quinta-feira, 6 de março de 2014

Quand on perd quelqu'un

Nesses dois anos e meio de Paris, passei por pelo menos três momentos em que me perguntei pq estava tão longe e se essa distância valia a pena. Foram duas perdas e um nascimento*.

Perder alguém que é importante na sua vida não é facil quando vc esta perto e fica pior ainda quando estamos longe. Depois de quatro meses aqui, minha avo morreu. Foi de repente, embora ela ja tivesse mais de 80 anos e enfrentasse uma depressãozinha. Foi triste, triste, ainda mais porque sempre fomos bem proximas. Eu adorava contar pra ela das minhas viagens, dos idiomas que tentava aprender. Ela sempre se interessava muito e, pouco antes de partir, me falou, numa das nossas ultimas conversas pelo telefone: “Sabe que, se fosse jovem, queria ser igual a vc. Não ter medo e viajar conhecendo o mundo, as pessoas”. Ela chegou a falar que tinha orgulho de mim e durante alguns meses eu chorava a cada vez que lembrava disso. Entrar na casa dela foi um dos momentos mais dificeis da primeira viagem que fiz ao Brasil depois da sua morte. E acho que não é facil até hoje.

Sim, temos de “aceitar” a morte e tals. Sabemos todo o discurso. Mas da saudade e é sofrido. Pra todo mundo.

Semana passada, tive mais uma “perda”. Dessa vez, uma tia muito querida, mãe de uma prima que é um pouco irmã, que foi a primeira melhor amiga que tive. Ela estava doente, ela se curou, ela ficou doente de novo. Nesse meio tempo, fiz promessa, paguei promessa, me preocupei, relaxei um pouco. Nas ultimas semanas, todas as noticias que recebia eram graves, tristes. Daqui de longe, a gente não tem uma real dimensão das coisas -- tenta adivinhar, claro, mas é dificil. Não da para chegar ao lado de quem esta sofrendo, abraçar e ficar quieta. Porque, nessa hora, eu acho que o melhor é estar presente, né. Mas como faz, assim, de longe? Tentei mandar os melhores pensamentos. Tentei mostrar que eles (minha prima, a familia dela, minha mãe) podiam contar comigo.

Na quinta-feira passada, dia 27, o dia amanheceu triste em Paris. Nublado, chovendo. Diferente de todo esse inverno, que foi ameno e teve bastante céu azul (o que não é comum quand même). Eu olhei varias vezes pela janela e pensei nisso. Que o dia estava triste, que tava tudo dificil. Mandei uma mensagem para minha prima, senti nos na garganta. Evitei conversas, mas peguei ônibus e metrô com uma francesa bem legal que trabalha comigo na hora de ir embora. Ela me perguntou o que eu ia fazer ce soir. Eu hesitei em responder. Sabia que ia chegar em casa, tentar saber das noticias do lado de la do oceano.

Pois bem. Cheguei. Comi alguma coisa e entrei no Facebook. E tinha uma mensagem para uma das minhas primas de alguém lamentando a situação. Fiquei tão desnorteada que nem conseguia lembrar como ligava para a casa dos meus pais. Foi meu pai que atendeu o telefone, foi ele que confirmou o que eu temia. O que fazer nessa hora? Não conseguia pensar, não conseguia falar muito. Mandei mensagem para minha prima, liguei para a minha irmã. Nessa hora, mil coisas passam pela cabeça. Acabei tomando um cha, cai no sono. Acordei algumas horas depois, liguei para a minha mãe, falei com a minha prima -- aquela meio irmã, muito amiga.

O câncer é uma doença horrivel, que acaba tomando a familia. O tratamento também faz mal. Ninguém fica imune. E, infelizmente, houve mais de um caso na minha familia. Não da para fugir, mas também ninguém se acostuma.

Passar por tudo isso me fez questionar muita coisa. Uma amiga minha que se mudou para ca na mesma época que eu entendeu perfeitamente o que estava se passando na minha cabeça.

Durante o fim de semana, pensei em escrever um texto tipo homenagem aqui. Mas faltam palavras. Minha tia, que se chama Dora, foi uma das primeiras pessoas a dizer que tinha orgulho de mim, quando tornei publico viria para Paris. Foi uma das primeiras pessoas que falou que tive “coragem” por ter passado por todo esse processo. Antes, eu não tinha pensando nisso. Nas três vezes que voltei para o Brasil, eu a encontrei bem. Em todas as vezes, ela repetiu que tinha orgulho de mim. Nossas familias (no sentido de pai, mãe e filhas) sempre foram proximas e foi dificil mesmo perder alguém assim, tão importante e jovem.

Minha tia Dora tinha o maior amor do mundo. Sério. Nunca vi amor tão grande como o que meu tio sempre demonstrou ter por ela. Sempre foi carinhoso, atencioso. Sempre foi lindo vê-los juntos. Quando fiquei sabendo que ela estava doente, pensei logo no sofrimento dele. E foram anos que ele se manteve assim: ao lado, cuidando, devotado, da maneira mais linda que ja vi. Não consigo imaginar a dificuldade que foi para ela passar pelas ultimas semanas, se despedindo de quem esteve do seu lado esse tempo todo. Também não consigo imaginar o vazio que minhas primas, filhas deles, estão sentindo. E a neta mais velha, que ja entende bem o que esta acontecendo...e todo mundo que estava acostumado a ouvir a voz alta, forte, a risada, os comentarios as vezes acidos. Eh uma pessoa que me viu crescer, e que, mais do que isso, me ajudou a avançar, mesmo sem ter plena consciência disso.

Despedidas são sempre dolorosas. Mas talvez mais dificil ainda é ter de se despedir estando longe. Acho que é o tipo de coisa que nunca vou aprender a fazer.

*E nascimento que falei la em cima, é claro, foi o do lindo do Miguel, meu amor maior do mundo até agora. Ja me programei para estar perto quando o Francisco nascer e não perder tempo para apertar o segundo sobrinho :-)

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