terça-feira, 29 de novembro de 2011

Week-end

Eu ia escrever ontem do fim de semana, mas estava empolgada por ter acabado de enviar o presente da amiga secreta. Então, agora, vai a descrição do week-end tipicamente lucianístico. Começou na sexta, em uma petite soirée na casa de um colega brasileiro, que também está fazendo Master aqui. Na volta, eu e a Anna estávamos no metrô e eu decidi descer na estação Saint Michel. Quando estávamos na plataforma, fora do vagão, ela disse 'mas, Lu, não é aqui a baldeação'. E o metrô fechou. E o alto-falante soltou 'essa estação vai fechar daqui a dez minutos'. Ou seja, era o último metrô. Aí descemos e começamos a procurar táxi. Até que vimos uma fila e fomos até lá. Mas aí olhamos para o lado e tinha uma árvore de Natal em frente da Notre Dame. A gente foi até a igreja para tirar fotos. Mas a câmera não colaborou...aí tem que escolher: ou só dá para ver bem a igreja, ou só a árvore, ou só as modeletes. Tudo junto não rolou, como mostra a imagem abaixo.


No sábado, fui com a Fernanda a um show do Jorge Aragão, que na verdade ia acontecer em um evento chamado Festa da Cachaça e prometia ainda feijoada e shot dessa bebida de graça (na verdade, a frase era ambígua no flyer e a gente já não tava acreditando que os dois eram 'prêmios'. Mas, se incluem feijão, a gente tá aceitando). Era em um lugar bonito, do lado de um canal, da Cité des Sciences e tals. Mas um pouco longe e tava frio. Muito frio. E a casa de show chamava Cabaret Sauvage.


E eu e a Fe temos o hábito de conversarmos alto, em português, como se estivéssemos em casa, em qualquer lugar. Claro que, antes de chegarmos, dois brasileiros já falaram 'boa noite' e começaram a rir da nossa cara de 'ai, eles entendem'. E aí a gente viu que tinha uma fila imensa pra entrar. E várias pessoas tentando comprar ingressos, porque já havia acabado. Os cambistas nem sabem como poderiam lucrar aqui...

Entramos, fomos direto para a fila da 'feijoada', que na verdade era um pratinho de plástico, com feijão preto, arroz, farinha e umas peças de carne bem de terceira, sabe? A gente ainda pediu os pratos com mais linguiça (a que nível chegamos).

Começamos a procurar o shot de cachaça, na Festa da Cachaça. MAS. Disseram que o fornecedor não entregou. E ficamos sem. Tivemos que investir na cerveja (que custava 8 euros, cada copo grande, vejabem).

Jorge Aragão subiu no palco bem tarde, é claro. Antes dele, teve até aula de forró, com uma professora brasileira que explicava os passos (e falava 'forrô').


Depois da aula do forró, Jorge Aragão apareceu. E gritou 'alô comunidade brasileira em Paris'. Alguém viu o filme do Jean Charles? Foi exatamente a cena do começo do show do Sidney Magal, com a diferença que aqui devia ter mais travesti e prostituta (esse não é um comentário preconceituoso. É só uma impressão da situação).


E, junto com o samba, começou um anda-anda num clima de muita azaração. Sério. O povo não tava lá para ver o show. Um português me perguntou 'como chama o cantor?'. Pois é.


O setlist deu uma melhorada boa no final. E daí a gente já tava no clima, já tinha pulado num estilo micareta e gritado alto os clássicos 'Coisinha tão bonitinha do pai' e 'Vou festejar' e até a música de carnaval da Globo.

Saímos cansadas e prometemos nem conversar antes de dormir, porque domingo tínhamos compromisso: almoço na casa do Pablo, outro brasileiro que trabalha aqui e fez camarão na moranga! De sobremesa, brigadeiro levado pelo Pedro. Hum. Dá água na boca de lembrar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Lumières de Noël

Eu queria agradecer à minha amiga secreta querida, amiga de infância, de adolescência, de toda a vida. Por causa dela, fui até o Boulevard Haussmann e à Galeries Lafayette e consegui ver as luzes de Natal. Queria que minha amiga secreta, todas as outras participantes da brincadeira e principalmente minha mãe estivessem aqui para conferir tudo isso de perto, do meu lado. Como ninguém vem me visitar agora, morram de inveja com as fotos hohoho

1- Printemps e as crianças fofas encantadas com os bonecos que se mexem ((tem até escadinha em frente das vitrines mais animadas))







2- Boulevard Haussmann, as lojas que a gente ama e as luzes




3- Galeries Lafayette, por fora e por dentro





quarta-feira, 23 de novembro de 2011

S'il vous plaît, 3 bières pression

Eu gosto da França e dos franceses -- e principalmente de Paris e dos parisienses. Até os defendia quando me faziam perguntas do tipo 'eles não tomam banho?' ou 'eles são muito mal humorados?' ou 'eles falam inglês?'. Mas não dá para negar: eles são mal humorados. E acaba ficando engraçado para nós que, no dia a dia, temos de aprender a lidar com isso.

Ontem fomos comemorar o aniversário da Helena, mineira que conheci há algumas semanas (e para quem acabei de dar o endereço do blog. Bem-vinda, chérie). Combinamos de nos encontrar no metrô Saint Paul (na região do Marais) e procurarmos um bar/restaurante. Andando pelas redondezas, achamos uma pracinha simpática, com vários restaurantes em volta. A aniversariante escolheu um deles que, vejambem, não tinha pista nenhum que vendia cerveja. Como nós somos brasileiras e não desistimos nunca, perguntei ao garçom se serviam cerveja também, além de vinho. E ele: 'claro'. Então sentamos.



Primeiro, ele perguntou se iríamos comer ou beber, porque a disposição das mesas é diferente para cada modalidade (pois é). Respondemos que íamos comer e beber, então ficamos numa mesa do lado de fora, com um aquecedor magnífico bem perto. Aí ele entregou o cardápio. Olhamos uma página, outra...nada da bière. Aí perguntei: 'cadê a cerveja?', apontando para o menu. E ele: 'na geladeira'. JURO. Ficamos meio desconsertadas, mas aí perguntamos quais eram as opções. E ele começou 'einiquêm' (é como eles falam Heinekein), desperados (que todo mundo bebe aqui), x, y, z e a bière pression 1664 (que é como se fosse chope). Pedimos a última e logo emendei '50 cl' (porque aqui é assim). Ele fez que não entendeu. "50?". Fernanda confirmou. Ele ainda olhou do lado, para a mesa dos homens bebendo 25 cl, mas não mudamos de ideia.



Aí a cerveja chegou, numa temperatura agradável. Brindamos, pedimos comida....quando a bebida acabou, ele simplesmente tirou o copo da mesa e nem perguntou se queríamos mais. E a gente queria, meudeus. Fernanda me falou 'tenho até medo de pedir outra'. Mas pedimos.

No fim do jantar de aniversário, esse e o outro garçom acabaram ficando mais simpáticos e até fazendo brincadeiras quando pedimos para tirarem foto. Mas, olha. Conheço muita gente que sairia de lá por muito menos...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

La famille

Quando eu era adolescente, passava férias em Balneário Camboriú (SC), na casa dos meus tios Paulo e Leila. Até ajudava a cuidar da Paola, que diga-se de passagem já está na faculdade e tem quase a mesma idade dos meus colegas de classe. Enfim, minha idade não é o assunto do post mesmo (mas eu tenho de falar mais sobre isso depois).

E aí que outro dia tava passando pelo metrô e vejo um outdoor que me chamou a atenção. É do Secours Catholique (algo como Socorro Católico, que o padre explicou, na missa de domingo, que ajuda os católicos do mundo). E está escrito: "Ajudemos uns aos outros...e também Paul, Leila, Elie, Moussa...".


Como assim? Paulo, Leila, vcs tão precisando de ajuda? Eu num tô numa boa fase, mas sei lá...de repente meus pais podem fazer alguma coisa hihihi

Quando vejo essas coisas, me dá saudades de todo mundo junto rindo e falando besteira -- como foi o último réveillon, por exemplo. E pensar que, na virada deste ano, terei de trocar os fogos e as sete ondas em Florianópolis (SC), com a família, pelo friozinho parisiense (por falar nisso, ontem tava 4ºC quando voltava da escola. Tão lindo todo mundo chique pelas ruas! Vou ver se rola fazer foto).

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Déménagement à Paris

Já ouvi falar que fazer mudança aqui na França é bem caro. Claro que não é a mudança que vou fazer, de levar as malas de roupa e pronto (para quem não sabe, esse estúdio onde estou hospedada -- no prédio dessa foto aí embaixo -- é provisório e vou trocar de endereço daqui a duas semanas). Esse segundo tipo, para uma estudante, é caro também. Mas não vou ficar reclamando.


Enfim. Mudança de móveis e eletrodomésticos, daquelas de caixas e tals, é cara. Muita gente pede ajuda para os amigos mesmo. Já vi propaganda de empresa que leva o caminhão até a frente da sua casa, mas vc tem de carregá-lo.

Fora o dinheiro, tem todo o lance da dificuldade. Há muitos prédios lindos, mas velhos por aqui. Sabe, né? Aqueles telhados azuis são belíssimos, mas escondem apartamentos pequenos e muitas escadas para chegar a cada um deles. Sim, é raro ter elevador. Por isso eu estou meio apegada aos imóveis que oferecem essa maravilha da tecnologia.

Muitos foram instalados nos vãos da escada e são minúsculos. Como no prédio onde moro agora. O elevador não tem nem poço. Ele acaba de vez no térreo (rez-de-chaussée, para os franceses). E cabe, no máximo, três pessoas. Mas é no máximo mesmo. Tem até um aviso que o elevador é só para o transporte de pessoas e não cargas.


Aí que desde a minha chegada, com todas as malas, ficava pensando como é que as pessoas fazem para mudar, independente do preço. E a movimentação no quartier me mostrou. Toda semana, aqui perto, tem uma mudança em alguma rua. E é assim: eles estacionam o caminhão, estendem uma esteira e penduram os móveis e caixas nela. É bem engraçado. E inteligente, vai. Talvez até mais fácil do que ficar carregando no braço.


domingo, 13 de novembro de 2011

Château de Fontainebleau

Depois de uma semana cheia de acontecimentos, um feriado cai muito bem. Aí, aproveitamos a folga do dia 11 (sexta-feira) para irmos conhecer o Castelo de Fontainebleau. É pertinho de Paris, mas vc tem que estar muito disposto a ir. O problema principal é comprar passagem. Não vende pelo site e não é fácil encontrar nas máquinhas da SNCF das estações de trem. Eu sabia que a saída era da Gare de Lyon e a Fernanda descobriu os horários. Então, fomos até lá na sexta mesmo e pedimos informações a várias pessoas até chegar ao guichê. A passagem (incluindo ida, volta e o trajeto de ônibus na cidade) custa 14 euros. A viagem dura cerca de 40 minutos.


 


 A cidade de Fontainebleau nasceu em volta do castelo. Reis e imperadores moraram lá -- incluindo Napoleão. Foi nesse château, inclusive, que ele abdicou e deu o 'adeus' para ir à Elba. Há vários cômodos que permanecem com a decoração usada pelo 'imperador'. Entre as peças exibidas, estão uma barraca onde ele dormia durante as campanhas, a nécessaire dele, o trono, o quarto (com escadinha para subir na cama) e a banheira. Como todo castelo que se preze, também tem galerias com bustos e quadros, biblioteca, capela e um salão de baile. Mas as fotos ficaram péssimas porque não é permitido flash e as janelas permanecem fechadas.




 
 
O prédio do castelo é lindo, o jardim mais ainda. Nós pegamos as árvores com suas folhas vermelhas e amarelas e o tempo gelado (devia estar uns 7 graus, no meio da tarde, no máximo. E, les filles, não posso deixar de dar a dica: não usem brinco longo com essa temperatura. Quando ele bate no pescoço, parece que vai cortar). Na primavera, deve ser bem colorido.




Depois da visita ao castelo, fomos a uma feijoada (com samba e capirinha) "promovida" pela Carol, que estudou na mesma escola que eu e voltou para o Brasil no fim de semana. Tão bom comer feijão depois de dois meses! Fez toda diferença.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Danse, danse, danse

Dando uma olhada nos dois últimos posts, quase encontrei uma contradição. Então, vou esclarecer aqui: falar francês nos deixa mais felizes -- menos quando é preciso falar ou escrever muito, fazendo de conta que vc é francês, no meio de franceses que nasceram falando francês. Dá pra entender? rs

Mas as coisas melhoraram. E pra deixar esse blog mais feliz, vou colocar uma música bem bem legal. Que tem um refrão mais legal ainda.

Pourquoi tu gâches ta vie? Pourquoi tu gâches ta vie? Danse, danse, danse
((Por que vc desperdiça sua vida? Por que vc desperdiça sua vida? Dance, dance, dance))



Em tempo: eu sofro, mas não tô desperdiçando minha vida. Ufa!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

L'écriture

Eu gosto de escrever. Nada de ficção, literatura, crônica ou esses textos mais rebuscados. Gosto de contar histórias -- as minhas e as dos outros. Por isso, acho, escolhi o jornalismo e, durante muitos anos, fui feliz nos jornais 'populares', ouvindo o dia a dia, as partes boas e ruins do cotidiano das outras pessoas.

Logo no comecinho da carreira, um editor me disse que a melhor maneira de 'desenvolver' seu texto era ler mais. Nunca esqueci disso. Já gostava de livros, mas comecei a perceber como a leitura de jornais também acaba ajudando nessa tarefa de aumentar vocabulário, de te deixar mais à vontade na difícil tarefa de montar uma reportagem. E aí não era mais uma obrigação. A gente começa a querer ler tudo por curiosidade, quase um vício.

Depois dos jornais, fui para um site onde comecei a ter uma outra noção do texto dos outros. Eu tinha que editar, mexer, deixá-lo mais 'compreensível', atraente. Ajudei a orientar estagiárias e, graças a Deus, pelo menos duas delas sempre me agradecem pelas dicas e elogiam meu trabalho. No ano passado, acompanhei a reforma ortográfica e até tirava dúvidas das minhas amigas e de colegas de trabalho.

Escrevi agora tudo isso para relembrar minha intimidade com o português. Fazia tempo que escrever, para mim, não era um problema. Aí eu decidi vir para a França. Estudar numa universidade de comunicação onde o idioma é, claro, o francês.

Sim, eu já sabia tudo isso. Mas é muito diferente quando chega a hora de colocar no papel. Hoje tenho de entregar uma primeira versão resumida de um 'mémoire' (espécie de dissertação) em grupo. É uma tarefa complexa, porque o trabalho envolve a classe toda e cada grupo tem a sua responsabilidade. O meu dividiu as tarefas no fim da semana passada e acabei ficando tensa no sábado e no domingo para escrever minhas oito páginas. Fui dormir às 2h da madrugada de domingo para segunda, completamente esgotada. De pensar em francês, de digitar em francês, de tentar compreender cada expressão nova de cada disciplina (o trabalho ainda é interdisciplinar).

Na segunda, na reunião do grupo, meus colegas foram superssimpáticos e disseram que iriam ler os textos de todo mundo, para fazer ajustes, e que eu não precisava me preocupar porque eles sabiam que tinham que corrigir o meu francês. Uma das meninas até perguntou se eu queria ir embora, porque era uma fase de correção mesmo. Falei que não, que tenho de aprender e queria ouvir as dicas deles. No fim, decidimos voltar para casa e dividimos as tarefas (eu fiquei com a parte de capturar imagens para ilustrar).

Cheguei ao estúdio e me deu uma crise de choro. Daquelas fortes. É tão difícil estar de frente para os seus limites, sabe? Eu sabia que vir para cá incluía esses momentos, esses aparentes 'passos para trás'. Mas foi bem diferente chegar à situação de ficar perdida para escrever, ser quase orientada e ter o texto corrigido por um grupo de pessoas com 22, 23 anos. Definitivamente, fazia muito tempo que isso não acontecia comigo. Fazia muito tempo que eu sempre sabia o que fazer. E, quando não sabia, pelo menos dominava o idioma, a 'arte' de somar as palavras e fazê-las ter algum sentido.

Eu sei que vai passar. Sei que faz parte do processo. Espero daqui a algum tempo poder dar risada de tanto nervoso. Também sei que daqui a uma semana terei uma apresentação oral e estarei novamente tensa, até porque falar em público não era o meu forte nem em português...Mas é isso. Aguardem as cenas do próximo capítulo, porque essa novela promete sempre mais emoção.

domingo, 6 de novembro de 2011

Les bottes, la bière, le vin, le français...

O fim de semana começou bem, na sexta-feira à noite, com bota nova e happy hour com cerveja pela metade do preço e tapas para acompanhar, do lado do Arco do Triunfo. Foi cheio de trabalho, teve uma festa divertidíssima, com vinho barato que não dá ressaca. Que Deus conserve essas vinhas francesas!

Na verdade, eu poderia contar muitos detalhes, mas o trabalho ainda não acabou. Então, resolvi copiar um texto publicado originalmente no Estadão, que me fez ficar um pouco mais feliz nessa noite de domingo.  E esse vídeo da EF (escola de idiomas onde estudei quando fui para a Inglaterra), também sobre o idioma que me traz tantas novas emoções a cada dia.





Sabendo francês podemos ser mais felizes

Não me considerem esnobe, exibido. Mascarado, como se dizia na minha infância. Não usam mais a palavra? Tão atual. O que há de gente mascarada no mundo. Vou dizer o óbvio. Para desfrutar melhor Paris, a Provence celebrada, e outros, sabendo francês, os prazeres multiplicam-se por cem, o desfrute por duzentos, a alegria por quinhentos. Mesmo que você tenha ido apenas para fazer compras, como a maioria dos brasileiros, que pedem descontos em português mesmo e em altos brados (ou em brado retumbante), vale a pena aprender francês.

O parisiense muda quando você se dirige a ele na sua língua, ainda que precariamente, como eu. Quem não gosta de uma pessoa que chega e você percebe o esforço que ela faz para se expressar em sua língua natal? Assim, vale a pena aprender francês para poder caminhar à vontade em Paris deixando-se envolver por ela, sabendo um pouco mais.

Claro, o francês não é importante apenas por isso. Mas já é um enorme handicap. Há as revistas, os milhares de livros traduzidos do mundo inteiro, o cinema, a música, até a facilidade nas compras. Só poder ler a gigantesca coleção La Pléiade (projeto de uma vida) no original é uma bênção, raras vezes igualada. Ou os fólios, delicados, sensuais? Hoje estamos aprendendo apenas o que o mercado chama de línguas úteis, como o inglês, o japonês, o mandarim. Mandarim? (Eu lá quero falar chinês?) Para vencermos na vida? Nos tornarmos empreendedores? Sermos alguém? Mas o que é ser alguém? Tudo tem de ter aplicação prática? Se é assim, acabemos com o ensino brasileiro, ele não leva a nada, do jeito que está estruturado.

Há na nossa vida algo que é preciso preencher. Uma necessidade interior de espírito, contemplação do mundo, da vida, avaliação das coisas. Encarar a existência como algo que precisa de alimento. Foram eliminando as línguas de todos os cursos, a não ser alguns muito especializados. Tive no ginásio português, inglês, francês, latim e espanhol e posso dizer que isso me ajudou. Mas vieram deletando tudo, como se diz. E o francês se foi por meio de ministros que só pensam em política. O atual quer a Prefeitura de São Paulo, imaginem. Nem administrou direito o Enem.

A primeira palavra que aprendi em francês foi: nous. Estava no primeiro ano do ginásio. Tínhamos aulas de francês desde o primeiro dia com mademoiselle Fanny, uma graça de pessoa. Perguntamos: "Por que a senhora começou com o nous, que significa nós, e não com o je, que quer dizer eu?" Ela sacudiu o dedo: "O nous somos todos, é o coletivo, a classe. O je é muito individualista." Esses eram os professores que tínhamos. Jamais dona Fanny falou em português na aula. Nos virávamos para saber o que ela queria dizer. Ela sabia conduzir a lição, de maneira que descobríamos os significados e as pronúncias às vezes sutis do francês, língua tão poética, sensível, cheia de nuances, e ao mesmo tempo incisiva. Dificuldades terríveis para diferenciar Anne (Ana) de âne (asno). A professora insistia, queria a perfeição. Nesta minha idade, penso, dia desses entrar para a Aliança Francesa a fim de aperfeiçoar minha precariedade.

Donna Fanny ainda está lá em Araraquara. Até algum tempo atrás, quando eu a encontrava na rua, ela me dizia, como sempre disse ao entrar na classe:

- Bonjour, mon enfant!

- Bonjour, madame.

- Mademoiselle, mademoiselle...

Ria, afetuosa. Aos 14 anos estávamos lendo Alexandre Dumas no original. Não era fácil, mas a gente acabava gostando, se imaginava na França. Também Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, depois Balzac, Flaubert, Stendhal. Hoje chegaríamos a Le Clézio, Houellebecq, Jonathan Littell, Georges Perec. Aos 16 tivemos acesso a Jaques Prévert, que deslumbramento! A poesia entrava em nós por meio de Aragon, Paul Valéry, Verlaine, e, claro Rimbaud e Baudelaire, o maldito. Também Céline, complicado, Camus, os romances de Sartre, um pouco de Proust (eu mantinha a tradução do Quintana do lado). Toda semana, nos anos 50, havia um filme francês no cinema. Fanny insistia para que fôssemos. Não era exigir muito, sabíamos que algumas estrelas francesas como Martine Carol, Claudine Dupuis e Françoise Arnoul mostravam os peitinhos, era um avanço na nossa vida sexual. Mas havia Arlety, Edwige Feuillère, Maria Casarés, soberbas. E Gerard Philippe, jamais substituído. Hoje minhas paixões são Juliette Binoche, Irene Jacob, Marion Cotillard. Por outro lado, descobrimos os filmes de Marcel Carné, de René Clair, André Cayatte, Jean Delannoy, Robert Bresson, clássicos. Depois, digerimos toda nouvelle vague, que mudou a linguagem do cinema.

Nós, que aprendemos francês, tivemos sempre algo mais dentro de nós. De coisas pequenas e grandes. Não estou aqui para fazer lista e apenas para insistir numa coisa muito simples: sabendo francês, sempre me senti um pouco mais feliz na vida. Uma delas foi ouvir, recentemente, do garçom de um bistrô; "Monsieur, vous êtes du quartier?" (O senhor é do bairro?) Que, como Eros Grau diz em um livrinho delicioso sobre Paris, é um sinal de que você está sendo aceito. Coisa nada fácil para um estrangeiro. Que volte o francês às escolas!

((o texto é do Inácio de Loyola Brandão. O link original é esse: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sabendo-frances-podemos-ser-mais-felizes-,794415,0.htm)) 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

La Toussaint

Você tem 4 dias de feriado prolongado, mora na Europa e está a uma ponte aérea da Itália e da Alemanha, por exemplo. Ou pode pegar um trem, atravessar o Canal da Mancha e chegar rapidinho em Londres (onde, inclusive, tem uma amiga). Ou sei lá. Quer tomar champagne na cave e pode ir para a região de Champagne. Quer experimentar vinho em Bordeaux. Parece fácil viajar, né? Mas não é, meu caro amigo.

A vida de estudante em Paris é bem diferente do que eu imaginava. Ou pelo menos a minha vida de estudante. Como já falei outras vezes, o ritmo de aulas é intenso. E há sempre milhares de trabalhos a fazer. Resultado -- sim, tive um feriado prolongado de 4 dias (o feriado, em si, foi do dia de Todos os Santos, ou Toussaint, como falam aqui), mas não houve tempo para programar uma viagem mais longa nem pique para fazê-la.

Mas não é o caso de 'ó céus, ó vida', né? Quem vai reclamar de passar um feriado em Paris? Eu não!

Pra começar, saí na quinta e na sexta. No primeiro dia, finalmente fui a um bar com os alunos da minha sala e os veteranos do meu curso. O objetivo era trocar experiências e tirar dúvidas relativas aos estágios e ao temido 'mémoire' (a dissertação que teremos de fazer para obter o diploma). Mas acabei conversando muito muito mais com o pessoal da minha classe mesmo. Cá entre nós, eu tinha medo de ir aos eventos que eles marcavam e não conseguir entender, não conseguir conversar. Mas deu tudo muito certo. Meus 'colegas' são bem simpáticos e perguntaram várias coisas.

No sábado de manhã, dei uma esticada até Lisieux, na Normandia, para visitar a Basílica de Santa Teresinha. Há muito tempo rezo para ela e precisava ir até lá. Peguei o trem bem cedo (o trajeto dura 1h30 e cada trecho custa 18 euros). Quando cheguei ao destino final, todo mundo que ia descer começou a colocar mil casacos e cachecóis. Olhei pela janela e havia uma neblina de assustar. Pensei que ia morrer de frio. No fim, a temperatura nem estava tão baixa (ou estou me acostumando a esse tempo). Foi um pouco difícil atravessar a ladeira para chegar da estação até a basílica. Mas o que mais se faz nesse país é andar, né? E lá fui eu.




Assisti à missa das 11h, que foi realizada na cripta, embaixo da igreja principal. É um lugar muito bonito, cheio de mosaicos e com as inscrições do pai-nosso em francês, no teto.



A cidade me pareceu pequena, mas não consegui subir até a cúpula da basílica, de onde é possível ver a região e também os restos mortais da religiosa. Peguei o trem de volta para Paris às 13h36 e a visita à cúpula começa às 14h. No mais, achei lindas as cores das folhas das árvores. Acho que, em Lisieux, há mais campos abertos, então é possível ver mais árvores juntas. E as tonalidades das copas é realmente diferente no outono (não tirei fotos de campos, mas no estacionamento da basílica já havia árvores lindas). Para quem saiu do Brasil, onde não há essa diferença entre as estações, é surpreendente. E foi assim. Voltei cansada, mas feliz por ter ido até lá. Se quiser saber mais sobre a santa, clique aqui.



No domingo, fui almoçar carne, carne de verdade (o que anda difícil, já que o almoço, perto da escola, é sempre sanduíche. Eu tenho de escrever um post sobre isso), com a Fernanda. A gente tava planejando ir até algum ponto turístico ou museu, mas havia várias lojas de roupas no meio do caminho. E acabamos entrando em todas elas e encontramos a Suzana. Porque só quem é moradora de Paris encontra amigas no meio da Champs Elysées, por acaso. No fim, acabamos o dia com sacolas de compras indo tomar vinho e sorvete na Bastille.



Na segunda, Halloween, fui chamada para quatro festas diferentes. Me senti realmente estudante de novo. Mas acabei ficando em casa. Tava mal humorada porque tinha muito trabalho pra fazer e, afinal, tinha de adiantá-los. Na verdade, não adiantei muita coisa. Mas pelo menos descansei. E agora os 4 dias de folga estão acabando. E tenho de me preparar para a retomada das aulas. Bonne soirée à vous!