E daí que a primavera chegou e todo mundo decidiu ir pra rua. Todo mundo mesmo. Inclusíve nós, brasileiros, que achamos que 21ºC nem é tão quente. Aqui em Paris é. Juro.
E ontem, sábado, o dia tava lindo, céu claro, temperatura subindo e eu e Fernanda resolvemos comprar roupa para o trabalho. A gente sempre trabalhou em redação, então é um pouco diferente ir para uma empresa todos os dias, onde a maioria das pessoas não veste calça jeans. Enfim. Fomos lá nas lojas de sempre e decidimos almoçar num restaurante mais tradicional, no Châtelet. Vale fazer um parênteses para falar dos efeitos do sol no humor das pessoas. É incrível. Os garçons têm sido extremamente simpáticos. E, olha, todo mundo já deve ter ouvido falar do atendimento na França. Eles não conhecem aquela frase do 'cliente tem sempre razão'.
Bref. A gente almoçou, todo mundo tava dando sorrisos em volta e a gente decidiu cortar o cabelo. Esse era um assunto que tava sendo discutido há um tempão. Desde o começo do inverno, queria cortar franja. Decidi que ia fazer isso no Brasil, mas o calor era tanto que não conseguia imaginar o cabelo caindo no rosto. Aí que surgiu a oportunidade. Rumamos para um salão que tinha horário para dali a 40 minutos. Et voilà. Passamos por uma nova experiência antropológica, falando em francês com a cabeleireira e explicando o corte. Agora, temos franja. E a cabeleireira ainda disse que as brasileiras geralmente têm bastante cabelo e eles são muito brilhantes. Foi simpática, como os garçons.
Aí que chegando no prédio onde moro, encontrei dois rapazes que seguraram a porta do elevador. E entrei. E eles entraram em seguida. E aí éramos em seis num elevador que tem capacidade para cinco pessoas. O que o elevador fez? Parou. Assim, entre o térreo e o primeiro andar. Uma nova experiência antropológica. Éramos eu, um casal muçulmano (com a moça com o véu), dois jovens rapazes e uma senhora. Um dos rapazes ligou para o técnico, apertando um botãozinho no 'painel'. A senhora ficava falando 'é nossa culpa, o elevador tem capacidade para cinco pessoas'. E a muçulmana começou a reclamar que tava sentindo vertigem. Sem saber o que fazer, falei para ela afrouxar o véu. E me toquei, instantaneamente, que poderia estar cometendo algum sacrilégio. Olhei para o marido dela, assustada, e falei 'é proibido?'. Ele riu, provavelmente da minha cara de vergonha, e disse que tudo bem. Aí ela disse que tinha melhorado e ligou para os bombeiros. 'Oi, a gente tá preso no elevador. Somos em seis em um elevador pequeno'. O bombeiros perguntou a capacidade e aí respondeu 'Mas a culpa é de vcs'. Pois é. Um lugar em que bombeiro dá bronca pelo telefone. Eu tava estranhando mesmo o bom humor durante o dia. No fim, depois de uns 15 min, eu acho, chegou o técnico, que abriu a porta e a gente saiu. Foi rápido, ninguém nem teve falta de ar grave. Foi só um susto. O mais bem humorado dos rapazes ainda falou 'É bom que a gente tem assunto para falar na mesa do jantar'. Pq, gente, foi dia de sol e é claro que a gente tinha que acabar rindo. Menos os bombeiros.
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