sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Dans le métro

Todo mundo poderia escrever um livro sobre as historias do metrô de Paris. Ja existem varios, inclusive. Uma amiga linda ja até escreveu uma matéria sobre isso (e recomendo a leitura, claro).

Normalmente, os franceses não puxam papo. Todo mundo sabe. Mas o metrô tem muito mais que franceses, né. E dai que a gente pode encontrar gente a fim de conversa. Domingo, eu tava indo à casa de uma amiga. Quando entrei na composição, tirei o cachecol e tava com o cabelo preso e fones de ouvido. Um menino senta do meu lado e gesticula. Ignorei a primeira vez. Ele continuou gesticulando. Tirei o fone e teve inicio o seguinte dialogo:
Ele - O que significa?
Eu – O quê?
Ele – Eu falei que achei a sua tatuagem bonita. O que significa essa estrela?
Eu – Nada especial.
Ele – Mas aqui na França tudo tem um significado.
Eu – Mas eu não sou francesa.
Ele – De onde você é?
Eu – Sou brasileita.
Ele – Ah? Da Bretanha? [Comentario: Gente. Bretanha é onde, né?]
Eu, com cara de “comoassim?” – Pois é, da Bretanha.
Ele –Eu não conheço a Bretanha. Fica no Norte da França, né? Eu conheço a Escandinavia, que fica mais pro Norte, né. A Noruega.
Eu – Ah, eu não conheço.
Ele – Sabe que la tem muito menos preconceito, né? Aqui na França, é muita gente te olhando, é estranho, é ruim.
Eu – Olha, não faço ideia...Não conheço a Noruega...
Ele – Vc é casada?
Eu – Sou [né? Qual é o tipo de resposta que eu daria?]
Ele – Ah, você tem filhos?
Eu – Tenho. Dois. [Ja olhando desesperadamente para o mapa da linha de metrô e contando quantas estações faltavam]
Ele – Seu marido é francês? 
Eu – Sim, ele é francês. 
Ele – Ai, que sorte dos seus filhos que têm todos os papiers, né [ele quis dizer cidadania e tals]
Eu – Normal, né. da familia
Ele – Olha, foi muito bom conversar com vc. Bom domingo e boas festas.
E desceu. Uma estação antes de mim.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Dans un autre pays

Publiquei esse texto no Facebook ha alguns dias:

10 Things About Living Abroad: No Turning Back
http://thoughtcatalog.com/rachel-rae/2013/11/10-things-about-living-abroad-no-turning-back/

Quando comentei com a minha mãe, comecei a ler e chorei. Incrivel como todo mundo que morou fora se reconhece nessas linhas. Incrivel como todo mundo se reconhece em varios textos sobre esse mesmo assunto, mesmo tendo saido de paises diferentes, tendo se mudado para paises diferentes, tendo conhecido pessoas diferentes, tenham escolhido quartiers diferentes...Mudar, assim, de “vida”, é muita coisa. E é assustador parar para pensar e ver a quantidade de coisas novas que passamos nesse tempo...eu diria que a cada dia temos, pelo menos, uma surpresa. Pelo menos.

Para deixar registrado, vou usar a lista como base e tentar relembrar porque me reconheci em cada um desses items. Desde a introdução (o texto original esta em italico e em inglês).

Moving around the world teaches you many things. It isn’t for everyone. It takes a special type of person to be able to do what we do. Packing up all your things into two carry-on bags and two checked pieces of luggage is struggles in itself, and to generalize imagine being a woman! I could only bring 10 pairs of shoes! Your mother will go through that luggage and make you narrow it down to seven cardigans instead of 17 and she will remind you that those shorts still don’t fit and haven’t fit for 3 years, you should probably just let them go. Along with letting those shorts go you are also letting go of friendships, relationships, comfort.
Como ja falei aqui, algumas vezes, a gente não decide morar fora e entra no avião. No meu caso, voltei a estudar francês, fiz provas do idioma, procure cursos de mestrado, paguei a tradução de documentos, montei dossiês...e nada disso me preparou o suficiente para a hora de dizer “sim, vou mudar”. Depois de receber todas as respostas das universidades nas quais apliquei, tinha de indicar a escolha definitiva. Definitiva. Ou seja. Depois daquele OK, ja era. Enrolei alguns dias. So o fiz com a minha mãe do lado, apoiando a decisão. Depois, sonhei varias noites com as reuniões com os chefes para falar sobre essa minha decisão. Ai veio esse momento da mudança. Esvaziar um apartamento de dois quartos. Não fiz mudança com caminhão nem nada. Fui levando o que dava para a casa dos meus pais (e agradeço todos os dias por ter o apoio deles). Decidi doar algumas coisas e tive uma agonia profunda quando os caras da instituição de caridade sairam da minha casa. Dai chegou a hora das duas malas de 32 quilos. Não adianta. Não da para resumir sua vida a isso. Ainda mais quando vc sai de um pais tropical, em direção ao frio europeu. Sofri, sofri, sofri. Meus pais não interferiram. Mas guardaram muita coisa la na dispensa deles. Itens que – surpresa? – eu nem lembro, obviamente não uso e so reforçam essa percepção de que a gente consome demais, demais, demais. Mas enfim. Das coisas, a gente desapega mais facil. Mas eu ainda deixei uma irmã gravida, uma avo fofa chorando no portão, amigos da vida toda…a sorte é que os laços de verdade sobrevivem. Isso é bem brega, mas a cada dia percebo que é mais verdade.

A wise man told me that the reason we move to new countries is because we are either running from or running to something. I laughed and thought he was crazy. I just wanted a change; there was no rationale to my choice. The more I thought about it, the more I realized he was right. I wasn’t just running from something, I was sprinting as far as I could. What I didn’t realize was that this choice has now started the foundation of my future. Just like a tattoo, that first little taste and you want more and more. No turning back.
Isso é muito estranho. Essa sensação de fugir de algo para algum lugar é uma boa tradução. E também é uma lição. Que, sim, muda a gente la no fundo. Pra sempre. (e dai que tem coisa muito mais pessoal no meio disso tudo e acho que fico timida de expor tudo isso).

1. Freedom. A new sense of freedom. Freedom to do and go as I please. Freedom to travel. Freedom to make choices without a safety net. Freedom to be yourself.
Vc chega sozinha em uma cidade. Vc pode ser quem quiser. Pode sair sozinha conversando com estranhos. Pode tomar um porre. Pode passar a noite acordada no computador ou andando de ônibus. Sei la. Eu sou filhinha de papai do interior, nem consigo pensar em nada muito radical. Mas ai vc chega sozinha em uma cidade e a liberdade te assusta. Num primeiro momento, em vez de socializar, vc se fecha. Vc tem medo de falar e as pessoas não te entenderem, vc começa a achar problemas em viajar sozinha (mesmo tendo feito isso em outras férias e, bem, em ter vindo sozinha para essa cidade). Vc começa a procurar apoio. De repente, vc encontra algumas pessoas novas e vc é vc. Vc se reconhece como nunca antes. Esse paragrafo ficou horrivel, mas é assim que acontece. Tudo louco, tudo desordenado. E vc tem liberdade para continuar desse jeito.

2. Watching your life at home pass by. Birthdays come and go. Marriages. Deaths. Life doesn’t stop and wait for you.
Eu sempre digo que não sou do nucleo que casa. Na igreja, com festa e tals. E na mesma época que vim pra ca, tive um casamento de uma amiga de infância e de uma prima. Teve meu aniversario, comemorado com pessoas que eu tinha acabado de conhecer. Em seguida, o Miguel nasceu. Em seguida, infezmente, minha avo morreu. O mundo continua, sim. E, de vez em quando, it sucks.

3. Math skills strengthen as you are always trying to convert your local currency to your home country. You know it is even better when you convert your new currency to your previous country. Everything is still in pesos for me.
Na verdade, isso acontece no começo. E dai vc até perde a fome pensando que, puxa, cada refeição é muito cara. Mas dai vc começa a ver que tem coisa que, puxa, é bem mais barata – como algumas peças de roupa. Essa vida de comparação é muito complicada e confunde muito a cabeça. Até vc decidir não converter mais. E um passo muito importante nesse processo de estar num outro pais, de viver uma nova vida.

4. Communication. Responding to someone in any language but the language they are speaking.
Até hoje eu tenho esse problema. Ja estou aqui ha mais de dois anos. E me mudei – de novo – recentemente (isso é assunto para outro post). Dai que entrei no taxi, falei o endereço para o motorista e ouvi “vc pode escrever no seu celular? Tenho dificuldade de entender o sotaque”. Hello. O moço tb não era francês. E dai que eu mostrei uma mensagem que tinha enviado com o endereço e, obviamente, ele repetiu o jeito que falei. Não tinha nenhuma dessas letras mais dificeis (tipo o “u”), nem “e” pronunciado diferente. Garanto.

5. Stories. The stories you will have to tell for the rest of your life are so unbelievable most people will think you are exaggerating. Hospitals. Airports. Dentists. You try getting your point across in any means possible. And do I mean ANY means possible.
Ja acontece isso. As vezes nem eu acho que passei por tanta coisa em dois anos. E meus amigos dão muita risada às minhas custas. Nunca fui para o hospital e nem tive problema no aeorporto, mas encontrei uma dentista brasileira que passava as férias, na infância, na cidade em que nasci. Peguei ônibus errado de madrugada, sai de Paris sem nem saber e deu bem certo, no fim das contas. Fui cantada por um jamaicano chato que, para tentar me conquistar, pediu para a minha amiga me entregar uma pulseira de coco que ele comprou na Paraiba. Invento palavras em francês e em inglês o tempo todo. Tenho uma amiga que criou codigos para avaliar as pessoas na balada e isso rende historia todas as vezes que usamos esse codigo. Sai com um menino e, na semana seguinte, o amigo dele me ligou, dizendo que tinha me visto antes na balada e que estava interessado em mim. O menino que sai passou o telefone e nunca me procurou. Dormi na cama de solteiro no quarto da residência estudantil da minha melhor amiga. Com ela junto. Voltei andando da balada, conversei com estranhos no meio do caminho. Fiz amigos no samba.

6. You realize little holidays and moments you didn’t think mattered are the ones that make you the most homesick.
Eu falo que fico meio de feriado quando é feriado no BR e ninguém entra no Face, ninguém ta disponivel pra conversar. Nessas horas, me sinto à deriva. E queria estar junto com todo mundo no BR.

7. Growth. As much as you hate to admit it with each move you grow. You learn the best ways to pack, meet new friends, get around, and survive.
A gente sabe, né? E o maior clichê, mas tb resume tudo. Vc aprender a passar por tudo. Por bem ou por mal.

8. Adrenaline. Those thrill seekers jumping off canyons and out of airplanes have nothing compared to boarding a plane and traveling to an unknown place. Not knowing anyone. Not knowing your surroundings. Not knowing the language. Now that is a real adrenaline rush.
Entrar no avião sem saber o que vai encontrar. Saber que vai estar longe de casa em momentos importantes, de felicidade ou de tristeza. Ter que apresentar trabalhos acadêmicos escritos ou para a sala. Ter de trabalhar em outro idioma. E depois de um tempo perceber como ja aprendeu tanta coisa. Mas ai tropeçar e perceber que ainda tem tanta coisa pra saber. E depois ter uma mudança dos chefes. E depois mudar de casa e estar em outro quartier. E uma eterna adrenalina. Eterna.

9. Patience. Realizing no one understands you. No one cares. Ordering food, getting in a taxi and normal every day tasks take patience. Nothing is ever easy. A 10-minute task at home will take you 60 minutes. Accept it.
Foi essa parte que destaquei no Facebook. Pq eu sempre falo. Vim pra ca pra ter paciência. Vim pra aprender a esperar. Ja evolui muito e espero que tenha sido suficiente. Logo que comecei o estagio, eu falava que demorava dez minutos para cada frase. Um outro estagiario sempre prestava atençao no meu tempo de resposta e constatou que muitas vezes era verdade. E, tipo, era conversa informal. Imagina para os chefes...

10. Having to say hello for the first time and having to say goodbye for the final time. Not many people get to experience this, but I have perfected it. This could quite possibly be the hardest and most dreaded part of my life.
Ainda hoje me confundo. Até porque, na França, tem gente que fala “bonjour” às 20h, no inverno (quando começa a escurecer às 17h). Se esta claro, ja chego falando “bonjour”. Mas, depois do almoço, tenho dificuldades para me despedir. Vai ver que por isso que eles inventaram o “sair à francesa”. Assim, ninguém precisa escolher como vai se despedir.

Start slow, go to a new place. Alone. Go to a city by yourself. Go on a vacation, alone. Throw yourself out there. Your own sink or swim. When you begin to panic and want to go home that is when your fight or flight will kick in. That true inner strength will shine through. You will fight it out and you will thank yourself later. I know I did.
Eu concordo: é um voo sem volta, e vc vai se agradecer por isso. Num tô na melhor fase da minha viagem. Mas concordo. Concordo de verdade.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Annecy

Morar na Europa pode causar um estresse a mais na vida das pessoas – é muito lugar para conhecer. De vez em quando, me bate um pânico de que não aproveito a facilidade de pegar trem ou pagar uma passagem de avião barata para ir passar o fim de semana em uma cidade historica, linda, que sempre quis conhecer.

Claro que a organização das viagens depende de tempo e dinheiro. No meu primeiro ano aqui, não tinha nenhum dos dois, e acabei aproveitando mais depois de outubro, quando terminei o mémoire e assinei o primeiro contrato :-) Esse ano melhorou, mas ainda não foi o suficiente. Ainda falta principalmente dinheiro, né?

Mas ai, com esse negocio de ter de aproveitar tudo, fui para Annecy, na divisa entre França e Suiça, no feriado de 11 de novembro (feriado do Armisticio da Primeira Guerra). Peguei trem no sabado e fiquei até segunda (são quatro horas de viagem, saindo de Paris). Fiquei num Ibis bem localizado, ao lado do Centro Velho. Hotel honesto, quarto pequeno, mas OK.

A cidade é uma gracinha. Tem esse centro medieval, com ruas estreitas, uns canais com agua gelada correndo bem forte, restaurantes com a tradicional comida da Savoie, essa região abençoada, especialista em foundue e raclette, entre outras delicias. Ai também tem um lago imeeeenso, com os Alpes ao fundo.

A previsão era de bastante frio naquele fim de semana. Mas não chegou nos 4 graus. Consegui andar bastante, conhecer o castelo, as igrejas (até estranhei a enorme quantidade delas). Tem, inclusive, a igreja de São Francisco de Sales que, lembrei depois, é padroeiro dos jornalistas.

As arvores estavam com suas folhas amarelas, ventou um pouco. Mas nada que comprometesse as caminhadas. No inverno, a cidade deve ficar linda e gelada. Na primavera, cheia de flores. Espero voltar.

Logo volto com as fotos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sur le long chemin

Depois de completar dois anos em outro pais, eu notei bem uma coisa : não sou nem brasileira nem francesa. Vivo oscilando entre essas duas pontas, na verdade. Não que meu sonho seja mudar de nacionalidade. Gosto muito de ser brasileira e principalmente de habitos como abraçar, sorrir, dançar, comer coxinha e beber cerveja gelada. Mas, passando tantos meses em outro pais, é natural perder algumas “habilidades”.

Ao mesmo tempo, é obvio que não sou francesa. Não debato politica ou qualquer outro assunto com a mesma propriedade que eles – nem no futebol, que todo mundo acha que brasileiro é especialista. Bem, não tenho o mesmo dominio do idioma. Tenho peito, bunda e coxa, o que não é normal nas moiçolas nascidas por aqui. E por ai vai...

Dai que, semana passada, cheguei para trabalhar e uma colega bem legal me chamou para a “cremaillère” dela, que seria “na sexta”. Traduzindo, é uma open house francesa. Ela disse que não ia convidar muita gente – algumas pessoas daqui, o time de basquete do namorado dela e alguns amigos do casal. Falou que ia mandar email, com o endereço. Eu, que acho que ja conheço um pouco dos habitos franceses, tava esperando o email, né? Normalmente, eles avisam com antecedência, marcam no calendario do Outlook e ainda confirmam perto da data. Como nada chegou até quinta, tinha certeza que a tal da festa seria na semana seguinte.

Pois então, na quinta, me convidei para assistir ao ja lendario jogo França e Ucrânia, de classificação para a Copa do Mundo, com uns amigos brasileiros. Na sexta de manhã, voilà, recebo o email confirmando o adresse e o horario para chegar à cremaillère.

De repente, me deu uma tensãozinha. Me toquei que nunca tinha ido a uma cremaillère assim, 100% francesa. Graçasadeus que tem uma francesa aqui no trabalho que morou no Brasil (e em Singapura) e entende dessas duvidas de quem esta longe da sua terra. Mandei um email “sorry, mas não sei as regras de etiqueta. Tem de levar presente? Coisa pra beber/comer?”. Gentilmente, ela disse que ia sair daqui e passar no Monoprix mais proximo para comprar um petit cadeau. Claro que aceitei ir junto. No caminho, ainda brincamos quando ela disse que a gente tava chegando “na hora, como estava escrito no email”, e não “na hora como os brasileiros, com um tanto de atraso”.

Desmarquei o fute – e ouvi umas boas reclamações dos amigos brasileiros que, como eu, vivem com um pé la outro ca e acho que ja estão se acostumando a programar as soirées.

Fui à cremaillère. Gente. Um dos apartamentos mais legais que ja vi na minha vida parisiense. Um salão + cozinha enorme, com quarto, banheiro espaçoso e ainda uma sacada (não tirei foto pq nem lembrei disso. Franceses não costumam ficar com o celular na mão o tempo todo e eu, por incrivel que pareça, deixei o meu na bolsa e nem teria coragem de ficar registrando o ambiente). A casinha deve ter, sei la, uns 60 metros quadrados. O que significa minusculo para os padrões dos “meus” que moram no Brasil. No entanto, eu fiquei maravilhada. Achei lindo, confortavel, genial. E poderia aqui descorrer sobre a diferente do “ter” e “ser” e da preguiça que me deu das mansões e carros imensos que vi no Brasil. Mas, bem, não é o objetivo desse post. Até pq eu bem que me acostumaria a tanto espaço se estivesse morando ainda no Brasil.

Voltando à fête: tinha uma mesa cheia de petiscos, uma menina fazendo mojitos, mais cerveja e vinho, claro. Não tinha televisão e, por isso, alguns amigos dos donos do apto chegaram com um projetor e usaram o computador para transmitir, na parede enorme, o jogo de futebol. E a França perdeu. Talvez eu fosse a unica da sala que ainda acreditasse na vitoria dos bleus antes do jogo começar. E durante. E depois. Fiquei realmente triste com o resultado (2 a 0 para os ucranianos. Ucranianos. Vejabem). E fui embora logo depois da derrota, pq ja tava passando da quantidade necessaria de vinho num evento com pessoas do trabalho.

França e Ucrânia, em foto emprestada do L'Equipe
E isso agora me fez pensar em outra coisa. Tb estou no meio do caminho entre os jornalistas e os não-jornalistas.

Então, é isso. Eu sei que esse post ficou confuso. E nem era a intenção. Mas é um post assim, em alguma parte do caminho a ser percorrido.

E fica a dica: se decidirem mudar de vida, estejam preparados para a fase “mais ou menos”. Parece chato. Mas não é. Parece confuso. E é bem pior do que isso. C'est ma vie.

UPDATING: acabei de publicar esse texto e encontro a imagem seguinte no Facebook. Recado do destino? hahaha


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Les journalistes

Note to self: mesmo que vc abandone o jornalismo, de vez, nunca abandone os jornalistas. São eles que vão te chamar pra tomar cerveja em plena quarta à noite (sem feriado na quinta). São eles que vão insistir para a saideira. São eles que vão rir com vc das piadas que a gente faz da vida real :-)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

La manicure

Como falei antes, tava de férias no Brasil. Logo depois que cheguei, ja no primeiro dia, fui ao salão fazer as unhas e a escova progressiva, como toda brasileira que mora no exterior ou passa um tempo fora. Tinha marcado sobrancelhas tb, mas esqueci e fui a outra mulher com a minha mãe.

Ja nesse dia, a manicure comentou que minhas unhas estavam muito curtas e fracas. Sim, eu como unha (desculpa, mas odeio a conjugação do verbo roer). E dai pensamos num plano de tentar refazer o trabalho toda semana, pra ficar com as mãos mais bonitinhas. Deu quase certo, pq acabei viajando um tanto e não deu tempo de fazer as unhas três vezes. Fiz duas, mas ja voltei com a mão mais apresentavel. Trouxe na mala uma base fortificante, que comprei no Paraguai (pois ééé, fui pra la. E juro que a base é da boa e original).

Essa semana, reparei que minhas unhas cresceram e quis manter assim. Procurei telefones de manicures brasileiras e avaliei as possibilidades perto do trabalho, ja que saio cedo de casa e volto tarde -- ta quase tudo fechado quando tô por la. Ontem, duas unhas quebraram. E foi um alerta. Hoje tava livre na hora do almoço, fui até um “salão” perto do trabalho mesmo e estreei na manicure francesa.

Esmalte bem clarinho, para evitar sustos
(o machucadinho foi arte minha, antes de ir à manicure)
Como ja sabia, elas não tiram cuticula. O processo é mais rapido do que o brasileiro: primeiro ela lixa o comprimento das unhas, depois a superficie (com aquela lixa mais leve). Depois passa um liquido para amolecer as cuticulas e, com o palito, vai empurrando e limpando embaixo da unha. Ai pega um lencinho umidecido, limpa cada unha e passa os esmaltes. Foram duas “mãos”. Em seguida, a base e um acelerador de secagem (que parece um oleo de secagem que a gente usa). O resultado? Engraçado, para quem esta acostumada a frequentar salão e acompanhar as amigas que fazem unha da maneira brasileira. Como era de se esperar, ela passa esmalte basicamente no meio (ja que não tem palito com algodão pra limpar depois). As bordas ficam meio tortas. Depois que seca, da a impressão que o esmalte ja é meio velho, sabe. Pq fica aquele espaço embaixo sem nada, ou com acumulo do produto. Enfim. Para mim, acho que ta otimo, porque não tenho a minima habilidade para fazer isso em casa. No maximo, uma base, que acabo arrancando em seguida.

Enquanto a manicure (super sympa, chamada Angès) fazia seu trabalho, conversamos um pouco e ela foi me explicando que a francesinha, aqui (French mains), é so passar o esmalte branco emcima mesmo. E ela elogiou que o branco da minha unha é bem branco, o que é otimo, segundo ela. Falamos da dificuldade de deixar crescer a unha, uma vez que tenho o habito de roê-las. Ela comentou “ainda bem que cresceu, se não, não daria pra fazer manicure, né?”. Ou seja. Pra elas, manicure é lixar.

Agora vamos à parte mais dificil: a financeira. A maioria dos salões que têm manicure e depilação cobra uma “assinatura” – normalmente, vc fecha planos de seis meses, que te garantem desconto. Em casos de redes de beleza, os cartões valem para todas as unidades, inclusive em outras cidades ou até pais. Se vc não tem assinatura, paga bem mais caro. Ainda ha de se considerar que qualquer tipo de serviço, aqui, é bem mais caro do que no Brasil. Então, nessa brincadeira de deixar as mãos mais bonitas, acabei gastando quase 80 euros (elas cobram a mais para passar o esmalte).

Achei vantagem fazer a assinar nessa rede (Body Minute), pq eles têm tb depilação e é muito facil de encontrar lojas por ai. Perto de casa tem pelo menos duas. E ja tenho amigas que usaram esse serviço e recomendam.

Na verdade, é um misto de salão de beleza e clinica de estética. Eles oferecem também massagem redutora, bronzeamento artificial e esfoliação, por exemplo. Enquanto esperava, peguei um folheto de um programa de redução de medidas. E eles oferecem inclusive so os produtos. Segundo o catalogo, um deles age em zonas “rebeldes” do corpo -- bunda, coxas e quadril. Rebeldes. Pois é.

Tenho rebeldia de sobra

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Un peu bizarre

Voltei de férias (isso merece post à parte). Trouxe bombons Sonho de Valsa para o pessoal do trabalho. Ja na segunda-feira, tava la, super simpatica, distribuindo. Fui à sala dos gerentes, explicando que era “chocolate do Brasil”. Uma delas pega o bombom, lê meio rapido, começa a balançar os ombros num ritmo meio salsa e diz “Uhu! So-nho-de-val-za”. Ju-ro.

**
Hoje (sexta), tava quietinha aqui tentando trabalhar (cadê a concentração depois das férias?), quando uma diretora me chama. A gente nem trabalha juntas, sabe. Fiquei meio preocupada até. Entrei na sala dela, ela fechou a porta. Eu tava com meu caderno (da um ar profissional e tals). Ela fala “não precisa do caderno, é rapido”. E me mostra um vidrinho do oleo de amêndoas da Natura, me pergunta como usar. Diz que alguém deu para ela e ela tava em duvidas se usava para tomar banhou ou depois disso. Expliquei que tem gente que fala que é bom para evitar estrias também (mas claro que não sabia falar estria e aprendi uma nova palavra: vergeture. E ela ainda falou “Ah, aquela coisa que as gravidas têm na barriga”. Tipo. Francesa não engorda no peito e na bunda, então so tem estria na gravidez, na barriga).

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Nouvelle émission

Fui para o Brasil de férias. Três semanas. Desde que cheguei aqui, não tinha passado tanto tempo com a familia e os amigos. Coração apertou, quase esqueci do tanto que gosto de Paris. Chorei de saudades de tudo o que vivi antes mesmo de refazer as malas para voltar. Foi tanto sentimento estranho que nem sei como explicar.

Mas num queria falar, agora, das coisas que me partem o coração. Vou fazer uma propaganda. Ou quase um testemunho.

Eu tinha feito terapia uma vez, logo depois que me formei, e não gostei muito da psicologa, porque ela dizia que todos os meus problemas vinham da minha mãe. Não me lembro de detalhes, mas achava muito exagerado ela arrumar uma so resposta para todas as minhas duvidas e incertezas. Ai parei. Me dei alta.

Tempos depois, eu tava meio triste, terminando um relacionamento e a terapeuta de uma amiga indicou o Marcio. Ele praticamente salvou a minha vida. Foi uma época bem complicada, com um ex que atrapalhou a minha vida e ameaçava envolver mais gente nas nossas crises. Aprendi a cortar definitivamente os laços e não me culpar pelos problemas alheios. E me dei alta.

Ai o tempo passou, tava tentando terminar um outro relacionamento e decidi procurar novamente pelo Marcio. De novo, ele me ajudou. Aos poucos, me recuperei. Mas ai eu fiz as contas e, sei la, decidi me dar alta de novo.

Quando decidi vir para Paris, escrevi pra ele que, fofo, me desejou sorte e tals. Chegamos a conversar um pouco durante algumas fases complicadas que passei por aqui. Ele sempre foi atencioso e o mais fofo do mundo.

Eis que agora descubro que ele vai virar/virou apresentador de TV. O programa? “Vivendo com o inimigo”, no A&E. Gente. Achei o nome tãããão apropriado que até escrevi pra ele. Ele riu, foi lindo de novo, mas acabei não conseguindo encontra-lo pessoalmente, para dar um abraço e desejar boa sorte.

Outro dia, ainda de férias, vi a propaganda. E tb vi adesivos no Facebook, dizendo que, se vc tem algum problema, pode mandar perguntas. Olha, eu recomendo. Ele ja me salvou de inimigos e com certeza sabe do que fala!



O link do programa, para quem quiser conferir.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Voyages...



Hoje faço dois anos de Paris. E uma amiga querida mandou um texto bem legal pra “comemorar”.

“Uma vez fui viajar e não voltei. (...)

Vivi além da minha imaginação. Contrariei expectativas e acumulei riquezas imateriais. Permiti ao meu corpo e à minha mente experimentar outros estados de vivência e consciência.

Redescobri o que me fascina. Senti calores no peito e dei espaço para meu coração acelerar mais do que uma rotina qualquer permitiria.”

Foi mais ou menos isso o que aconteceu comigo nesse tempo de vida francesa. Paris tem a torre, o Arco, o Louvre, o Sena. Tudo isso que eu ja conhecia e que, ainda hoje, me fascina. Mas a “minha” Paris tem outros contornos.

“Minha” Paris é feita de sensações que eu nem sabia mais que poderia ter. Não posso esquecer tantos momentos de nervoso, de ansiedade, de angustia, de imaginar que nada nunca ia dar certo. Mas, no fim, ta tudo funcionando. Paris me ensinou, acima de tudo, a ter paciência e mais confiança (em mim, nas pessoas, na vida).

“Minha” Paris tb tem uma multidão de gente. Recebi, literalmente, as MELHORES visitas. Queridos que, eu sei, conseguiram enxergar um pouco do que eu gosto aqui. Ganhei amigos incriveis, desses de estrada que o texto fala, que tenho certeza que estarão sempre perto. Ainda reencontrei pessoas que continuam no Brasil, mas me escreveram, me contaram das suas novidades, e até uma amiga de infância que me encontrou durante sua viagem de férias com o marido e, de repente, foi como se a gente nunca tivesse se separado. Paris me ensinou que quem é importante nunca sai de verdade da sua vida, nem fica longe, por mais que um oceano tente atrapalhar o contato fisico.

“Minha” Paris tem malas, mudanças e andanças. Até agora, foram quatro estudios – todos menores do que o apartamento em que eu morava em SP, antes de vir para ca. Nenhum deles “ao lado” da escola ou do trabalho, como tb era no Brasil. Paris me ensinou que “minha casa” é muito mais do que o que vejo entre as paredes e me fez repensar a noção de publico, de usar o espaço da cidade (os parques, as margens de rios e canais, as piscinas da prefeitura).

“Minha” Paris me fez enxergar diferente esse lance de “diferenças culturais”. “Minha” Paris, na verdade, é quase uma novela da Gloria Perez. “Minha” Paris tb tem samba, coxinha, moqueca e feijoada. “Minha” Paris fala mais português do que eu imaginei que falaria. E aprendi (ou tô aprendendo) que tudo tem seu tempo e seu lugar.

Bem, “minha” Paris ainda não me ensinou tudo. E ainda bem que vou continuar aprendendo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Château Vaux le Vicomte

Imagina um château desses franceses, no melhor estilo Vale do Loire. Imagina um château com um jardim enoooorme e tão bonito onde da pra fazer pique-nique, com queijos e vinho. Imagina um château e esse jardim iluminados por velas num sabado, com a temperatura de fim de verão/chegando no outono. Imagina um château e um jardim iluminados por velas e dez minutos de fogos de artificio pra encerrar o dia. Pois é. Foi isso que vi/fiz no sabado à noite.







Info pratique
O château chama Vaux le Vicomte. E realizei enfim o sonho de conhecer um château com fosso de verdade (que ainda existe, pelo menos) em volta.
Para chegar, pegamos trem até Melun e, em 25 min, chegamos. Depois, pegamos um ônibus para o château. Para quem tem o passe anual do transporte publico parisiense, o trem até Melun é de graça e o ônibus, 5,50 euros (ida e volta).
Para entrar no château, são 19 euros. E ha restaurantes la dentro para quem não for adepto do pique-nique (vai que, né?).
O site do château: http://www.vaux-le-vicomte.com/

E tinha até uma princesa :-)


Ta. Na verdade, eram algumas amigas com roupas cor de rosa, "alegorias" na cabeça e uma princessa. Provavelmente, era um enterrement de vie de jeune fille -- literalmente, enterro da vida de moça, como eles chamam a despedida de solteira.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Bilbao, Pays Basque, Espagne

Eu tinha algumas folgas para tirar e decidi aproveitar o feriado de 15 de agosto – festa religiosa da Assunção de Nossa Senhora (e o pais é laico, pois é). No começo, pensei em ir para o Sul da França, conhecer Marseille e alguma praia bonita la de perto. Mas ai conversei com uma amiga e decidi ir visita-la em Bilbao, no Norte da Espanha. Ou melhor, no Pais Basco. Consegui passagens mais em conta em voos diretos, graças à emenda que meu chefe me permitiu fazer. Embarquei na quarta, dia 14, e voltei na segunda, dia 19 – quase uma semana de folga :-)

Sinceramente, eu conhecia o Atlético de Bilbao e sabia que a cidade tinha um modernoso museu Guggenheim. De resto, foi tudo uma boa surpresa.

Pra começar, Mayra foi me buscar no aeroporto e é sempre bom quando a gente chega e tem alguém pra abraçar, né? Fomos de ônibus para a cidade, pagando 1,40 euros pela passagem (e foi so o começo do meu espanto com a diferença dos preços em relação a Paris). A cidade é cortada pelo Rio Nérvion. Ao lado dele, ha enormes passeios onde sempre tem gente correndo, fazendo exercicios ou conversando; o museu que ja citei; e a Universidade Deusto, onde a amiga inteligente estudou. Da casa dela, fomos andando para o Casco Viejo, o centro antigo. Vi a praça quadrada da cidade (tipica da Espanha), igrejas, o teatro e outras belas construções. Tb vi a “marquinha” no chão, que indica que Bilbao faz parte do caminho de Santiago de Compostela (alias, fiquei chocada quando percebi que Santiago, em francês, é Saint-Jacques. Faz tempo, mas isso ainda me parece bizarro).


O museu Guggenheim em dois angulos. E uma ponte ao fundo
O cachorrinho de flores, que fica perto do museu
No dia seguinte à chegada, fomos à San Sebastian, que tb faz parte do caminho de Santiago/Saint-Jacques. Foi a minha primeira experiência com os “pintxos”, os tapas bascos. Almoçamos no centro antigo, do lado da praça quadrada da cidade, e ainda tomamos sangria. Mayra havia me contado que a cidade tinha praia. E, sim, tinha. Lotada. No maior estilo Boqueirão, na Praia Grande, em SP. E a maioria dos turistas era de franceses. Depois do almoço, ela tentou encontrar uma outra praia, mais pra frente. Andamos, andamos, debaixo de um sol forte e ao lado do parquinho montado para o verão. Chegamos a uma cerca, onde estava um guarda que repetia que sentia muito, mas a passagem estava fechada. De longe, podiamos ver a area mais vazia. Mas, para chegar la, os caminhos possiveis eram looongos e optei por voltar ao Boqueirão. Deitamos na areia, por volta das 17h. Fazia muito calor. Voltamos mais bronzeadas, à noite.


A marca do caminho de Santiago, em San Sebastian, e os pintxos com sangria
O proximo destino foi Santander, que ja era em outro “estado”, na Cantabria. A cidade é bem bem legal. Conhecemos, primeiro, a parte ao lado do porto. Depois, fomos andando até o palacio da Madalena, que funcionou como casa de praia da familia real. Tb estava quente, mas a caminhada até la foi bem agradavel – depois do passeio ao lado do mar, na região mais urbana, andamos por uma passarela ao lado das praias de areias finas e bem menos cheias do que a de San Sebastian. No palacio da Madalena, pegamos um trenzinho turistico para conhecer a area. Custou 2,15 euros, e foi interessante. Aprendemos que a Praia do Biquini ganhou esse nome porque algumas estrangeiras usaram maios de duas peças, na década de 30, naquele local. E todo mundo ficou escandalizado, na época. O interessante foi notar que a Espanha evoluiu tanto que hoje a mulherada faz topless na boa, sem causar espanto (e isso não é um comentario preconceituoso. Mas, né? A gente sempre repara nas diferenças entre os povos). Depois desse tour, deitamos na areia da Praia dos Perigos. Eu aproveitei para entrar no mar, de agua gelada e sem ondas. Chegamos em casa tarde, mas satisfeitas com o passeio.

No terceiro dia, pegamos o trem para Mundaka. Eu tinha conversado com um francês que morou em Bilbao e disse que Mundaka tinha “as mais belas ondas do Pais Basco”. Ok. Vamos eu e Mayra descobrir. No caminho, passamos por Guernica, a cidade que inspirou aquele quado do Picasso, que adoro (mas não deu tempo de parar...uma pena). Chegamos em Mundaka, que é uma pequena cidade bem interessante. Muita gente tava falando basco, e parecia que eram todos amigos de infância. Sabe interior? Então. Escolhemos um restaurante que servia comida que parecia bem caseira. Mayra disse que estava em duvida entre o frango e o bonito (como eles chamam atum). E ouviu “O atum é fresco, daqui”. Optamos por ele e tava bem gostoso. Depois, a gente não conseguia encontrar a tal praia cheia de ondas. A colega de viagem encontrou um mapa que explicava que as ondas apareciam no inverno. Pois é. Andamos um tanto, ao lado da costa de pedras, descemos uma escada e conseguimos chegar a uma tira de areia. Foi outro dia de mar tranquilo e de agua gelada, ouvindo os gritinhos das crianças espanholas que corriam em volta.


Placa simpatica em espanhol onde todo mundo falava basco. E o mar sem ondas
Voltando para Bilbao, encontramos os bascos, assim, ao pé da letra. Nessa época, a cidade tem a Semana Grande (Aste Nagusia, na lingua deles). Varias barracas com comida e bebida tipicas estavam montadas no centro e na beira do rio e as pessoas (inclusive os meninos) vestiam saia azul, blusa branca e uma faixa verde na cintura. As ruas estavam cheias. Tomamos banho e saimos meio correndo para ver os fogos, que ja haviam começado. Depois, ficamos na região do museu, onde estava tendo um show de um grupo basco, que todos os adolescentes conheciam.

No dia seguinte, Mayra teve de arrumar as coisas, ja que ela tinha passagem comprada pra voltar ao Brasil. Eu tirei um cochilo no começo da tarde. Depois, saimos para andar e aproveitar um pouco da festa tipica. Vimos umas danças bem interessantes, que me lembraram da Festa do Divino, de Piracicaba (acho que é a saudade da terrinha). Quer dizer, os moços usavam roupa branca e vermelha, mas tocavam castanholas. Teve tb um grupo de meninas que dançou com remos nas mãos e um senhor que ficou fazendo passinhos pulandinho em cima de um caixão sustentado por seis homens. Esse foi o mais impressionante. O tiozinho tava numa super performance e os coitados dos “apoiadores” transpiravam. Ainda comemos churros com chocolate e voltamos pra casa.

Segunda parti logo cedo, junto com a Mayra e suas malas. Ela foi minha companheira durante as festas de fim de ano por aqui. Foram dois Natais (em Strasbourg e Bruxelas, onde ela morou) e dois réveillons (ambos em Paris). Por isso, brinco que estarei orfã em dezembro e me convido para festejar com todo mundo que sei que vai estar por essas bandas. A vida na Europa tem dessas: a gente ganha novos amigos, mas tb esta sempre "perdendo" pessoas importantes.

Info pratique:
Para quem quer saber mais sobre Bilbao, o link da Wikipedia sobre a cidade (pois é. Me rendi. Nem acredito). Fui de Vueling, de Paris/Orly, pra la.
Fomos para San Sebastian e Santander de ônibus. As passagens ficaram em torno de 12 euros (ida e volta) e as viagens duraram entre uma e duas horas (cada trecho). O trem, para Mundaka, foi mais em conta, e demoramos uma hora pra chegar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Restau brésilien

Não pareço timida para quem me conhece. Alias, eu tenho uma cara de pau que de vez em quando aparece, principalmente quando estou perto dos meus amigos. Falo mesmo, faço comentarios estranhos, meio que perco a censura. Mas tenho uma espécie de bloqueio com pessoas que não conheço e, descobri, principalmente com aquelas que não falam português. Eu acho que isso é timidez.

Quando cheguei, bloqueei com os colegas do master. Todos mais novos que eu e, claro, fluentes no francês (vale lembrar que eu era a unica estrangeira da sala). Foi dificil me soltar para fazer os trabalhos, e até questionei se não era uma falta de humildade, porque claro que pensava na minha idade, na minha experiência profissional e tals. Quando cheguei ao estagio, que mais tarde virou trabalho (e deve continuar assim por um bom tempo. Ê!), comecei a ficar mais à vontade, pero no mucho. Mesmo com muita gente sendo mais nova, senti mais segurança. Claro que os fatos dos chefes falarem português e do Brasil ser um pais importante dentro da empresa ajudaram. Mas então. Confesso que demorei um pouco pra me aproximar das outras equipes (claro que tô comparando com o ambiente pelo qual ja passei: redação, com jornalistas, costuma ser menos “rigorosa”). Conversava com os colegas, mas sempre num tom mais profissional, sobre os sujets tratados no escritorio. Pesou também minha raiva pela associação Brasil-samba-gostosas que os estrangeiros, no geral, fazem. Preferi manter a distância, achando que seria mais facil manter o respeito. Adiantou bastante. Mas aos poucos, é claro, comecei a me enturmar mais. E eis que, depois de assinar o contrato e da insistência de algumas pessoas, marquei um jantar num restaurante brasileiro, com os estrangeiros – e sem os chefes que falam português.

A ideia era conhecer um restau novo que ainda não fui, no 9ème. Mas ele tava fechado, em férias (sim, restaurantes, padarias e todo tipo de estabelecimento fecham durante o mês de agosto em Paris. Tem hora que é engraçado. De vez em quando, irrita). E dai que fomos ao Barracão, no 11ème, um outro restau que ja me deixou muito feliz nos dias frios do inverno parisiense. Chegamos la, pedimos caipirinhas (limão e maracuja) e batidas (coco e maracuja). De entrada, coxinhas, risolis, bolinho de bacalhau. Achei que era too much sugerir feijoada no jantar, então a maioria me seguiu e fomos na moqueca de camarão. Duas pessoas pediram picanha. E gente. Foi uma delicia.

Claro que, no fim, todo mundo ja tava falando alto e rindo de tudo. Tava passando um DVD de forro, eu pedi pra mudar pra samba e logo começaram a me perguntar se eu sambo. “Não como as mulatas do carnaval” é minha resposta padrão.

Depois, ainda fui encontrar uma amiga com suas amigas num bar la do lado e meu chefe e um estagiario foram juntos. Tomamos cerveja, conversamos.

Eu adoro o inverno europeu. O frio, os cachecois e as botas, os restaurantes quentinhos e num clima mais “intimista”. Mas o verão também é otimo. Não são so as janelas que se abrem. Os dias acabam perto das 22h, as pessoas sorriem, conversam. Especificamente nessa noite (na semana passada), não sei se foi o clima, se fui eu, se foi a véspera de quase uma semana de quase férias (conto em outro post). Mas foi genial. E ja falamos em repetir o evento :-)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Une chanson

Ano passado, durante a Fête de la Musique, conheci um brasileiro muito legal que disse que era amigo do Chico Buarque e, inclusive, jogava futebol com ele aqui em Paris. Logo comentei com uma amiga que a coisa mais genial que poderia acontecer em Paris enfim aconteceu com a gente – ficamos a um grau de distância do Chico.

De la para ca, ja conheci mais gente que sai pra jantar e bater papo com o dignissimo senhor. Ja tentei até negociar um encontro, mas não deu certo. Ainda tenho esperança de, de repente, trombar com ele por ai, pelas ruas, pelo metrô, sei la.

E dai que ontem alguém me falou dele e de um trecho da musica “Futuros amantes” e hoje uma prima querida postou parte da letra no Facebook. E eu me toquei que de repente esses versinhos podem ser o resumo da minha vida, em que as coisas acontecem assim, no ritmo dela, por mais que eu me esforce em tentar acelerar...

Não se afobe, não
Que nada é pra já



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mon père, notre famille

Eu fiquei pensando que tinha de falar parabéns pelo Dia dos Pais no Brasil. Não podia esquecer, né? Acordei, lembrei, fiz as contas do fuso horario. Esperei. Liguei o computador, vi um episodio de uma série nova (nova para mim, para meu vicio). E recebo uma mensagem da minha mãe: “pode falar parabéns pra mim, porque seu pai foi pescar e não tem rede de celular onde ele esta”. Pois é. Cheguei a ter pena dela, ja que sabia que minha irmã tb viajou, com o meu sobrinho. Mas ai a gente começou a conversar e ela me contou de todos os compromissos dos ultimos dias, da agenda lotada.

Eu tenho um paizão. Arrisco a dizer que é o melhor do mundo, sem medo do clichê. Ele sempre foi um exemplo e tentei aprender um pouco das coisas que me ensinou, com ou sem palavras, sabe? E ainda tem olhos azuis :-)

Do lado dele, tenho uma mãezona. Que aceita os parabéns pelo Dia dos Pais, que ta sempre antenada nas tecnologias que podem melhorar as nossas conversas, que tem sempre uma coisa nova pra contar.

Tenho tb uma irmãzona, que é mais nova, mas vive me dando conselhos e tentando cuidar como se fosse a mais velha. E me deu o melhor presente da vida: um pequeno afilhado que faz meu coração transbordar de tanto amor.

Ao pé da letra, parece estranho eu “querer” ficar longe de tudo isso. Sempre me pego pensando nisso. Mas é incrivel a capacidade que a gente tem de multiplicar esse amor e de saber que a gente ta perto, mesmo com a distância. E incrivel como me sinto tão bem apoiada, mesmo com o oceano e todas as estradas entre a gente.

No Dia dos Pais em que não consegui falar com o meu, so desejo que ele tenha orgulho da familia que formou, assim como eu tenho orgulho de cada uma das partes envolvidas nessa historia.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Menu jap

Durante alguns anos, eu gostava de comer Big Mac em todos os paises que visitava. Na verdade, sempre dava uma olhada no cardapio e achava engraçado ver as opções mais especificas, de acordo com cada lugar. Mas o Big Mac é o Big Mac e eu embarcava nessa.

O bom e velho Big Mac
Claro que, para comer num Mc Donald’s durante as viagens, eu tenho de admitir que gosto, e muito, do McDô (como chamam aqui). No Brasil, dava uma passada pelo menos uma vez por semana. Até que vi um desses programas de alimentação saudavel no GNT e eles criticavam a carne vermelha usada nessa rede. Não sou tão vulneravel assim quando o assunto é comida, mas deixei de comer sanduiches de carne do McDô. Não que eu tenha abandonado – vejabem. Eu so escolho os sanduiches de frango agora. Aqui na França eles têm um wrap que é uma delicia e ja experimentei ainda um McBaguette.

Tradição francesa no McDô
Eu fiz toda essa introdução so pra falar das diferenças culturais inclusive em algumas redes de restaurante. Eu acho que tudo é adaptado também ao gosto dos clientes. Claro que nos, brasileiros, estranhamos a pimenta da comida mexicana. E, por isso, em SP, esses pratos vêm com um tempero diferente. Ja ouvi falar também da “comida indiana de Londres”. Ja fui a dois restaurantes indianos la, e era possivel escolher o “nivel” da pimenta. Mas os garçons também falaram em pequenas mudanças em relação ao que é servido na India.

No meu dia a dia, o que mais me chama a atenção, aqui em Paris, é a comida japonesa. A primeira vez que fui a um restaurante brasileiro foi em SP, com duas amigas de infância. Fora a dificuldade de comer com “palitinhos”, eu gostei muito do gosto e, cada vez mais, virei adepta dessa cozinha. Quando meus pais foram para o Japão, visitei alguns restaurantes tipicos. O que mais me chamou a atenção foi que os japoneses usam menos shoyu – pq eles gostam de sentir o sabor da comida, e não do molho, segundo uma amiga da minha mãe. Lembro de ter visto as mesmas opções de sushis e sashimis do Brasil, mas ter comido uma omelete, que não fazia parte dos meus menus japoneses até então. E senti falta do shimeji e do shitake.

Aqui em Paris, eu vou a restaurantes japoneses pelo menos uma vez por semana. E notei diferenças desde sempre. Primeiro, todos eles têm, como entrada, o tradicional missoshiro (até ai, tudo bem) e uma salada de repolho bem temperada. Praticamente todos os suhis têm abacate. E o cardapio oferece também espetinhos (chamados de brochettes), de frango, de carne de vaca et de carne de vaca com queijo – e o gosto dos espetinhos é o mesmo, em todos os restaurantes, o que me faz acreditar numa imensa rede de distribuição. Além disso, nunca vi shimeji e shitake e ja tive que explicar o que é isso para os franceses.



Menu jap à Paris: salada de repolho, sushi com abacate e espetinhos
Ja comentei das diferenças com o povo daqui e me falaram que muitos restaurantes japoneses são, na verdade, administrados por chineses e coreanos, o que explicaria a salada de repolho e os espetinhos. Sobre o abacate, eles dizem que costumam colocar a fruta em tudo (e é verdade). Então, se entrar em um restaurante japonês em Paris, esteja preparado para o duo repolho e abacate, e pode arriscar um espetinho.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Météo

Tem gente que reclama do serviço de meteorologia aqui da França. Mas tem gente que confia demais, demais. Eu ainda não faço parte de nenhum desses grupos. Mas dou uma olhada no app todo dia, antes de sair de casa. E tenho a dizer que, na maioria das vezes, ele acerta.

Hoje acordei mais cedo, pq tinha de resolver um problema de documentação (a burocracia, sempre). Ai que tava chovendo, mas a previsão era que o tempo ia melhorar, ja no fim da manhã, e dai ia até fazer calor. Tipo calorzão. Sai de casa e tava 17 graus, o que é considerado “fresco” para a maioria dos franceses. Chovia, mas não muito forte. A previsão é de 27 graus à tarde.

Quando desci na ultima estação, para caminhar ainda uns quarteirões e chegar ao trabalho, a situação era outra: chovia muito forte e muita gente estava esperando na estação. Como eu tava meio atrasada, respirei fundo, peguei meu guarda-chuva e corri até o ponto de ônibus. Foi o suficiente para molhar completamente meus pés e parte da calça. Todo mundo meio mal humorado, bufando. Em seguida, chegaram duas meninas que trabalham na mesma empresa. Uma delas com um casacão de frio e bota. Ai ela fez o seguinte comentario: “o pior é que o tempo vai mudar daqui a umas duas horas, né?”. Eu dei risada, tipo “que saco, né?”. Mas juro que, na minha cabeça, tava pensando “ela é louca e a météo hoje errou, certeza”. Cheguei à minha mesa e, pela janela, vi que a chuva piorou. Tinha até trovão. Acho que foi uma das piores tempestades que ja vi, desde que cheguei aqui.

E eis que passaram as duas horas e vejo um tantinho de céu azul por tras das nuvens. A chuva parou e realmente esta esquentando. Agora até acredito que vou passar calor mais tarde.


UPDATE: Sim, esquentou. E umas três pessoas ja olharam para a janela e disseram: "Il fait beau!" (mais ou menos: o tempo ta bom/bonito). Segundo a météo, a temperatura agora (14h30, mais ou menos) é de 24,3°, com sensação térmica de 27°.



*E isso me fez lembrar que tem uma mocinha nova, que entrou na empresa recentemente. E uma francesa muito legal, que ja morou no Brasil por um ano. Precisamente no Rio, em Ipanema. E outro dia me disse que estava super feliz de poder conversar em português comigo (sim, eu tento muito so falar francês durante um dia inteiro, mas é quase impossivel).

Ha algumas semanas, tava chovendo e ela me disse: “Sabe o que eu gostava [no Brasil]? De chuva de verão!”. Eu fiz uma cara de espanto, porque, pra mim, isso significa alagamento, trânsito pesado, transtorno. Numa tentativa de entender o comentario, ainda pensei que no Rio, em Ipanema, deve ser diferente. Ela percebeu minha surpresa e explicou: “E que, quando tava calor, a chuva refrescava, mas continuava quente. Aqui, a chuva é fria”. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Madame? Mademoiselle?

"Na abertura do curso, Eliete explica que, como a Lua, as mulheres têm fases e é preciso respeitá-las. Pelo menos uma vez por mês, a mulher deve tomar um banho mais demorado e tirar um dia para apenas ingerir líquidos, cuidados que, avisa, se perderam com o tempo.

Após esse breve prólogo, dá-se início a um capítulo sobre etiqueta. Na tela está uma imagem de um sutiã em chamas. A professora diz: "Não foi nossa culpa que elas fizeram isso, mas precisamos resgatar a feminilidade e a tolerância se quisermos relacionamentos duradouros".

Nessa aula, as mulheres aprendem que não devem falar com o garçom durante um jantar romântico; que homens reparam se a pedicure está em dia e que é proibido comer muito em um primeiro encontro."

Li esse texto ontem, no site da "Folha de S. Paulo", depois que varios amigos (principalmente amigas) compartilharam o link. Não sou feminista, assim, ao pé da letra. Na verdade, não gosto de definições radicais. Prefiro não me descrever e vivo uma luta eterna para não sair classificando ninguém.

De qualquer maneira, costumo dizer que não posso dar dicas sobre relacionamento. Tô aqui, passei dos 30, mas não acho que estou solteira porque falo alto ou não uso salto todos os dias. Sei la. Eu não roubo, não mato...devo ter alguma qualidade, certo?

E dai que estava esperando a Helena para comer coxinha (pois é) e pensando nesse texto e nas pessoas que pagam para ter esse tipo de "orientação". E dai que o primeiro garçom que me atendeu nesse mesmo restaurante brasileiro, ha um tempão, até me adicionou no Facebook e um outro reparou quando cortei a franja. E dai que, ontem, o garçom que entrou recentemente tava no fundo do estabelecimento quando a Helena chegou. Ele olhou para ela, apontou o relogio no pulso e falou “vc esta atrasada hoje, sua amiga esta te esperando faz tempo!”. Tipo. Em voz alta, como os franceses não costumam fazer (e ele é francês). Não era um encontro romântico, mas isso me levou a crer que, sob a logica da "expert" dai de cima, sou um caso perdido. Mas, olha, é divertido ;-)

Lady, eu?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

L'Etranger

"Walking streets alone and eating dinner at tables for one — maybe with a book, maybe not — you’re left alone for hours, days on end with nothing but your own thoughts. You start talking to yourself, asking yourself questions and answering them, and taking in the day’s activities with a slowness and an appreciation that you’ve never before even attempted. Even just going to the grocery store — when in an exciting new place, when all by yourself, when in a new language — is a thrilling activity. And having to start from zero and rebuild everything, having to re-learn how to live and carry out every day activities like a child, fundamentally alters you."

Então que hj vou deixar um texto e um link bem interessante. Eu gostei, pelo menos. E uma colega minha tb, pois foi ela publicou no Facebook.

http://thoughtcatalog.com/2012/what-happens-when-you-live-abroad/

(o titulo do post é o mesmo do romance do Albert Camus -- O Estrangeiro. Foi o primeiro que li em francês, ainda no Brasil. Depois, é claro, de uma série de Le Petit Nicolas.)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Des mots et des expressions

Faz tempo que queria escrever sobre palavras e expressões em outros idiomas. Cada dia tenho uma surpresa. E cada vez mais acho engraçado como coisas que fazem sentido para mim, em português, são completamente fora do normal para os estrangeiros (mesmo aqueles que ja sabem muita coisa em português). Do mesmo jeito, ha trechos de frases dos franceses que não fazem muito sentido para mim.

Hoje, duas pessoas do trabalho estavam conversando:
- Tu m’as posé un lapin lundi (ao pé da letra, algo como vc me colocou um coelho na segunda-feira), disse um francês.
O outro, um estrangeiro, ficou meio perdido. Logo lembrei que ja passei pela mesma situação, mas com um amigo me dizendo de outra pessoa que “a posé un lapin” e eu com uma cara de interrogação, do tipo “pq ela te daria um coelho?”. Ai ele me explicou o que ele queria dizer: deu o cano, furou.

A TV5 também tentou explicar o que a
expressão significa. E eu "emprestei" essa imagem

Tenho uma grande amiga francesa. Daquelas do coração. Nos trombamos em uma festa da firma, quando eu era estagiaria e ela estava esperando o visto para voltar ao Brasil para trabalhar. Ela ja tinha morado em SP durante cinco meses, para aprender o idioma e procurar emprego. E ja falava português incrivelmente bem. Almoçavamos uma ou duas vezes por semana, e dividiamos o tempo entre os dois idiomas. Um dia começamos a falar de expressões brasileiras. Estava meio cheia de tarefas no trabalho e acabei mandando um link pra ela com imagens dessas expressões. Falei pra ela dar uma olhada e depois me falar quais eram suas duvidas. Ela riu e disse que não entendeu quase nada. Comecei a explicar algumas coisas como “dar o cano”, “tirar agua do joelho”, “joao-sem-braço”...tentando lembrar de ressalvas: “isso não é pra falar no trabalho”, “isso so fale com suas amigas”...Algumas horas depois, ela me manda um e-mail: “Nossa, agora que percebi o que quer dizer esse joao-sem-braço. Vcs fazem brincadeira com isso? E sério?”. E ai eu pensei que, gente, não é nada politicamente correto. Depois, ela entendeu o espirito e chegou a falar para um amigo meu que “deu uma de joao-sem-braço”. Fiquei orgulhosa.

Entendeu?
Antes de partir para o Brasil, essa mesma linda me deu dois livrinhos de bolso: um sobre palavrões franceses e outro sobre as expressões. Eu adoro ficar fuçando e tentando entender a origem de cada uma delas, mas claro que nem sempre existe uma explicação convincente. Em relação às palavras, elas são diferentes. E pronto. Por exemplo, se vc for a um restaurante e pedir gamba, vão te trazer camarão grande (o pequeno chama crevette).

Outro dia fui para a Italia com a minha prima e não deu para levar hidratante, por causa do tamanho do frasco e das restrições para o voo. A solução foi procurar um creme no mercadinho da esquina do hostel. Comprei um potinho tipo Nivea, que poderia fica na nécessaire até a volta para casa. Quando chegamos ao nosso quarto, li na tampa “para peles morbidas”. E descobri que morbida significa macio em italiano.

Tem gente que diz que da para vc saber se domina o idioma quando compreende as expressoes. Mas é sempre muito dificil saber de todas elas. Eu fico feliz de ainda ter muito o que descobrir em francês.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Vélib'

Tem dia que eu acordo errada, sabe ? Sem vontade de levantar, morrendo de canseira, sem vontade de escolher roupa, achando que ta tudo apertado...enfim. Hoje foi assim. Essa época de transição entre o inverno e o verão costuma ser meio traumatica, porque demoro pra me desapegar dos casacos e blusas quentinhas, da meia-calça que ajuda a apertar a barriga e a perna e etc. E dai que experimentei tudo e tudo parecia horroroso, até que decidi colocar camisa e uma bota de salto mais alto, pra dar a impressão que tô mais magra (pelo menos a impressão, né?).

E cheguei ao metrô atrasada, pensando que nem tinha tomado café. E dai que vi que a linha 4, que pego todos os dias, estava com problemas. Ontem a televisãozinha da estação de perto de casa dizia a mesma coisa e foi OK. Ai eu nem liguei e continuei andando. Peguei a linha de sempre e, na hora da correspondência, calculei a melhor maneira de sair do metrô. Quando coloquei o pé na plafatorma, ouvi, em português: “Ih, a 4 ta parada. Volta para o metrô e vamos até a 13”. Era meu chefe. Porque o metrô tem muitos vagões e claro que o meu chefe ia estar na minha frente, no dia que eu tô atrasada. Ai fomos conversando em português, fizemos a correspondência e ele me perguntou, no fim: “vc tem o cartão da Vélib?”. E eu, constrangida: “não”. E ele: “mas vamos pegar bicicletas e assim ganhamos tempo”. E foi assim que, às 9h, de um lindo dia de sol, estava eu de trench coat e bota de salto, andando de bicicleta nos arredores de Paris. E o tipo de coisa que deixa a gente feliz, né? E olha que eu nem sou daquelas fãs de academia que acha que seu dia muda depois de fazer exercicios e tals.

As bicicletas que podem ser alugadas
(mas não é dos pontos que usei hj. A foto é do
site de uma das "subprefeituras" daqui)
 Ai que cheguei ao trabalho vermelha (porque, na versão europeia, sou branca e fico com as bochechas vermelhas facinho facinho) e, em seguida, resolvi fechar o plano anual de aluguel de bicicletas e baixar o app que mostra onde ha velibs disponiveis e onde ha postos disponiveis para vc estacionar a sua. E é o tipo de coisa que recomendo. Pra todo mundo.

Ah, o app <3
A primeira vez que usei Vélib foram nas melhores férias do mundo, em 2008. Sedentarias empolgadas, eu e MRita resolvemos testar no dia que chegamos a Paris, depois de viajar durante a noite toda. Resultado: ficamos quebradas no dia seguinte, claro. Mas valeu a pena. Lembro que, seguindo nossa querida anfitriã, fomos do Quartier Latin para a Cité Universitaire. Desde que mudei para ca, não tinha feito isso ainda. E olha que tem um ponto na esquina desse meu apto.

O sistema "Vélib'" foi inaugurado em Paris em 2007. Segundo a Wikipedia (sorry, não achei fonte oficial -- os sites proprios estão com problemas), hoje, são 23 mil bicicletas espalhadas por 17 mil pontos na região. Nesses dias lindos e nem tão quentes, como os dessa época do ano, é uma otima maneira de se locomover. Tenho uma amiga que inclusive volta das baladas de velib. Para quem vem turistar, da para alugar por um dia.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Bienvenu dans mon monde


Eu ja falei da relação dos franceses com o clima. Pois é. Esta acontecendo de novo. A primavera realmente chegando – dias mais quentes e um sol “de verdade”, daqueles que brilha forte e esquenta. E o melhor: não esquenta muito (porque eu adoro o começo da primavera, mas continuo detestanto o calor se não estou de férias, na praia).

Hoje, no trabalho, sai para almoçar e o clima é, de fato, outro. As pessoas até mudam os topicos, sabe? Em vez de reclamarem do pais, do trabalho, do metrô, da vida, elas se divertem. Falamos de séries e das grandes empresas espanholas (Santander e Telefonica, por exemplo). Ai chegamos à independência da Catalunha. E dai que isso era tão longe de mim, que eu achava que esses “movimentos separatistas, gente, que coisa...”. Mas dai que começamos a discutir que, se eles querem separar, vão ter de passar por todo o processo para entrar na União Europeia, na zona do euro...e dai que começamos a falar de idiomas, de dialetos. E de tanta coisa. Que me toquei porque continuo chegando tão cansada em casa, mesmo ja estando mais acostumada com a troca de idiomas no dia a dia*. E muita informação.



*Eu não comentei aqui. Mas, desde janeiro, tenho um chefe novo. Que veio de Londres e, portanto, fala em inglês comigo. “Nossa, isso é otimo pra vc”, vc deve estar pensando. Sim, é. Mas pensa. Eu tava me acostumando com o francês, sabe? Assim, como lingua oficial. E dai começa tudo de novo a troca de linguas. E ha de se levar em consideração que fiquei algum tempo mergulhada no francês e perdi um tanto do inglês (mesmo tendo aulas no Master). E é isso: francês-inglês-português. O tempo todo. Tem hora que ter passado dos 30 pesa.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Nouvel an

Faz tempo que não venho aqui. Muito. E percebi que isso pode ser ruim. Porque é muito bom ter as memorias registradas. Aquela primeira impressao guardada. Depois de um tempo, a gente relê e ai as coisas tomam outra dimensão. Enfim.

2013 começou em uma soirée open bar. Com um sentimento estranho, sabe? Porque eu quis muita coisa pra 2011 e 2012. Mas o réveillon de 2013 foi assim, de vestido claro (como as brasileiras gostam, né? Pq aqui ninguém liga), mas sem saber o que desejar. Se tudo continuasse do mesmo jeito, ja estava legal. Mas a gente sempre quer mais, né?

E 2013 começou em uma soirée open bar, com uma mesa gigante cheia de brasileiros – mais importante, a maioria la da região do 019, onde o r é puxado de um jeito diferente. Ai que tinha musica, boa companhia que até inventou de pular sete ondas na frente do bar. Vai que funciona, né? Aqui, a gente abraça as nossas novas superstições.

Ai janeiro passou voando. Acabou com um fim de semana fantastico, com as visitas mais queridas. Susan Miller disse: “You are likely to have a beautiful event to attend on Saturday, January 26 - a wedding, anniversary, benefit, or other celebration. On this weekend, you'll be surrounded by lots of friendly faces”. Eu nem botava muita fé nela, mas foi lindo ter, ao mesmo tempo, três dos mais queridos amigos, aqueles que sempre apoiaram essa minha loucura de pegar as malas e parar em Paris.

Muito amor
Ai no começo de fevereiro, peguei o avião. De férias. No Brasil. Rodeada de novo por friendly faces. Mais que isso. Calor, de calor humano. E sofrimento com o calor da rua, sabe? Mas teve praia e carnaval do Rio. Era um plano. E deu certo. Teve bloco com dois dos amigos mais lindos que encontrei na vida. Teve Sapucai com a prima querida. Teve tantas manhãs de familia, com meu sobrinho roubando o mouse (ou qualquer outro objeto), correndo e a gente rindo atras dele. Mas eu voltei.
Carnaval na Sapucai (a foto ta péssima, mas garanto que foi legal)
E fui pra Berlim a trabalho. E voltei. E recebi duas visitas queridas: uma amiga de infância e uma outra prima querida. Que cresceu tanto, meudeus. Ela queria ver neve e ficou presa na estrada, dentro do ônibus, a caminho de Amsterdan. Eu nem sabia o que pensar. Ta, ela cresceu tanto. Ainda bem.
No meio do hotel, em Berlim, tinha esse aquario

O muro. Ou uma parte dele

Mas deu tudo certo. E nesse tempo foram dois fins de semana de viagem. Novas cidades, novo pais: Bordeaux e Roma. Conhecer a Italia com alguém tão italiana quanto eu foi bem legal. De quebra, duas netas de Francisco assistiram, ao vivo, a primeira bênção do papa Francisco. Dona Ada ficaria orgulhosa, eu sei. (e essa visita merece outro post. Vou tentar escrever logo)

La no Vaticano. Depois vou procurar a foto do papa (em outra janela, por sinal)
Ai que a vida aqui sempre tem movimento. Gente que chega, gente que vai, gente que volta. Não é legal se acostumar a despedidas e eu não quero “saber” me despedir. Paris me ensinou que ninguém é insubstituivel, mas a gente sobrevive. Minhas sextas ficarão mais vazias. Mas ninguém disse que seria facil. E é assim, né?

Pois é. Ta na hora de falar tchau :-(