Depois de completar dois anos em outro pais, eu notei bem uma coisa : não sou nem brasileira nem francesa. Vivo oscilando entre essas duas pontas, na verdade. Não que meu sonho seja mudar de nacionalidade. Gosto muito de ser brasileira e principalmente de habitos como abraçar, sorrir, dançar, comer coxinha e beber cerveja gelada. Mas, passando tantos meses em outro pais, é natural perder algumas “habilidades”.
Ao mesmo tempo, é obvio que não sou francesa. Não debato politica ou qualquer outro assunto com a mesma propriedade que eles – nem no futebol, que todo mundo acha que brasileiro é especialista. Bem, não tenho o mesmo dominio do idioma. Tenho peito, bunda e coxa, o que não é normal nas moiçolas nascidas por aqui. E por ai vai...
Dai que, semana passada, cheguei para trabalhar e uma colega bem legal me chamou para a “
cremaillère” dela, que seria “na sexta”. Traduzindo, é uma
open house francesa. Ela disse que não ia convidar muita gente – algumas pessoas daqui, o time de basquete do namorado dela e alguns amigos do casal. Falou que ia mandar email, com o endereço. Eu, que acho que ja conheço um pouco dos habitos franceses, tava esperando o email, né? Normalmente, eles avisam com antecedência, marcam no calendario do Outlook e ainda confirmam perto da data. Como nada chegou até quinta, tinha certeza que a tal da festa seria na semana seguinte.
Pois então, na quinta, me convidei para assistir ao ja lendario jogo França e Ucrânia, de classificação para a Copa do Mundo, com uns amigos brasileiros. Na sexta de manhã,
voilà, recebo o email confirmando o
adresse e o horario para chegar à
cremaillère.
De repente, me deu uma tensãozinha. Me toquei que nunca tinha ido a uma
cremaillère assim, 100% francesa. Graçasadeus que tem uma francesa aqui no trabalho que morou no Brasil (e em Singapura) e entende dessas duvidas de quem esta longe da sua terra. Mandei um email “
sorry, mas não sei as regras de etiqueta. Tem de levar presente? Coisa pra beber/comer?”. Gentilmente, ela disse que ia sair daqui e passar no Monoprix mais proximo para comprar um petit cadeau. Claro que aceitei ir junto. No caminho, ainda brincamos quando ela disse que a gente tava chegando “na hora, como estava escrito no email”, e não “na hora como os brasileiros, com um tanto de atraso”.
Desmarquei o fute – e ouvi umas boas reclamações dos amigos brasileiros que, como eu, vivem com um pé la outro ca e acho que ja estão se acostumando a programar as
soirées.
Fui à
cremaillère. Gente. Um dos apartamentos mais legais que ja vi na minha vida parisiense. Um salão + cozinha enorme, com quarto, banheiro espaçoso e ainda uma sacada (não tirei foto pq nem lembrei disso. Franceses não costumam ficar com o celular na mão o tempo todo e eu, por incrivel que pareça, deixei o meu na bolsa e nem teria coragem de ficar registrando o ambiente). A casinha deve ter, sei la, uns 60 metros quadrados. O que significa minusculo para os padrões dos “meus” que moram no Brasil. No entanto, eu fiquei maravilhada. Achei lindo, confortavel, genial. E poderia aqui descorrer sobre a diferente do “ter” e “ser” e da preguiça que me deu das mansões e carros imensos que vi no Brasil. Mas, bem, não é o objetivo desse post. Até pq eu bem que me acostumaria a tanto espaço se estivesse morando ainda no Brasil.
Voltando à
fête: tinha uma mesa cheia de petiscos, uma menina fazendo mojitos, mais cerveja e vinho, claro. Não tinha televisão e, por isso, alguns amigos dos donos do apto chegaram com um projetor e usaram o computador para transmitir, na parede enorme, o jogo de futebol. E a França perdeu. Talvez eu fosse a unica da sala que ainda acreditasse na vitoria dos
bleus antes do jogo começar. E durante. E depois. Fiquei realmente triste com o resultado (2 a 0 para os ucranianos. Ucranianos. Vejabem). E fui embora logo depois da derrota, pq ja tava passando da quantidade necessaria de vinho num evento com pessoas do trabalho.
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| França e Ucrânia, em foto emprestada do L'Equipe |
E isso agora me fez pensar em outra coisa. Tb estou no meio do caminho entre os jornalistas e os não-jornalistas.
Então, é isso. Eu sei que esse post ficou confuso. E nem era a intenção. Mas é um post assim, em alguma parte do caminho a ser percorrido.
E fica a dica: se decidirem mudar de vida, estejam preparados para a fase “mais ou menos”. Parece chato. Mas não é. Parece confuso. E é bem pior do que isso.
C'est ma vie.
UPDATING: acabei de publicar esse texto e encontro a imagem seguinte no Facebook. Recado do destino? hahaha