segunda-feira, 17 de março de 2014

Un voile de pollution recouvre Paris

Semana passada, a poluição atingiu niveis alarmantes na França. O governo federal decidiu, então, liberar o transporte publico de sexta a domingo (14 a 17 de março) na região de Paris e em outras areas de “aglomeração humana” – a ideia era incentivar todo mundo a deixar os carros em casa, em troca de ônibus, metrô, tramway e RER de graça. Em Paris, a prefeitura liberou ainda a vélib’ e o autolib’ (bicicleta e carros elétricos de aluguel).

Eu ja morei em SP e sofria muito no mês de agosto, quando a seca atingia recordes, a umidade caia e era possivel ver aquela nuvem marrom em cima da cidade. Durante 5 anos, trabalhei no 16° andar de um prédio ao lado da Av. Paulista, o que dava uma visão privilegiada da cidade, mas assustadora nessa época do ano. Sempre tive ardência no olho e coceira no nariz. No fim do dia, costumava ficar com dor de cabeça. Lembro de acompanhar o nivel de umidade relativa do ar, ao longo do dia, com uma certa apreensão – mas isso também pq eu trabalhava em uma redação e a gente tinha de informar logo o indice mais atual. Ainda mais quando era recorde.

Na sexta passada, 14 de março, pela manhã, eu ainda não sabia das medidas anunciadas pelo governo – aqui deixei a redação, né. Achei estranho que as catracas do metrô estavam liberadas. Li pelo Facebook de uma brasileira que tb mora por aqui que o transporte publico havia sido liberado. Em seguida, vi tb nos sites dos jornais daqui que, ao longo do dia, foram publicando fotos da cidade tomada por aquela nuvem marrom horrorosa que a gente se acostuma a ver nas fotos de Pequim.

A torre, em agosto de 2012. E na sexta, 14 de março (Foto do Le Nouvel Observateur)
Sinceramente, não enxerguei essa nuvem. O maior incômodo que tive foi espirrar em sequência durante o dia todo, como uma crise alérgica. Os olhos arderam no fim do dia. Não achei o metrô e o ônibus mais lotados. E o trânsito continuava igual, embora tenha vista mais autolibs’ que o normal. Cheguei em casa e passei o adstringente pra limpar a pele – o mesmo que usava em SP. E o algodão ainda estava bem mais limpo do que quando morava no Brasil.

No fim de semana, so peguei ônibus no domingo, para ir ao cinema. Lo-ta-do. E tinha muita gente que não estava acostumada com esse tipo de transporte – vi um casal discutindo a ordem dos pontos, outro elogiando o trajeto que a linha faz (eu sou super fã tb), duas amigas que ficavam de olhos nos ônibus que passavam em cada parada (e comentando para onde podiam ir com alguns desses ônibus)...foi interessante, mas acabei voltando a pé, exatamente para evitar o empurra-empurra.

No fim de semana, o governo anunciou a circulation alternée, uma espécie de rodizio na região de Paris. Os carros com placa com final par devem ficar em casa. Na terça, sera a vez dos impares. Devem esperar os primeiros resultados em relação à poluição para avisarem se o esquema vai continuar. Hoje de manhã (segunda), fui pegar um café e dois diretores estavam conversando sobre como fizeram para vir trabalhar (trabalho na periferia, perto de Paris, mas em outra cidade). Um deles disse que o carro tinha final da placa impar, mas ele decidiu pegar o tramway e um ônibus pra ver quanto tempo demoraria para chegar. O outro falou que esta estudando como vai fazer para vir trabalhar amanhã, pois teria que deixar o carro em casa. Um deles sabia que sou brasileira e perguntou do rodizio em SP. Eu falei que é permanente, e é para dois finais de placa por dia. Eles disseram que esperam que não chegue a essa situação. Eu também espero que não chegue, obviamente.

Bem, o que eu tô pensando disso tudo? E assustador e triste que a situação tenha chegado a esse ponto. Claro que o governo tem medo da multa carissima que a União Europeia aplica nos casos extremos de poluição. Mas a maneira como todo mundo esta lidando com isso é bem diferente do que acontece no Brasil, eu acho – e aqui é so a minha opinião, de acordo com o que estou vendo e ouvindo. Primeiro, a liberação do transporte publico, dessa maneira, é inviavel no Brasil. Ja imagino os “empresarios” reclamando, ameaçando e etc. Depois, sinceramente, quem adere a essas medidas se não houver uma multa ou algo do tipo? Eu não imaginaria dois executivos conversando la num prédio da Marginal, ou la no limite do centro expandido, e procurando alternativas de chegar ao escritorio de transporte publico. 

Eu odeio fazer esse tipo de comparação. Sou bem do tipo que fala que a França também tem seus problemas e que o Brasil não é todo errado. Mas dai, quando chega em uma situação de emergência, acabo ficando feliz por ter optado por Paris. Por estar aqui e ter me dado a chance de aprender um pouco mais sobre esse negocio de cidadania, entre tantas outras coisas.

Para terminar, dois links interessantes do Le Monde, ainda de sexta:
*Blogueiros comentando o "desaparecimento" da torre: http://bigbrowser.blog.lemonde.fr/2014/03/14/tour-eif-alerte-pollution-la-tour-eiffel-a-disparu/#xtor=RSS-32280322
*Mais fotos comparando Paris "normal" e "poluida": http://www.lemonde.fr/planete/article/2014/03/14/deux-photos-pour-se-rendre-compte-du-niveau-de-la-pollution_4383325_3244.html

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