quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Camille

Eu tinha um bom emprego, um bom salário. Pagava todas as minhas contas, tinha tempo até de "atividades paralelas". Eu morava bem. Ia a pé para o trabalho, podia pegar metrô ou ônibus para qualquer lugar. E ainda tinha um carro. Que era pequeno, mas era meu. Me levava para todos os lugares e ainda cabia na vaga da garagem. Eu tava perto da minha família, dos meus amigos...minha irmã tava grávida e me disse que eu seria madrinha do meu pequeno sobrinho. Eu tinha a comida da minha mãe nos fins de semana. O arroz doce da minha vó qdo tinha vontade. Mas faltava alguma coisa.

Resolvi que eu tinha saudades de Paris. Das ruas com construções antigas, dos telhados azuis. Da torre, da Champs Elysées. Dos franceses fazendo bico. Do metrô que vai para todos os cantos até de madrugada. Desse idioma tão lindo, dessa cultura tão presente.

Aí eu cheguei aqui. Peguei o metrô e desci na Notre Dame. Depois passei pelo Arco do Triunfo. Numa caminhada, cheguei à torre. Nas primeiras semanas, a cabeça estava tão cheia que não tive tempo de sentir falta. Fiz até uma "festinha" de aniversário num bar bem localizado, com uma mesa cheia de pessoas que eu mal conhecia, mas com quem já tinha laços bem fortes. Laços que só quem está longe de casa consegue construir (e entender). E nos meses seguintes a programação continuou intensa. Era tanta coisa que ainda não dava tempo de definir o que fazia parte da minha vida e o que me faltava. 

Aí minha avó foi embora. E eu lembrava da cena da nossa despedida. Ela chorando no portão e limpando as lágrimas que escorriam pelas bochechas fofas e pelo nariz. Naquele momento, eu comecei a sentir falta. Comecei a pensar que, meudeus, tinha tanta coisa pra contar pra ela. Era uma falta estranha. Porque eu tava tão longe que não conseguia saber a medida de tanta saudade da mãozinha gordinha, do sorriso de criança, dos passos lentos. E essa saudade nunca mais ia ser amenizada.

E em seguida fui para o Brasil e fiquei agoniada porque tinha tanta coisa pra resolver na França. Eu voltei para Paris e tive uma dor no coração horrível de perder o carnaval e de saber que deixei longe meu pequeno sobrinho sorridente, que aprendia uma coisa nova por dia.

E daí que começou o estagio. Cabeça cheia de novo. Tanta novidade, tanta gente nova. Quando as coisas começaram a virar rotina, meus pais vieram me visitar. Foi tudo magico. E nem teve lagrima escorrendo na despedida. Minha mãe teve uma linda explicação: "Ela (eu, no caso) tá tão bem que meu choro não faz sentido". Logo ela, que tem o choro tão fácil (por isso sou assim).

Aí foi a vez da Deborinha, minha irmã de alma. E ela trouxe a Tati. Deborinha me avisou que a prioridade  era conhecer o museu do Rodin, porque ela adorava Camille Claudel. Foi fácil passar quase uma semana indo dormir de madrugada, com a barriga doendo de tanto rir. Receber abraços e olhares de "compreensão" todos os dias.  No fim da viagem das duas, fomos até a casa onde morou a Camille, na Île Saint Louis. Na parede, uma placa, informando da moradora ilustre. E uma frase: "Il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente" (Há sempre alguma coisa faltando que me atormenta -- como mostra a foto abaixo).


Eu já tinha visto na internet. Mas foi diferente. Depois que as meninas foram embora, teve o casamento da Fernanda, no Rio. Foi a gota d'água. De repente, tudo e todos me faziam falta e essa falta me atormentava. Foram umas duas ou três semanas assim. Um misto de ansiedade, de medo, de pânico. Uma solidão que nunca tinha feito parte de mim. A frase da Camille não saía da minha cabeça.

A solução foi me acostumar com ela. E aí me lembrei que sempre tinha alguma coisa faltando. E, provavelmente, sempre terá. E daí? Daí que a gente tem de aprender a guardar essa saudade. A se virar com o Skype, com o telefone, com a chuva, com o sol...com a vida.

E devo começar mais um ano em Paris. Com um gostinho de que muitas missões foram cumpridas em 2012, apesar dos pesares. Quer coisa melhor?

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PS: Helena, querida. Se vc passar de novo pelo blog, saiba que Camille vai me fazer pra sempre lembrar de vc. E mesmo que seu nome não tenha sido citado nos ultimos posts, vc ta dentro da parte francesa do meu coração. Merci por esse ano! E merci tb pra Fernanda, pro Thiago, pro Gui (de quem copiei a citação do coração), pra Alice e pra tantos outros que apareceram na minha vida por aqui e, espero, continuem comigo por um bom tempo

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