quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Des journalistes

Eu tenho saudade de muita coisa do Brasil. Do Miguel, principalmente. E da familia toda. Dos amigos. De churrasco, da comida da minha mãe. Do Rio de Piracicaba. De falar português o dia todo. E por ai vai...

Como ja falei antes, não decidi mudar porque minha vida era um saco. Eu tenho saudade inclusive do jornalismo. Das redações e até dos jornalistas (não de todos, é verdade).

Dai que, quando leio boas matérias de jornalistas em primeira pessoa, meu coração até aperta. E hoje fiquei aqui, me divertindo e morrendo de nostalgia quando encontrei esse link. Com a reprodução de um tweet soooo cute.



E não resisti a fazer minhas considerações (num curto muito quem tem opiniões sobre tudo nas redes sociais, mas o blog é meu, né) :

1- Que nervoso quando isso acontece!

At one point the president said, “Now, this isn’t public yet.” I perked up.
“Thirty percent of somethingsomethingsomething is mumblemumble,” he said.
I didn’t hear. I had failed as a journalist, so I went to the bathroom. 

2- E o dia que descobri que sou velha. Pelo menos nos Estados Unidos.

I guess that they were talking about the difficulty of doing political outreach on Snapchat or one of this newer, less textual ilk? I’m not sure. Then the president drops this:

“It seems like they don’t use Facebook anymore,” he said.

Facebook is so uncool even the president of the United States knows it.

I am not sure who the they is. A White House representative I talked to afterward hypothesized that it might be the 18 to 34 year-olds whom the President hopes will sign up for the healthcare law.  Maybe it was the third-person singular, gender-neutral pronoun. I don’t know.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Les travaux

Desde que o ano começou (e mesmo antes disso), ando tendo dificuldades pra acordar. Nem ta tão frio, daquele jeito que da preguiça de sair da cama. Desde o primeiro dia do ano, tem feito oito, nove, dez graus. O que nem é inverno de verdade aqui, né. E eu gosto taaanto do inverno, espero tanto por ele. Mas bem. Não era esse o assunto desse post.

Na terça passada (dia 7), tava num desses dias de dificuldade para acordar. Era a primeira terça-feira do ano. Mas eu não tirei folga nesses dias entre Natal e Ano Novo, né. Pois então, fora os dias oficiais de festa, estive trabalhando em outros idiomas. O que, como todo mundo imagina, cansa pra caramba.

Pois bem. Cabeça cansada, preguiça e eu tava enrolando pra sair da cama. Até que tocou a campainha. Naquele momento em que eu tinha acabado de tirar a calça do pijama e tava so de calcinha. Sai correndo, coloquei a calça que ja ia colocar para ir ao trabalho, o casaco e abri a porta. Era um operario perguntando se podia começar as obras no MEU APARTAMENTO. Tipo dentro dele.

Eu sabia que ia ter um trabalho na coluna de agua do prédio. Sabia que devia começar assim, no começo do ano. Mas não imagina que seria dentro da minha casa, que, by the way, tinha terminado de organizar no fim de semana anterior.

Bem, deixei o pedreiro entrar para olhar a parede, mas avisei que não sabia se a obra poderia começar imediatamente. Quando ele saiu, liguei para a proprietaria, que estava fora de Paris, numa estação de esqui, e não atendeu. Procurei o telefone da sindica (que, na verdade, é uma funcionaria de uma empresa que administra o prédio). Ai a proprietaria ligou de volta, pediu desculpa dizendo que não tinha sido informada (e não foi mesmo, porque falamos sobre esse assunto antes de ela sair de viagem. Ela tentou falar com a sindica, que não tava trabalhando por causa dos feriados). Ai um vizinho tocou a campainha e falou “Moro no andar de cima, e queria te dizer que tudo bem deixar a chave com os pedreiros. Eu vou fazer isso. E que seu apto é o primeiro e, se atrasar aqui, vai atrasar todo o cronograma”. Ou seja, virei a vilã da historia.

A proprietaria ligou de novo e falou que a sindica disse que tudo bem deixar a chave. Eu ja tava sem paciência. Ja tinha começado a tirar as coisas das prateleiras ao lado da parede que seria quebrada. Ja tinha perguntado para o pedreiro se precisava desligar TV e internet (olha o sofrimento). Ja tava atrasada para o trabalho. Pois é. Enrolei um tanto na cama e mal sabia que teria tido um dia mais tranquilo se tivesse levantado logo que o despertador tocou.

Desci, entreguei a chave reserva para o pedreiro, que quis saber onde era a minha caixa de cartas. Claro que ele tentou falar meu sobrenome e parou na segunda silaba. Expliquei que era o mesmo nome que tava la, do lado da porta de entrada do apartamento.

Sai batendo o pé e mal humorada, com meu iPad e meu iPhone na bolsa. Foi o que me deu tempo de “salvar”. Cheguei a “esconder” o computador (esse apartamento mal tem armario, é engraçado falar assim) e os passaportes (pois é, todos são meus e verdadeiros). Se por acaso tivesse sido avisada, teria levado algo para o trabalho, onde tenho umas gavetas com chave.

Trabalhei meio irritada o dia todo. Cheguei em casa e, milagrosamente, tudo tava no lugar e nem tão empoeirado assim. Os amigos que sabiam da minha saga me perguntaram, assim que me viram on line: “E dai?”. Minha resposta: “Tudo bem, so estou sem uma parede”. Depois pensei no quanto essa frase é ambigua. Gente. Uma parede quebrada pode significar tanta coisa, né?

Os serviços dentro do meu apartamento acabaram em menos de uma semana. Sobrou uma parede remendada, que deve ser coberta pelo pintor, que so vai vir depois que todos os trabalhos no prédio acabarem.

Passei o fim de semana lavando as peças que tinham cheio de poeira e tentando limpar o chão, que ja não é novo...

Quando tudo parecia que tava acabando...era domingo (dia 12) e eu tava deitada vendo série no computador. Toca a campainha. Era o dono da loja que fica embaixo do meu apto, falando de um vazamento na loja dele e me pedindo para evitar usar muita agua até segunda de manhã. Ele era simpatico, educado, deixou claro que a culpa não era minha e provavelmente foi consequência das obras. Gente, sou brasileira, adoro um banho! Tive de me conter (mas ja tinha tomado banho antes. Ra!).

Conversei com a proprietaria, que voltou de viagem, e disse que ia conversar com a sindica sobre isso. Ok. Eu faria um esforço.

Segunda de manhã (dia 13), fui falar com o pedreiro responsavel pela obra sobre o vazamento na loja. “Isso sempre acontece. Cada obra que começamos, vem um vizinho reclamar”.

Falei com a proprietaria do meu apartamento, que ficou constrangida com tanta coisa acontecendo comigo e disse que vai tentar falar com a sindica para resolver esses problemas e, inclusive, agilizar a pintura nas paredes atingidas (uma foi quebrada e duas têm marcas, sabe).

Se fosse em outras épocas, eu estaria chorando, reclamando da vida. Sei bem, me conheço. Mas, né. Os prédios aqui são velhos. A gente sabe que precisa de obra pra melhorar tudo. Pena que tô dentro do apartamento onde passa a tal da coluna de agua.

Por enquanto, o resultado disso tudo é um up no meu francês. Passei do nivel mais-que-avançado, discutindo obras com pedreiros; tendo longas conversas pelo telefone com a proprietaria; tendo conversas com os vizinhos sobre como é importante trocar o encanamento velho; discutindo com o dono da loja embaixo de casa sobre como as obras sempre acabam influenciando em outros imoveis...

Ano novo precisa de renovações, né? Pois é. Bom 2014 pra gente.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Bonne année!!

Eu tive dois anos sensacionais. Em 2011 e 2012, eu consegui o mundo. Mudei de pais, entrei num mestrado na universidade que eu achava a melhor do mundo, escrevi (aos trancos e barrancos, é verdade) um mémoire, encontrei um estagio numa empresa que seguia o perfil que procurava, assinei um contrato nessa mesma empresa. Conheci muita gente nova, muita gente especial – e um tanto de gente chata tb, é verdade. Foram dois anos de descobertas e de superação. Claro que teve decepção, claro que houve momentos em que achava que não ia dar certo. Mas, no fim das contas, foi acontecendo, foi sempre melhorando. Em 2013, a sensação é que as férias acabaram. Todo esse periodo de descoberta e de tanta novidade deu lugar à rotina. Uma rotina que acabei escolhendo, é verdade. Em 2013, eu escolhi ficar em Paris. Assinei um contrato de duração indeterminada. Em 2013, tive muitas despedidas, que foram ficando cada vez mais dificeis. Dai, reparei que estou conhecendo menos estudantes (que vêm para ca com data para voltar) e mais gente que tb escolheu Paris. Em 2013, aquela “aventura” que começou com uma simples possibilidade de morar na cidade-luz virou verdade. E não sei se eu estava preparada para isso. Essa mudança me trouxe velhos questionamentos, me fez sofrer por novos e velhos problemas. Quem me conhece sabe que adoro um drama – e ganhei um bem grande. Houve momentos em que o oceano parecia intransponivel. Houve momentos em que me sentia pequena, imatura, perdida. Aos poucos, eu fui entendendo que, de novo, era uma transição. Foi em 2013 que “abracei” essa minha nova vida. E ainda estamos aprendendo a conviver. Para 2014, espero novidades. Espero paz no coração. Espero ter saude para enfrentar os bons e maus momentos. E espero continuar realizando sonhos. Que seja um bom ano para todos nos.

Em Montmartre, no dia de Natal -- Keep walking...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Dans le métro

Todo mundo poderia escrever um livro sobre as historias do metrô de Paris. Ja existem varios, inclusive. Uma amiga linda ja até escreveu uma matéria sobre isso (e recomendo a leitura, claro).

Normalmente, os franceses não puxam papo. Todo mundo sabe. Mas o metrô tem muito mais que franceses, né. E dai que a gente pode encontrar gente a fim de conversa. Domingo, eu tava indo à casa de uma amiga. Quando entrei na composição, tirei o cachecol e tava com o cabelo preso e fones de ouvido. Um menino senta do meu lado e gesticula. Ignorei a primeira vez. Ele continuou gesticulando. Tirei o fone e teve inicio o seguinte dialogo:
Ele - O que significa?
Eu – O quê?
Ele – Eu falei que achei a sua tatuagem bonita. O que significa essa estrela?
Eu – Nada especial.
Ele – Mas aqui na França tudo tem um significado.
Eu – Mas eu não sou francesa.
Ele – De onde você é?
Eu – Sou brasileita.
Ele – Ah? Da Bretanha? [Comentario: Gente. Bretanha é onde, né?]
Eu, com cara de “comoassim?” – Pois é, da Bretanha.
Ele –Eu não conheço a Bretanha. Fica no Norte da França, né? Eu conheço a Escandinavia, que fica mais pro Norte, né. A Noruega.
Eu – Ah, eu não conheço.
Ele – Sabe que la tem muito menos preconceito, né? Aqui na França, é muita gente te olhando, é estranho, é ruim.
Eu – Olha, não faço ideia...Não conheço a Noruega...
Ele – Vc é casada?
Eu – Sou [né? Qual é o tipo de resposta que eu daria?]
Ele – Ah, você tem filhos?
Eu – Tenho. Dois. [Ja olhando desesperadamente para o mapa da linha de metrô e contando quantas estações faltavam]
Ele – Seu marido é francês? 
Eu – Sim, ele é francês. 
Ele – Ai, que sorte dos seus filhos que têm todos os papiers, né [ele quis dizer cidadania e tals]
Eu – Normal, né. da familia
Ele – Olha, foi muito bom conversar com vc. Bom domingo e boas festas.
E desceu. Uma estação antes de mim.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Dans un autre pays

Publiquei esse texto no Facebook ha alguns dias:

10 Things About Living Abroad: No Turning Back
http://thoughtcatalog.com/rachel-rae/2013/11/10-things-about-living-abroad-no-turning-back/

Quando comentei com a minha mãe, comecei a ler e chorei. Incrivel como todo mundo que morou fora se reconhece nessas linhas. Incrivel como todo mundo se reconhece em varios textos sobre esse mesmo assunto, mesmo tendo saido de paises diferentes, tendo se mudado para paises diferentes, tendo conhecido pessoas diferentes, tenham escolhido quartiers diferentes...Mudar, assim, de “vida”, é muita coisa. E é assustador parar para pensar e ver a quantidade de coisas novas que passamos nesse tempo...eu diria que a cada dia temos, pelo menos, uma surpresa. Pelo menos.

Para deixar registrado, vou usar a lista como base e tentar relembrar porque me reconheci em cada um desses items. Desde a introdução (o texto original esta em italico e em inglês).

Moving around the world teaches you many things. It isn’t for everyone. It takes a special type of person to be able to do what we do. Packing up all your things into two carry-on bags and two checked pieces of luggage is struggles in itself, and to generalize imagine being a woman! I could only bring 10 pairs of shoes! Your mother will go through that luggage and make you narrow it down to seven cardigans instead of 17 and she will remind you that those shorts still don’t fit and haven’t fit for 3 years, you should probably just let them go. Along with letting those shorts go you are also letting go of friendships, relationships, comfort.
Como ja falei aqui, algumas vezes, a gente não decide morar fora e entra no avião. No meu caso, voltei a estudar francês, fiz provas do idioma, procure cursos de mestrado, paguei a tradução de documentos, montei dossiês...e nada disso me preparou o suficiente para a hora de dizer “sim, vou mudar”. Depois de receber todas as respostas das universidades nas quais apliquei, tinha de indicar a escolha definitiva. Definitiva. Ou seja. Depois daquele OK, ja era. Enrolei alguns dias. So o fiz com a minha mãe do lado, apoiando a decisão. Depois, sonhei varias noites com as reuniões com os chefes para falar sobre essa minha decisão. Ai veio esse momento da mudança. Esvaziar um apartamento de dois quartos. Não fiz mudança com caminhão nem nada. Fui levando o que dava para a casa dos meus pais (e agradeço todos os dias por ter o apoio deles). Decidi doar algumas coisas e tive uma agonia profunda quando os caras da instituição de caridade sairam da minha casa. Dai chegou a hora das duas malas de 32 quilos. Não adianta. Não da para resumir sua vida a isso. Ainda mais quando vc sai de um pais tropical, em direção ao frio europeu. Sofri, sofri, sofri. Meus pais não interferiram. Mas guardaram muita coisa la na dispensa deles. Itens que – surpresa? – eu nem lembro, obviamente não uso e so reforçam essa percepção de que a gente consome demais, demais, demais. Mas enfim. Das coisas, a gente desapega mais facil. Mas eu ainda deixei uma irmã gravida, uma avo fofa chorando no portão, amigos da vida toda…a sorte é que os laços de verdade sobrevivem. Isso é bem brega, mas a cada dia percebo que é mais verdade.

A wise man told me that the reason we move to new countries is because we are either running from or running to something. I laughed and thought he was crazy. I just wanted a change; there was no rationale to my choice. The more I thought about it, the more I realized he was right. I wasn’t just running from something, I was sprinting as far as I could. What I didn’t realize was that this choice has now started the foundation of my future. Just like a tattoo, that first little taste and you want more and more. No turning back.
Isso é muito estranho. Essa sensação de fugir de algo para algum lugar é uma boa tradução. E também é uma lição. Que, sim, muda a gente la no fundo. Pra sempre. (e dai que tem coisa muito mais pessoal no meio disso tudo e acho que fico timida de expor tudo isso).

1. Freedom. A new sense of freedom. Freedom to do and go as I please. Freedom to travel. Freedom to make choices without a safety net. Freedom to be yourself.
Vc chega sozinha em uma cidade. Vc pode ser quem quiser. Pode sair sozinha conversando com estranhos. Pode tomar um porre. Pode passar a noite acordada no computador ou andando de ônibus. Sei la. Eu sou filhinha de papai do interior, nem consigo pensar em nada muito radical. Mas ai vc chega sozinha em uma cidade e a liberdade te assusta. Num primeiro momento, em vez de socializar, vc se fecha. Vc tem medo de falar e as pessoas não te entenderem, vc começa a achar problemas em viajar sozinha (mesmo tendo feito isso em outras férias e, bem, em ter vindo sozinha para essa cidade). Vc começa a procurar apoio. De repente, vc encontra algumas pessoas novas e vc é vc. Vc se reconhece como nunca antes. Esse paragrafo ficou horrivel, mas é assim que acontece. Tudo louco, tudo desordenado. E vc tem liberdade para continuar desse jeito.

2. Watching your life at home pass by. Birthdays come and go. Marriages. Deaths. Life doesn’t stop and wait for you.
Eu sempre digo que não sou do nucleo que casa. Na igreja, com festa e tals. E na mesma época que vim pra ca, tive um casamento de uma amiga de infância e de uma prima. Teve meu aniversario, comemorado com pessoas que eu tinha acabado de conhecer. Em seguida, o Miguel nasceu. Em seguida, infezmente, minha avo morreu. O mundo continua, sim. E, de vez em quando, it sucks.

3. Math skills strengthen as you are always trying to convert your local currency to your home country. You know it is even better when you convert your new currency to your previous country. Everything is still in pesos for me.
Na verdade, isso acontece no começo. E dai vc até perde a fome pensando que, puxa, cada refeição é muito cara. Mas dai vc começa a ver que tem coisa que, puxa, é bem mais barata – como algumas peças de roupa. Essa vida de comparação é muito complicada e confunde muito a cabeça. Até vc decidir não converter mais. E um passo muito importante nesse processo de estar num outro pais, de viver uma nova vida.

4. Communication. Responding to someone in any language but the language they are speaking.
Até hoje eu tenho esse problema. Ja estou aqui ha mais de dois anos. E me mudei – de novo – recentemente (isso é assunto para outro post). Dai que entrei no taxi, falei o endereço para o motorista e ouvi “vc pode escrever no seu celular? Tenho dificuldade de entender o sotaque”. Hello. O moço tb não era francês. E dai que eu mostrei uma mensagem que tinha enviado com o endereço e, obviamente, ele repetiu o jeito que falei. Não tinha nenhuma dessas letras mais dificeis (tipo o “u”), nem “e” pronunciado diferente. Garanto.

5. Stories. The stories you will have to tell for the rest of your life are so unbelievable most people will think you are exaggerating. Hospitals. Airports. Dentists. You try getting your point across in any means possible. And do I mean ANY means possible.
Ja acontece isso. As vezes nem eu acho que passei por tanta coisa em dois anos. E meus amigos dão muita risada às minhas custas. Nunca fui para o hospital e nem tive problema no aeorporto, mas encontrei uma dentista brasileira que passava as férias, na infância, na cidade em que nasci. Peguei ônibus errado de madrugada, sai de Paris sem nem saber e deu bem certo, no fim das contas. Fui cantada por um jamaicano chato que, para tentar me conquistar, pediu para a minha amiga me entregar uma pulseira de coco que ele comprou na Paraiba. Invento palavras em francês e em inglês o tempo todo. Tenho uma amiga que criou codigos para avaliar as pessoas na balada e isso rende historia todas as vezes que usamos esse codigo. Sai com um menino e, na semana seguinte, o amigo dele me ligou, dizendo que tinha me visto antes na balada e que estava interessado em mim. O menino que sai passou o telefone e nunca me procurou. Dormi na cama de solteiro no quarto da residência estudantil da minha melhor amiga. Com ela junto. Voltei andando da balada, conversei com estranhos no meio do caminho. Fiz amigos no samba.

6. You realize little holidays and moments you didn’t think mattered are the ones that make you the most homesick.
Eu falo que fico meio de feriado quando é feriado no BR e ninguém entra no Face, ninguém ta disponivel pra conversar. Nessas horas, me sinto à deriva. E queria estar junto com todo mundo no BR.

7. Growth. As much as you hate to admit it with each move you grow. You learn the best ways to pack, meet new friends, get around, and survive.
A gente sabe, né? E o maior clichê, mas tb resume tudo. Vc aprender a passar por tudo. Por bem ou por mal.

8. Adrenaline. Those thrill seekers jumping off canyons and out of airplanes have nothing compared to boarding a plane and traveling to an unknown place. Not knowing anyone. Not knowing your surroundings. Not knowing the language. Now that is a real adrenaline rush.
Entrar no avião sem saber o que vai encontrar. Saber que vai estar longe de casa em momentos importantes, de felicidade ou de tristeza. Ter que apresentar trabalhos acadêmicos escritos ou para a sala. Ter de trabalhar em outro idioma. E depois de um tempo perceber como ja aprendeu tanta coisa. Mas ai tropeçar e perceber que ainda tem tanta coisa pra saber. E depois ter uma mudança dos chefes. E depois mudar de casa e estar em outro quartier. E uma eterna adrenalina. Eterna.

9. Patience. Realizing no one understands you. No one cares. Ordering food, getting in a taxi and normal every day tasks take patience. Nothing is ever easy. A 10-minute task at home will take you 60 minutes. Accept it.
Foi essa parte que destaquei no Facebook. Pq eu sempre falo. Vim pra ca pra ter paciência. Vim pra aprender a esperar. Ja evolui muito e espero que tenha sido suficiente. Logo que comecei o estagio, eu falava que demorava dez minutos para cada frase. Um outro estagiario sempre prestava atençao no meu tempo de resposta e constatou que muitas vezes era verdade. E, tipo, era conversa informal. Imagina para os chefes...

10. Having to say hello for the first time and having to say goodbye for the final time. Not many people get to experience this, but I have perfected it. This could quite possibly be the hardest and most dreaded part of my life.
Ainda hoje me confundo. Até porque, na França, tem gente que fala “bonjour” às 20h, no inverno (quando começa a escurecer às 17h). Se esta claro, ja chego falando “bonjour”. Mas, depois do almoço, tenho dificuldades para me despedir. Vai ver que por isso que eles inventaram o “sair à francesa”. Assim, ninguém precisa escolher como vai se despedir.

Start slow, go to a new place. Alone. Go to a city by yourself. Go on a vacation, alone. Throw yourself out there. Your own sink or swim. When you begin to panic and want to go home that is when your fight or flight will kick in. That true inner strength will shine through. You will fight it out and you will thank yourself later. I know I did.
Eu concordo: é um voo sem volta, e vc vai se agradecer por isso. Num tô na melhor fase da minha viagem. Mas concordo. Concordo de verdade.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Annecy

Morar na Europa pode causar um estresse a mais na vida das pessoas – é muito lugar para conhecer. De vez em quando, me bate um pânico de que não aproveito a facilidade de pegar trem ou pagar uma passagem de avião barata para ir passar o fim de semana em uma cidade historica, linda, que sempre quis conhecer.

Claro que a organização das viagens depende de tempo e dinheiro. No meu primeiro ano aqui, não tinha nenhum dos dois, e acabei aproveitando mais depois de outubro, quando terminei o mémoire e assinei o primeiro contrato :-) Esse ano melhorou, mas ainda não foi o suficiente. Ainda falta principalmente dinheiro, né?

Mas ai, com esse negocio de ter de aproveitar tudo, fui para Annecy, na divisa entre França e Suiça, no feriado de 11 de novembro (feriado do Armisticio da Primeira Guerra). Peguei trem no sabado e fiquei até segunda (são quatro horas de viagem, saindo de Paris). Fiquei num Ibis bem localizado, ao lado do Centro Velho. Hotel honesto, quarto pequeno, mas OK.

A cidade é uma gracinha. Tem esse centro medieval, com ruas estreitas, uns canais com agua gelada correndo bem forte, restaurantes com a tradicional comida da Savoie, essa região abençoada, especialista em foundue e raclette, entre outras delicias. Ai também tem um lago imeeeenso, com os Alpes ao fundo.

A previsão era de bastante frio naquele fim de semana. Mas não chegou nos 4 graus. Consegui andar bastante, conhecer o castelo, as igrejas (até estranhei a enorme quantidade delas). Tem, inclusive, a igreja de São Francisco de Sales que, lembrei depois, é padroeiro dos jornalistas.

As arvores estavam com suas folhas amarelas, ventou um pouco. Mas nada que comprometesse as caminhadas. No inverno, a cidade deve ficar linda e gelada. Na primavera, cheia de flores. Espero voltar.

Logo volto com as fotos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sur le long chemin

Depois de completar dois anos em outro pais, eu notei bem uma coisa : não sou nem brasileira nem francesa. Vivo oscilando entre essas duas pontas, na verdade. Não que meu sonho seja mudar de nacionalidade. Gosto muito de ser brasileira e principalmente de habitos como abraçar, sorrir, dançar, comer coxinha e beber cerveja gelada. Mas, passando tantos meses em outro pais, é natural perder algumas “habilidades”.

Ao mesmo tempo, é obvio que não sou francesa. Não debato politica ou qualquer outro assunto com a mesma propriedade que eles – nem no futebol, que todo mundo acha que brasileiro é especialista. Bem, não tenho o mesmo dominio do idioma. Tenho peito, bunda e coxa, o que não é normal nas moiçolas nascidas por aqui. E por ai vai...

Dai que, semana passada, cheguei para trabalhar e uma colega bem legal me chamou para a “cremaillère” dela, que seria “na sexta”. Traduzindo, é uma open house francesa. Ela disse que não ia convidar muita gente – algumas pessoas daqui, o time de basquete do namorado dela e alguns amigos do casal. Falou que ia mandar email, com o endereço. Eu, que acho que ja conheço um pouco dos habitos franceses, tava esperando o email, né? Normalmente, eles avisam com antecedência, marcam no calendario do Outlook e ainda confirmam perto da data. Como nada chegou até quinta, tinha certeza que a tal da festa seria na semana seguinte.

Pois então, na quinta, me convidei para assistir ao ja lendario jogo França e Ucrânia, de classificação para a Copa do Mundo, com uns amigos brasileiros. Na sexta de manhã, voilà, recebo o email confirmando o adresse e o horario para chegar à cremaillère.

De repente, me deu uma tensãozinha. Me toquei que nunca tinha ido a uma cremaillère assim, 100% francesa. Graçasadeus que tem uma francesa aqui no trabalho que morou no Brasil (e em Singapura) e entende dessas duvidas de quem esta longe da sua terra. Mandei um email “sorry, mas não sei as regras de etiqueta. Tem de levar presente? Coisa pra beber/comer?”. Gentilmente, ela disse que ia sair daqui e passar no Monoprix mais proximo para comprar um petit cadeau. Claro que aceitei ir junto. No caminho, ainda brincamos quando ela disse que a gente tava chegando “na hora, como estava escrito no email”, e não “na hora como os brasileiros, com um tanto de atraso”.

Desmarquei o fute – e ouvi umas boas reclamações dos amigos brasileiros que, como eu, vivem com um pé la outro ca e acho que ja estão se acostumando a programar as soirées.

Fui à cremaillère. Gente. Um dos apartamentos mais legais que ja vi na minha vida parisiense. Um salão + cozinha enorme, com quarto, banheiro espaçoso e ainda uma sacada (não tirei foto pq nem lembrei disso. Franceses não costumam ficar com o celular na mão o tempo todo e eu, por incrivel que pareça, deixei o meu na bolsa e nem teria coragem de ficar registrando o ambiente). A casinha deve ter, sei la, uns 60 metros quadrados. O que significa minusculo para os padrões dos “meus” que moram no Brasil. No entanto, eu fiquei maravilhada. Achei lindo, confortavel, genial. E poderia aqui descorrer sobre a diferente do “ter” e “ser” e da preguiça que me deu das mansões e carros imensos que vi no Brasil. Mas, bem, não é o objetivo desse post. Até pq eu bem que me acostumaria a tanto espaço se estivesse morando ainda no Brasil.

Voltando à fête: tinha uma mesa cheia de petiscos, uma menina fazendo mojitos, mais cerveja e vinho, claro. Não tinha televisão e, por isso, alguns amigos dos donos do apto chegaram com um projetor e usaram o computador para transmitir, na parede enorme, o jogo de futebol. E a França perdeu. Talvez eu fosse a unica da sala que ainda acreditasse na vitoria dos bleus antes do jogo começar. E durante. E depois. Fiquei realmente triste com o resultado (2 a 0 para os ucranianos. Ucranianos. Vejabem). E fui embora logo depois da derrota, pq ja tava passando da quantidade necessaria de vinho num evento com pessoas do trabalho.

França e Ucrânia, em foto emprestada do L'Equipe
E isso agora me fez pensar em outra coisa. Tb estou no meio do caminho entre os jornalistas e os não-jornalistas.

Então, é isso. Eu sei que esse post ficou confuso. E nem era a intenção. Mas é um post assim, em alguma parte do caminho a ser percorrido.

E fica a dica: se decidirem mudar de vida, estejam preparados para a fase “mais ou menos”. Parece chato. Mas não é. Parece confuso. E é bem pior do que isso. C'est ma vie.

UPDATING: acabei de publicar esse texto e encontro a imagem seguinte no Facebook. Recado do destino? hahaha