Paris, a temperatura estava perto do 15ºC. Depois, veio uma onda de calor. E aí começou a esfriar. Agora, está começando a esquentar de novo. Há duas semanas, fez 12ºC e até combinamos um pique-nique nas escadarias da Sacré Coeur para comemorar. Não deu muito certo. O tempo virou e até choveu. Mas foi divertido.
Semana passada, começou a esquentar de novo. Hoje, chegou a fazer 20ºC, segundo o serviço de meteorologia. É muito engraçado reparar nas mudanças. As pessoas começam a olhar mais pra cima e parecem, sim, mais simpáticas e felizes. Os bares, que antes eram todos fechados, agora têm mesas e cadeiras nas ruas e portas e janelas escancaradas. A cerveja deve continuar quente -- mas isso ainda não conferi.
Eu acho que essa sequência de estações, de verdade, explica um pouco dessa coisa dos europeus serem mais 'organizados'. Porque a gente realmente acompanha um ciclo, sabe? No inverno, todo mundo fica em casa, mais família, recebendo amigos. Aí, aos poucos, começa a sair. Até que, no verãozão, vc já tá mais cansado. E vem o outono, que te faz reduzir o ritmo. E começa tudo de novo.
Nesse tempo todo, tem de arrumar armário, pq geralmente as pessoas não têm espaço para todas as roupas. Aí vc separa seus casacões e vestidinhos. É uma outra organização da vida mesmo. E estou gostando de passar por isso.
Eu não gosto de calor, de todo mundo transpirando, aquele bafo e depois aquela chuva. Claro que é outra coisa se vc está de férias, pode ir à piscina ou à praia. Mas, mesmo assim, não me agrada muito a ideia de ter essa rotina por muitos meses seguidos.
Quando cheguei em Paris, a temperatura estava perto do 15ºC. Depois, veio uma onda de calor. E aí começou a esfriar. Agora, está começando a esquentar de novo. Há duas semanas, fez 12ºC e até combinamos um pique-nique nas escadarias da Sacré Coeur para comemorar. Não deu muito certo. O tempo virou e até choveu. Mas foi divertido.
| Helena-querida e nossa mesa de pique-nique, antes da chuva |
Semana passada, começou a esquentar de novo. Hoje, chegou a fazer 20ºC, segundo o serviço de meteorologia. É muito engraçado reparar nas mudanças. As pessoas começam a olhar mais pra cima e parecem, sim, mais simpáticas e felizes. Os bares, que antes eram todos fechados, agora têm mesas e cadeiras nas ruas e portas e janelas escancaradas. A cerveja deve continuar quente -- mas isso ainda não conferi.
Eu acho que essa sequência de estações, de verdade, explica um pouco dessa coisa dos europeus serem mais 'organizados'. Porque a gente realmente acompanha um ciclo, sabe? No inverno, todo mundo fica em casa, mais família, recebendo amigos. Aí, aos poucos, começa a sair. Até que, no verãozão, vc já tá mais cansado. E vem o outono, que te faz reduzir o ritmo. E começa tudo de novo.
Nesse tempo todo, tem de arrumar armário, pq geralmente as pessoas não têm espaço para todas as roupas. Aí vc separa seus casacões e vestidinhos. É uma outra organização da vida mesmo. E estou gostando de passar por isso.
![]() |
| Paris e o sol, hoje (15.mar), no fim da tarde. A foto é da comunidade J'aime Paris, do Facebook |
segunda-feira, 5 de março de 2012
Six mois
Céu claro. Uma casa de boneca. Papelada pra matrícula. Papelada pro titre de séjour. Pontes do Sena, torre, Arco do Triunfo. Tosse. Aulas. Encontros e reencontros. Vinho bom e barato no supermercado. Pique-nique. Mais aulas. Trabalhos em grupo. Cadê o francês que estudei tanto? Bière pression mais barata na happy hour. Sopa de cebola. Mais aulas. Trabalhos em grupo. Um pouco de inglês e um tantão de francês. Calor. Flores na casa do Monet. Moules et frites. Aniversário. Frio. Folhas da cor do outono. Sobrinho nascendo (ainda bem que o Facebook avisa). Champs Elysées de domingo. Rugby. Compras. Feriado sem nada pra fazer. Mais aulas. Apresentações. Feriado com viagem curta. Mais trabalhos. Mudança. Encontros e desencontros. Férias curtas, mas com direito a folga no Natal e Ano Novo. Neve nos Alpes. Strasbourg. Simpatia de réveillon. Casa cheia. Champagne, bière pression na jarra, shots. Casa vazia. Coração vazio, sem minha avó. Mais aulas. Mais trabalhos. E provas. E apresentações. Gripe. Mais provas e apresentações. Neve antes de pegar o metrô. Samba. Brasil. Miguel. Minha casa, tão longe da dos meus pais. Biblioteca. Mémoire. Carnaval pela metade. Folga sem folga. Moulin Rouge, Sacré Coeur, Café 2 Moulins. Samba de verdade. Encontros. Mais papelada. Notre Dame, cadeados dos apaixonados, Tuileries, boeuf bourguignon. Estágio.
E assim foram meus primeiros seis meses de Paris.
E assim foram meus primeiros seis meses de Paris.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Le carnaval parisien
Nuossa. Faz tempo que não escrevo aqui. Até me esqueci de contar como foi o carnaval. Então, esse post vai ser basicamente sobre isso. Depois 'atualizo'.
Eu, sinceramente, não estava botando muita fé no carnaval pariense. Mas também não estava sofrendo como a Fernanda, minha alma gêmea daqui. Acho que porque eu havia acabado de voltar do calor escaldante do Brasil e dá até um certo alívio não derreter cada vez que a gente sai na rua. Mas enfim. O carnaval tava lá, no calendário. Eu sabia que uma hora ia querer ouvir uma bateria e tentei acreditar que acompanhar a transmissão pelo G1 seria suficiente.
Para não pensarmos muito nisso, sugeri um jogo de rugby no sábado à tarde. E lá fomos nós, eu e Fernanda, pessoas que gostam da folia, descobrir Saint Denis, uma cidade que fica aqui do lado de Paris. O estádio onde aconteceu o jogo foi o mesmo onde o Brasil perdeu a Copa de 1998. Logo, era importante conhecê-lo e seria interessante que isso não acontecesse num jogo de futebol, pq os franceses adoram lembrar da vitória deles.
Aproveitamos para conhecer a catedral de Saint Denis. Por fora, não é muito impressionante. Ou melhor, é. Mas lembra bem a Notre Dame e tantas outras que a gente conhece. Depois de entrarmos, descobrimos que é lá que ficam os restos mortais dos reis da França. Tinha até da Maria Antonieta. O lugar é frio, muito frio, mas vale a visita.
Depois, procuramos um lugar para almoçar e, sinceramente, não foi fácil. Não tinha nada muito 'apresentável'. Acabamos pedindo quiche mas, mesmo assim, foi decepcionante. E seguimos para o jogo.
O estádio é muito bonito. Sinceramente, não me lembro de ter visitado um lugar como esse no Brasil. Quando chegamos, uma banda estava tocando. Depois, houve uma tentativa de carnaval. Ça veut dire. Várias moças entraram dançando de biquíni e acessórios como de escolas de samba, seguidas por uma minibateria e uma ala de capoeiristas (????). Era um samba bem do fraco. Os franceses, na arquibancada, não entendiam nada. Eu e a Fernanda ficamos rindo. E as moças dançando, naquele frio. Elas deram a volta no campo e depois entraram no gramado. De repente, um minicarro alegórico parou e algumas delas entraram. O locutor, tentando explicar o vexame, falava "Hoje é carnaval!". Mas ninguém se empolgou muito.
E enfim o jogo começou. Paris (que usa um uniforme rosa) e Toulon (preto e vermelho). Já havia aprendido as regras básicas com o Eduardo, namorado da Fe. Mas ele não estava com a gente. Então, foi meio na raça. De qualquer maneira, eu acho muito engraçado aquele bando de homem, um em cima do outro, e a bola saindo voando do meio dessa confusão. Foi bem legal, um empate de 19 a 19, arrancado nos últimos segundos, literalmente.
Depois do jogo, fomos para a Cidade Universitária, onde rolou uma festa de carnaval de verdade, levando em consideração todo o contexto. A gente tava meio cansada e não seguimos a 'orientação' de irmos fantasiadas. Ficamos arrependidas. Ainda bem que os organizadores deixaram umas máscaras pretas para os desavisados (merci, Pedro). O jeito foi dançarmos parecendo a "tiazinha" depois da fama. E tocou marchinha. Jorge Ben. E teve cerveja gelada. O que mais a gente podia querer?
Domingo teve carnaval de rua. Eram oito ou nove blocos, um atrás do outro. Uma zona. Tinha de tudo -- até um povo com cara de boliviano, sabe? As baterias se misturavam. Mas foi animado. E serviu pra mostrar, principalmente, que carnaval não combina com frio. É um pouco estranho tentar acompanhar os grupos sem luvas. Tava sol, mas não tava quente. Pelo menos descobri uma escola de samba aqui (chama Aquarela).
Observação: esse post é quase uma homenagem. Feeeer (Bochembuzo), escrevi pq vc falou que tá com saudades!
Eu, sinceramente, não estava botando muita fé no carnaval pariense. Mas também não estava sofrendo como a Fernanda, minha alma gêmea daqui. Acho que porque eu havia acabado de voltar do calor escaldante do Brasil e dá até um certo alívio não derreter cada vez que a gente sai na rua. Mas enfim. O carnaval tava lá, no calendário. Eu sabia que uma hora ia querer ouvir uma bateria e tentei acreditar que acompanhar a transmissão pelo G1 seria suficiente.
Para não pensarmos muito nisso, sugeri um jogo de rugby no sábado à tarde. E lá fomos nós, eu e Fernanda, pessoas que gostam da folia, descobrir Saint Denis, uma cidade que fica aqui do lado de Paris. O estádio onde aconteceu o jogo foi o mesmo onde o Brasil perdeu a Copa de 1998. Logo, era importante conhecê-lo e seria interessante que isso não acontecesse num jogo de futebol, pq os franceses adoram lembrar da vitória deles.
| Demorei pra baixar e acabei apagando, sem querer, outras fotos melhores. Por isso a catedral está torta |
| Estatuetas ficam espalhadas no fundo da igreja |
| Antes do começo do jogo |
| Pois é. Ninguém entendeu |
| A foto ainda é do aquecimento |
| Parte do bloco 'Vai, tiazinha', na festa de sábado |
| Uma bateriazinha pra quem tava em crise de abstinência |
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Un petit cadeau
Meu pai viveu boa parte da vida dele com três mulheres em casa. Todos os aniversários, nós escolhíamos camisas lindas na loja de um amigo dele, lá no interior. Tentávamos ousar, escolher um xadrez vermelho, alguma coisa meio rosa. Toda vez que isso acontecia, ele passava na loja e trocava. Sem mágoas. A gente tentava, mas, no fundo, sabia que ia acabar assim.
Depois, eu e minha irmã mudamos de cidade. Começamos a comprar "pólos". Para evitar transtornos, escolhíamos sempre alguma coisa azul ou branca. No máximo, verde escuro, amarelo claro ou cinza. Nada de muita ousadia, porque não é mesmo a cara dele.
Até que mudei pra Paris. E tava lá, andando pela Champs Elysées e pensando em um presente para ele. E vi a Lacoste, com cartazes imensos de soldes. Entrei. Um vendedor muito simpático me atendeu. Depois que expliquei minha preocupação com o tamanho (meu pai tem ombros largos e os franceses me parecem menores), ele me ajudou a chegar a um modelo mais tradicional e até elogiou meu francês. O último passo, porém, era só meu -- escolher a cor. Naquele momento, depois da última prova do master e com tanta coisa na cabeça, esqueci de todos os aniversários do Augusto e dos dias dos pais da minha vida. A Luciane que tava lá na loja era aquela que já morava havia quase cinco meses em Paris. Que já gostava de bota de pelos, de brilho durante o dia, muita maquiagem e cabelo armado. Que estava empolgada com a nova coleção chegando às lojas e com as cores fortes. E aí puxei uma pólo verde. Verde bem verde. Verde tipo abacate, sabe?
Cheguei ao Brasil no dia do aniversário dele, um dos homens mais importantes da minha vida (porque agora tem o Miguel, né??). Empolgadíssima, tirei da mala a pólo da Lacoste. Ele ficou feliz, claro. Experimentou, tentou falar que tava bom. Mas tava grande. Pouca coisa. Mas num tava caindo bem. Pegamos uma outra blusa dele da mesma marca e, de fato, era um número menor. Tudo bem. Sugeri trocar. Alguns dias depois, discretamente, minha mãe veio me falar que era melhor escolher uma outra cor. Mais discreta. Claro. Nessa hora, a ficha caiu.
Voltei pra Paris, passei uma tarde na biblioteca da escola e cheguei pensando que tinha de trocar o presente, né? Procurei a nota e vi que o prazo para échange tinha acabado havia um dia. Na minha cabeça, programei todo o drama. Ia jogar a frase mágica 'Je suis brésilienne'. Aí era só fazer uma cara de perdida.
Bem, hoje coloquei casaco e cachecol e fui para a Champs Elysées. Uma senhora loira e muito simpática me atendeu e disse que era só subir e procurar uma blusa para a troca. Falei com o vendedor do andar de cima. Ele foi procurar o número. "Não tem mais", falou. Mas continuou procurando. Até que achou. "Tenho só uma! Vc deu sorte!". Na hora que olhei, dei risada. Juro. Porque eu já tinha lembrado de todos os aniversários e dias dos pais. Mas tive de descer e fazer a troca, sem nem precisar do texto decorado. E cá estou com uma pólo laranja. Para o meu pai, aquele que gosta de tons pastéis. Era isso ou isso.
E enfim. Tô pensando no que fazer com ela. Se tiver coragem o suficiente para enviar pra ele, tenho de avisar que é um modelito verão. Bem verão. A cara do Brasil. E a cor da próxima estação (isso é verdade, todas as coleções primavera por aqui são laranjas ou verdes). Enfim. Não tive coragem de contar pra ele ainda. Vim aqui pra desabafar.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Brésil
Acabei de voltar de 'miniférias' de dez dias no Brasil. Nesse período, eu:
- conheci o Miguel;
- revi família e amigos;
- me apaixonei pelo Miguel;
- fui à casa da minha avó e senti um vazio enorme, que parece que nunca vai ter fim;
- apertei o Miguel;
- fiz as unhas, depilei com cera quente e cortei cabelo;
- batizei o Miguel;
- fui a dois churrascos e comi muita comida da minha mãe;
- me diverti com o Miguel;
- dormi bastante;
- ajudei a cuidar do Miguel;
- remexi em algumas coisas antigas;
- beijei o Miguel e quase fui beijada por ele (pq ele ainda não sabe fazer tudo, né?);
- fui ver XV 0 x 2 Catanduvense, debaixo de chuva, no estádio;
- não me cansei de olhar para o Miguel.
Fazendo um balanço, é óbvio que o Miguel roubou toda a minha atenção. Ele é muito mais lindo, cheiroso e simpático do que qualquer um pode imaginar vendo as fotos. Foi muito duro sentir a falta que minha avó faz. Mas foi muito bem sentir o coração enchendo cada vez que via os olhinhos azuis do meu sobrinho. Eu queria que os dois tivessem se conhecido.
- conheci o Miguel;
- revi família e amigos;
- me apaixonei pelo Miguel;
- fui à casa da minha avó e senti um vazio enorme, que parece que nunca vai ter fim;
- apertei o Miguel;
- fiz as unhas, depilei com cera quente e cortei cabelo;
- batizei o Miguel;
- fui a dois churrascos e comi muita comida da minha mãe;
- me diverti com o Miguel;
- dormi bastante;
- ajudei a cuidar do Miguel;
- remexi em algumas coisas antigas;
- beijei o Miguel e quase fui beijada por ele (pq ele ainda não sabe fazer tudo, né?);
- fui ver XV 0 x 2 Catanduvense, debaixo de chuva, no estádio;
- não me cansei de olhar para o Miguel.
Fazendo um balanço, é óbvio que o Miguel roubou toda a minha atenção. Ele é muito mais lindo, cheiroso e simpático do que qualquer um pode imaginar vendo as fotos. Foi muito duro sentir a falta que minha avó faz. Mas foi muito bem sentir o coração enchendo cada vez que via os olhinhos azuis do meu sobrinho. Eu queria que os dois tivessem se conhecido.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Merci, SP
Eu não ia escrever mais nada no blog hoje. Porque tenho milhares de coisas pra fazer. Mas é aniversário de São Paulo e um monte de gente está por aí, fazendo declarações. Eu não pude deixar de pensar na minha relação com a cidade. Foi SP que me trouxe para Paris. Na verdade, foi SP que me transformou no que eu sou hoje. Foi ela que me ensinou a trabalhar, tirou meu medo de dirigir, me deu tantos amigos...Foi lá que passei os melhores anos da minha vida.
Eu lembro do começo do meu 'relacionamento' com SP. Depois de fazer os vestibulares e antes de saber os resultados, peguei um ônibus em Campinas (SP) para Balneário Camboriú (SC). Quando ele parou na rodoviária do Tietê, na Zona Norte da capital, olhei para aquela movimentação toda e pensei "Meu Deus, eu nunca vou conseguir andar sozinha aqui". Até comentei com meus pais.
Alguns meses depois, as aulas já tinham começado e atravessei a mesma rodoviária, numa sexta-feira, para pegar o ônibus de volta para Piracicaba (SP). Lembro até hoje da sensação de superação e do orgulho que senti de não ter mais medo e até estar começando a ficar mais íntima daquela pauliceia desvairada.
Hoje lembrei ainda que, quando falei pra minha mãe que fui aprovada por uma universidade de Paris, ela chorou (eu também, claro). Mas meu pai fez uma ponderação importante. Ele disse que, guardadas as devidas proporções, a minha mudança para fazer faculdade foi muito mais ousada do que essa. Eu saí de Piracicaba com 17 anos, rumo a São Bernardo do Campo. Que, para mim, era SP. Aos poucos, fui aprendendo a me virar na metrópole e cheguei à Av. Paulista. Aos poucos, meu mundo foi ficando bem maior do que aquela área que reúne tantos milhões de habitantes. Aos poucos, SP foi me deixando pronta para alçar novos voos. E aí, de repente, deixei a rodoviária para trás e fui até o aeroporto. Se não fosse SP, eu não estaria aqui.
Eu lembro do começo do meu 'relacionamento' com SP. Depois de fazer os vestibulares e antes de saber os resultados, peguei um ônibus em Campinas (SP) para Balneário Camboriú (SC). Quando ele parou na rodoviária do Tietê, na Zona Norte da capital, olhei para aquela movimentação toda e pensei "Meu Deus, eu nunca vou conseguir andar sozinha aqui". Até comentei com meus pais.
Alguns meses depois, as aulas já tinham começado e atravessei a mesma rodoviária, numa sexta-feira, para pegar o ônibus de volta para Piracicaba (SP). Lembro até hoje da sensação de superação e do orgulho que senti de não ter mais medo e até estar começando a ficar mais íntima daquela pauliceia desvairada.
Hoje lembrei ainda que, quando falei pra minha mãe que fui aprovada por uma universidade de Paris, ela chorou (eu também, claro). Mas meu pai fez uma ponderação importante. Ele disse que, guardadas as devidas proporções, a minha mudança para fazer faculdade foi muito mais ousada do que essa. Eu saí de Piracicaba com 17 anos, rumo a São Bernardo do Campo. Que, para mim, era SP. Aos poucos, fui aprendendo a me virar na metrópole e cheguei à Av. Paulista. Aos poucos, meu mundo foi ficando bem maior do que aquela área que reúne tantos milhões de habitantes. Aos poucos, SP foi me deixando pronta para alçar novos voos. E aí, de repente, deixei a rodoviária para trás e fui até o aeroporto. Se não fosse SP, eu não estaria aqui.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Bizarre
Pensem numa pessoa alta, com peito e bunda. E com voz rouca, bem grossa. Não, não é um traveco. Sou eu, resfriada bem na semana das apresentações. Tsc, tsc.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Le samba
Pensem num lugar apertado e quente. Muito quente. Mais quente do que isso. Bem, era assim o samba que fomos ontem (eu, Fernanda e Mayra, que saiu de Strasbourg para se divertir em Paris nesse week-end). O lugar escolhido para a sexta foi recomendado por um colega brasileiro que mora aqui há alguns anos. Chama Bairro Alto, fica perto da estação Bonne Nouvelle. Eu transpirei muito, como se tivesse tomando sol na areia da praia, ao meio-dia. Sambei como se estivesse num ensaio de escola de samba. Tomei caipirinha, pq era mais gelada do que a cerveja. Fiquei dividindo espaço com franceses que balançavam os pés freneticamente achando que estavam sambando e, principalmente, com uma senhora estranha, que se remexia o tempo todo, com os olhos fechados (tipo sentindo a música) e fazia barulho de árabe (lembram de 'O Clone'?) de tempos em tempos. Foi muito bom.
Hoje (sábado), o programa era estudar. Mas decidimos almoçar fora e, gente, fomos a um restaurante brasileiro. Caipirinhas e batidas muito boas e coxinha de verdade. Tem noção? Mas agora tenho de voltar à realidade. E vou estudar. Courage para mim.
![]() |
| Foto tirada pelo celular, por isso tá péssima |
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Janvier
Sabe aquela história de ano novo, vida nova? Tá meio complicada essa nova vida por aqui.
Até tive boa notícia. Mas teve a morte da minha avó, tem milhares de provas e trabalhos, tem minha olheira que já tá quase no queixo. Gente. Cadê aquela festa toda do réveillon? Parece que foi há séculos.
PS: Só pra não brigar com santo (dona Ada tb me ensinou que isso não se faz), acendi velas para Santo Antônio lá na igreja de São José. Achei melhor deixar registrado.
Até tive boa notícia. Mas teve a morte da minha avó, tem milhares de provas e trabalhos, tem minha olheira que já tá quase no queixo. Gente. Cadê aquela festa toda do réveillon? Parece que foi há séculos.
PS: Só pra não brigar com santo (dona Ada tb me ensinou que isso não se faz), acendi velas para Santo Antônio lá na igreja de São José. Achei melhor deixar registrado.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Le baptême
Ainda de "ressaca" depois de perder a minha avó, tive que retomar o foco. Ou pelo menos tentar. E aí que se alguém me perguntar hoje: quem é você? Eu respondo: étudiante en Master 2, neta da dona Ada, filha da Célia e tia-quase-madrinha do Miguel.
Seguindo essa lógica, hoje acordei, fiz várias coisas e fui para a aula. Saí cansada, meio desnorteada, pensando na quantidade enorme de trabalhos e provas desse mês. Cheguei em casa e lembrei que hoje era o dia do curso do batizado, na igreja aqui perto de casa, que chama Saint Joseph des Nations. E aí entra dona Ada, que me dizia que eu tinha de rezar para São José, porque Santo Antônio arruma namorado e já tava na hora de eu procurar marido, pai de família. Depois da nossa última desilusão conjunta (ela gostava muito do meu último ex-namorado), tenho a impressão que ela deu uma amenizada nas orações. Enfim. Retomando o assunto. Eu tava cansada, mas lembrei da vó Ada me falando bem de Saint Joseph. E lá fui eu.
Cheguei e a madame da sacristia nem sabia que ia ter curso de batismo. Me levou para uma sala ao lado da igreja, que tinha várias camas dessas de montar, com uma mesa enorme, e tive a impressão que o lugar funcionava como um albergue para sem-teto. Aí um monsieur que estava lá foi comigo até a secretaria da igreja, deu uma olhada num livro e viu que sim, tinha a preparação do baptême. Aí expliquei que sou brasileira, que vou para o Brasil batizar meu sobrinho e precisava de um atestado da preparação do sacramento. Sabe o que ele respondeu? 'Vc tem certeza? Porque na França só os pais fazem o curso. A madrinha não precisa'.
Parênteses. Sábado eu fui até a igreja perto da outra casa para perguntar do batismo, porque eu sabia que lá tinha uma comunidade portuguesa e talvez a preparação fosse em português. Claro que não tinha ninguém da comunidade no dia de informações para o batismo e, em francês, me disseram que eu tinha de procurar a minha paróquia. A madame foi até simpática e procurou numa listinha das igrejas de Paris. Chegando em casa, liguei para três igrejas da região. Ainda bem que, na mais próxima, disseram que tinha um curso nesta terça, e eu poderia participar. Eu falei com todo mundo. Expliquei que serei madrinha. E ninguém tinha me falado que nem precisava fazer o curso. Fecha parênteses.
Depois que o monsieur desinformado mas educado me disse que o curso não era obrigatório, eu fiz uma cara de meiga e respondi que, mesmo assim, queria participar porque no Brasil é obrigatório, COM CERTEZA. Afinal, sou neta da Ada e filha da Célia. Sei das formalidades da igreja ((essa última parte não falei pra ele)).
Aí fiquei quase duas horas, com outras três mães francesas, ouvindo um padre e uma senhora muito simpática explicarem todos os rituais de batismo na França. C'est-à-dire, se um dia tiver um filho nesse país, já sei até que é indicado trocar de roupa logo depois do batismo em si, dentro da igreja, e deixar o bebê sair com uma roupa branca, que significa a purificação. E ainda vou voltar à l'église amanhã, para pegar o atestado.
Aí cheguei em casa supercansada. Liguei o Skype para contar a minha saga e minha irmã (a mãe do Miguel) me diz: 'Vou te contar um segredo. Mamãe falou com o padre. Ele vai abrir uma exceção e os padrinhos não vão precisar fazer o curso'.
Seguindo essa lógica, hoje acordei, fiz várias coisas e fui para a aula. Saí cansada, meio desnorteada, pensando na quantidade enorme de trabalhos e provas desse mês. Cheguei em casa e lembrei que hoje era o dia do curso do batizado, na igreja aqui perto de casa, que chama Saint Joseph des Nations. E aí entra dona Ada, que me dizia que eu tinha de rezar para São José, porque Santo Antônio arruma namorado e já tava na hora de eu procurar marido, pai de família. Depois da nossa última desilusão conjunta (ela gostava muito do meu último ex-namorado), tenho a impressão que ela deu uma amenizada nas orações. Enfim. Retomando o assunto. Eu tava cansada, mas lembrei da vó Ada me falando bem de Saint Joseph. E lá fui eu.
![]() |
| Pra ninguém confundir: esse é o São José |
Parênteses. Sábado eu fui até a igreja perto da outra casa para perguntar do batismo, porque eu sabia que lá tinha uma comunidade portuguesa e talvez a preparação fosse em português. Claro que não tinha ninguém da comunidade no dia de informações para o batismo e, em francês, me disseram que eu tinha de procurar a minha paróquia. A madame foi até simpática e procurou numa listinha das igrejas de Paris. Chegando em casa, liguei para três igrejas da região. Ainda bem que, na mais próxima, disseram que tinha um curso nesta terça, e eu poderia participar. Eu falei com todo mundo. Expliquei que serei madrinha. E ninguém tinha me falado que nem precisava fazer o curso. Fecha parênteses.
Depois que o monsieur desinformado mas educado me disse que o curso não era obrigatório, eu fiz uma cara de meiga e respondi que, mesmo assim, queria participar porque no Brasil é obrigatório, COM CERTEZA. Afinal, sou neta da Ada e filha da Célia. Sei das formalidades da igreja ((essa última parte não falei pra ele)).
Aí fiquei quase duas horas, com outras três mães francesas, ouvindo um padre e uma senhora muito simpática explicarem todos os rituais de batismo na França. C'est-à-dire, se um dia tiver um filho nesse país, já sei até que é indicado trocar de roupa logo depois do batismo em si, dentro da igreja, e deixar o bebê sair com uma roupa branca, que significa a purificação. E ainda vou voltar à l'église amanhã, para pegar o atestado.
Aí cheguei em casa supercansada. Liguei o Skype para contar a minha saga e minha irmã (a mãe do Miguel) me diz: 'Vou te contar um segredo. Mamãe falou com o padre. Ele vai abrir uma exceção e os padrinhos não vão precisar fazer o curso'.
| O que eu não faço por esse gatinho? |
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Ma grand-mère
Querida vó Ada,
Outro dia eu disse, aqui mesmo nesse blog, que sabia escrever em português. Pois é, as coisas mudaram. Agora tenho a impressão que não sei escrever em nenhum idioma. E é pior ainda quando quero conversar com pessoas importantes, como a senhora.
A última vez que nos falamos foi em 31 de dezembro do ano passado. Liguei para te desejar feliz ano novo e a senhora me desejou o mesmo. Deu a bênção, disse que ia rezar para Deus continuar me abençoando. Eu estava com as minhas amigas aqui e não deu para conversarmos muito. Eu até pensei em te ligar esses dias, novamente, para contar que encontrei uma outra igreja com comunidade portuguesa perto da minha nova casa aqui em Paris. Mas ainda não fui conhecer a igreja. E sabia que a senhora ia me perguntar detalhes e se já fui à missa. E perdi hora. Não fui à missa hoje.
E, depois de perder hora, minha irmã me ligou para dar a pior notícia que recebi na minha nova vida em Paris. Como assim, dona Immaculada? A senhora não me esperou para se despedir? Eu tinha tanta coisa para contar para a senhora...tantas fotos para mostrar...tantas situações engraçadas...tantos detalhes de viagens...tantas histórias que nos fariam dar risadas...que te deixariam com aquele sorrisinho meiguinho no rosto...ou que te fariam falar qualquer palavrão...
Eu queria ter ido à igreja da Nossa Senhora das Graças para comprar as medalhas que a senhora adora. Eu queria ter comprado várias guloseimas pra levar para a senhora deixar escondido no quarto, feito criança. Também queria te levar queijos diferentes, daqueles fortes que a gente adora. Eu queria te levar um casaco quentinho, porque aqui os casacos são mais quentinhos. Eu queria te contar que meu francês está melhorando. Porque sei que isso te deixaria orgulhosa. Eu ainda tinha tanta coisa pra conversar...
Eu queria arrumar minhas malas correndo e chegar a tempo de te dar um abraço. Mas não dá mais tempo, né? Eu queria chegar a tempo de dizer que amo a senhora, muito mais do que a senhora pode imaginar. Eu sei que muito do que sou devo às pessoas que cuidaram de mim desde pequenininha. Eu tentei aprender as lições que a senhora tentou me passar. Eu tentei te agradecer pelas orações, em vez de só pedir um pouco da sua fé 'emprestada'.
No fim das contas, vó, a gente não vai se despedir...e isso dói. Dói muito. Mas eu sei que a senhora estava cansada. Já havia repetido várias vezes que 'passou do prazo de validade'. Como tantas outras vezes, não concordo, mas respeito a sua vontade/opinião.
Eu só queria dizer, vó, que tenho saudades e que sei que essas saudades não vão acabar nunca. Eu só te peço para a senhora continuar olhando por mim, como fez desde que saí da barriga da minha mãe. E que me ajude a me acostumar a viver sem esse pedaço que perdi hoje.
Outro dia eu disse, aqui mesmo nesse blog, que sabia escrever em português. Pois é, as coisas mudaram. Agora tenho a impressão que não sei escrever em nenhum idioma. E é pior ainda quando quero conversar com pessoas importantes, como a senhora.
A última vez que nos falamos foi em 31 de dezembro do ano passado. Liguei para te desejar feliz ano novo e a senhora me desejou o mesmo. Deu a bênção, disse que ia rezar para Deus continuar me abençoando. Eu estava com as minhas amigas aqui e não deu para conversarmos muito. Eu até pensei em te ligar esses dias, novamente, para contar que encontrei uma outra igreja com comunidade portuguesa perto da minha nova casa aqui em Paris. Mas ainda não fui conhecer a igreja. E sabia que a senhora ia me perguntar detalhes e se já fui à missa. E perdi hora. Não fui à missa hoje.
E, depois de perder hora, minha irmã me ligou para dar a pior notícia que recebi na minha nova vida em Paris. Como assim, dona Immaculada? A senhora não me esperou para se despedir? Eu tinha tanta coisa para contar para a senhora...tantas fotos para mostrar...tantas situações engraçadas...tantos detalhes de viagens...tantas histórias que nos fariam dar risadas...que te deixariam com aquele sorrisinho meiguinho no rosto...ou que te fariam falar qualquer palavrão...
Eu queria ter ido à igreja da Nossa Senhora das Graças para comprar as medalhas que a senhora adora. Eu queria ter comprado várias guloseimas pra levar para a senhora deixar escondido no quarto, feito criança. Também queria te levar queijos diferentes, daqueles fortes que a gente adora. Eu queria te levar um casaco quentinho, porque aqui os casacos são mais quentinhos. Eu queria te contar que meu francês está melhorando. Porque sei que isso te deixaria orgulhosa. Eu ainda tinha tanta coisa pra conversar...
Eu queria arrumar minhas malas correndo e chegar a tempo de te dar um abraço. Mas não dá mais tempo, né? Eu queria chegar a tempo de dizer que amo a senhora, muito mais do que a senhora pode imaginar. Eu sei que muito do que sou devo às pessoas que cuidaram de mim desde pequenininha. Eu tentei aprender as lições que a senhora tentou me passar. Eu tentei te agradecer pelas orações, em vez de só pedir um pouco da sua fé 'emprestada'.
No fim das contas, vó, a gente não vai se despedir...e isso dói. Dói muito. Mas eu sei que a senhora estava cansada. Já havia repetido várias vezes que 'passou do prazo de validade'. Como tantas outras vezes, não concordo, mas respeito a sua vontade/opinião.
Eu só queria dizer, vó, que tenho saudades e que sei que essas saudades não vão acabar nunca. Eu só te peço para a senhora continuar olhando por mim, como fez desde que saí da barriga da minha mãe. E que me ajude a me acostumar a viver sem esse pedaço que perdi hoje.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Bonne année
Aqui em casa, 2011 acabou como foi durante o ano todo. Decidimos comer depois da meia-noite e tava todo mundo conversando. De repente a Mayra olhou para a televisão e já era 2012. Ou seja: preparei, pensei, investi naquele minuto. Mas as coisas aconteceram atropeladas. E foi assim. Já é 2012. Feliz ano novo para todo mundo.
Foi a primeira vez que 'recebi' nessa data. Mayra e Gabi, duas ex-estagiárias com quem trabalhei e que me orgulham muito, vieram aproveitar a virada em Paris. Mas não vou mentir -- não fui a responsável pela ceia. Quem preparou o salmão (maravilhoso), foi a Mayra. Assim como foi ela que deu orientação para o macarrão com molho branco e camarão. A Gabi ficou responsável pela parte mais mística da coisa. Foi dela a ideia da romã, da uva e de todas as outras iniciativas para garantir riqueza, felicidade, sucesso, saúde e muito amor no ano novo.
Não rolou festa na torre, nem na Champs Elysées. Não rolou nem a festa que a gente tava querendo ir, no 16 eme arrondissement. Mas eu estava com pessoas queridas e me diverti muito. O problema é essa sensação de vazio depois que todo mundo foi embora. Mas tá bom. Chega de drama -- é uma das promessas. Que venha 2012!
Foi a primeira vez que 'recebi' nessa data. Mayra e Gabi, duas ex-estagiárias com quem trabalhei e que me orgulham muito, vieram aproveitar a virada em Paris. Mas não vou mentir -- não fui a responsável pela ceia. Quem preparou o salmão (maravilhoso), foi a Mayra. Assim como foi ela que deu orientação para o macarrão com molho branco e camarão. A Gabi ficou responsável pela parte mais mística da coisa. Foi dela a ideia da romã, da uva e de todas as outras iniciativas para garantir riqueza, felicidade, sucesso, saúde e muito amor no ano novo.
Não rolou festa na torre, nem na Champs Elysées. Não rolou nem a festa que a gente tava querendo ir, no 16 eme arrondissement. Mas eu estava com pessoas queridas e me diverti muito. O problema é essa sensação de vazio depois que todo mundo foi embora. Mas tá bom. Chega de drama -- é uma das promessas. Que venha 2012!
Assinar:
Postagens (Atom)








