Tenho a sensação que 2014 chegou (me) atropelando. Certeza que Gloria Perez tem inveja de um roteiro tão criativo e bagunçado.
Resolvi, então, fazer uma retrospectiva:
- Começando por 31 de dezembro, que esta praticamente incluido no pacote, porque ja tem essa sensação de “ano novo”, mesmo no inverno europeu. Levei um cano de dois amigos brasileiros que estavam em Paris e iriam passar o réveillon em casa. Na verdade, eles não são muito sociaveis e não cabe muita gente em casa. Então, tinha confirmado com eles e convidado mais uma amiga. No dia 31, à tarde, eles me avisam que acharam melhor voltar para o hotel, porque nem ligam pra essa comemoração. WHAT? Desesperada, escrevi para essa amiga (que na ultima hora tinha desistido de ir para o Brasil para as festas de fim de ano, ainda bem). Começamos a pesquisar as alternativas. Em algumas horas, marcamos um fondue na casa dela, com uma familia bem legal que ta por aqui e confirmamos uma festa la perto mesmo. Tudo assim, na correria. Acabou dando certo. Eu tinha até uma garrafa de champagne e claro que passamos a meia-noite levemente felizes pela “superação” no finalzinho do ano velho.
- Tive de pagar uma facada de garantia para a proprietaria do meu apartamento, assim, logo apos o réveillon. E dai que, né. Fiquei sem dinheiro bem no mês dos “soldes”, aquela promoção dos sonhos em que botas e casacos são vendidos pela metade do preço. Mesmo assim, não consegui me segurar, negociei uma folga e comprei um bilhete de trem para a Italia.
- Na primeira semana do ano, encontrei um rapaz que “conheci” por meio de um app. Odeio isso. Odeio site, odeio apps que mostram as pessoas como catalogo. Mas tentei. Não funcionou.
- Nessa mesma época, fiz uma carteirinha ilimitada para o cinema. Pago 20 euros por mês, eu acho, e posso ver quantos filmes quiser. Logo depois que fechei o plano, teve uma retrospectiva dos melhores do ano passado. Resultado: fui ao cinema três dias seguidos e agora tô virando meio a compulsiva dos lançamentos. Tenho de ficar sabendo de tudo, ou acho que estou perdendo tempo. Alias...um dos filmes que vi da retrospectiva era alemão. Gente, e a dificuldade de coordenar o ouvido em alemão e as legendas em francês? Nem tinha percebido como ja gosto tanto de filme em inglês com legenda em francês.
- Na primeira terça-feira do ano (logo, dia 7), fui acordada pelo pedreiro que avisou que teria de entrar na minha casa para fazer obras, tipo, naquela hora. E obviamente não tinha com quem deixar a chave, né. Eu ainda tinha de sair para trabalhar e foi um drama para decidir tudo e tentar organizar minhas coisas. Detalhe que tinha muita coisa nas prateleiras da sala, que tive de jogar correndo no quarto. Fechei a porta que da para a “suite” (falando assim, parece que é um apartamento de verdade, né). No segundo dia, depois das obras, cheguei em casa e a porta tava aberta. Não sei se eu deixei, ou foram os pedreiros. Me preocupei com a sujeira no quarto (poeira, né?) e com gente estranha entrando no banheiro, sabe. Num gosto dessa ideia. Antes que critiquem, não é preconceito. E a minha casa, oras. E ai, eu me pergunto, depois dessa primeira semana de ano: privacidade pra quê, né? Gloria Perez com inveja que minha vida ta assim, um computador logado e sem senha. Acabaram a obra em quatro dias, mas tenho uma parede remendada em casa (eles trocaram o encanamento de agua, de toda uma coluna do prédio, pelo que entendi). Segundo a proprietaria, a ordem é esperar um mês para pintar, pq tem de secar tudo direitinho.
- Na segunda semana util do ano (13 a 17), trabalhei alucinadamente. No dia 16, tinhamos um grande projeto para entregar. Entrei mais cedo, sai mais tarde, e deu tudo certo. Sabe quando vc não consegue fazer mais nada quando chega em casa? Quando fica tão quebrada mentalmente que parece que o cansaço todo tb é fisico? Foi assim. E para tentar me recuperar, passei o fim de semana todo largada em casa. Acabei ficando apaixonada por uma série que eu achava bobinha, Chicago Fire. Na verdade, fiquei o domingo inteiro me apaixonado pelo Kelly Severide, um dos protagonistas, que na vida real vem a ser namorado da Lady Gaga. Como assim, meu povo?
- Na terceira semana util do ano, tive minha avaliação anual. Eu tinha isso nos tempos de redação, não vou mentir. Mas num era essa coisa “corporate”, né. E também era na época que eu trabalhava em um so idioma. Quer dizer, eu estudava francês, lia coisas em inglês o tempo todo, mas né. Num era oficial. Dai que, quando meu chefe foi fazer os comentarios sobre a minha pessoa, a primeira coisa que ele falou foi: “Vc fala muito I don’t agree”. Respira fundo, né. Ai ele continuou: “mas eu gosto muito. Mostra um pouco da sua coragem, do seu posicionamento. Vc não concorda comigo, mas sempre argumenta e eu acho valido”. Ok. Nunca mais reclamaremos da chefia, né.
- Ainda na terceira semana util do ano, fui procurar minha maquina fotografica. E cadê? Minha casa é pequena e mal tem armario. Revirei tudo e nada dela. Ou seja. Fiz um email cheio de cuidados para explicar pra proprietaria que não quero mais estranhos dentro de casa. Num quero escândalo nem vou acusar. Moro sozinha. Se foram os pedreiros, eles sabem meus horarios e que moro sozinha. Quero evitar confusão. So isso. Mas fiquei bem nervosa, e ainda tava de TPM. Imagina do dramalhão.
- Depois do annual appraisal e da maquina desaparecida, tirei folga e fui para a Italia (era por isso que eu tava procurando a maquina). Me hospedei em Torino, onde os dois furões do dia 31 aluagaram um apartamento. Alias, que apartamento, Brasil. Todo mundo devia passar uns dias num lugar como esse, com vista para os Alpes. Alias, foi la onde vi neve pela primeira vez na temporada: nos Alpes. Em Torino so nevou depois que fui embora L Mas nada de tristeza porque a Italia é a Italia – e tem italianos. Italianos as vezes atormentam, pq é aquela coisa que vivo desde sempre na familia: todo mundo fala alto, anda sem olhar pro lado, gesticula...Depois de dois anos na França, por incrivel que pareça, vc começa a se acostumar com o silêncio e a maior organização. Num quero ser chata. Mas enfim. Tem o lado bom: os italianos. Os policiais italianos merecem toda a atenção. Meus amigos criaram uma teoria: os comandantes devem ser todos bichas que ficam escolhendo mais bonitos para os batalhões. Olha, eles têm bom gosto. Lembra que eu tava sem dinheiro? Mas num resisti. E provavelmente me endividei quando comprei uma polo para o Miguel na loja da Ferrari. Que glamour, né.
- Voltei. E o trabalho continua assim, acelerado. O pessoal da firrrma (pode escolher o sotaque desse r) combinou de sair pra jantar. Eu fiquei de reservar, pq era num brasileiro. Tinha certeza que era na quinta. Na quarta, me perguntam “reservou? Seu chefe num vai pq viajou, né?”. E eu “quero ver quantos vão. E meu chefe chega hj à noite, pode ir amanhã com a gente”. E todos: “Mas é hoje”. Oi? Depois eles contaram tudo e acharam que eu ia ligar. Nem ouvi essa conversação e nem reservei. Resultado: a francesa fofa que fala português ligou às 18h30 pra reservar mesa pras 20h. Segundo eles, foi uma combinação verdadeiramente “à la brésilienne”, por minha culpa. Eu comi picanha, teve gente que se esbaldou na feijoada e outro na moqueca.
- Dia 31 de janeiro, tinha uma lista que eu tinha de checar no trabalho. Esqueci. Esqueci. De ultima hora, enlouqueci com isso.
- Na primeira semana de fevereiro, teve uma seminario do trabalho em um chateau. Fiz uma apresentação em francês e outras duas participações assim, em voz alta, em francês. O tempo todo com informação nova, em outro idioma. Voltei pra casa cansadésima, acabada.
- No fim da primeira semana de fevereiro, eu tinha de mandar uns links para meus chefes. Tipos chefes mesmo. Eles tinham pedido uma mudança que o site da empresa não fazia assim, automaticamente. Ai que, seguindo orientação de colegas, tive de trocar os codigos HTML de três paginas do site, nos quatro idiomas disponiveis. Imagina tudo isso numa sexta à tarde. HTML + quatro idiomas. Fui embora às 22h.
Espero, sinceramente, que seja so esse começo. Pq, olha, é muita emoção pra quem ja passou dos 30.