Eu gosto de escrever. Nada de ficção, literatura, crônica ou esses textos mais rebuscados. Gosto de contar histórias -- as minhas e as dos outros. Por isso, acho, escolhi o jornalismo e, durante muitos anos, fui feliz nos jornais 'populares', ouvindo o dia a dia, as partes boas e ruins do cotidiano das outras pessoas.
Logo no comecinho da carreira, um editor me disse que a melhor maneira de 'desenvolver' seu texto era ler mais. Nunca esqueci disso. Já gostava de livros, mas comecei a perceber como a leitura de jornais também acaba ajudando nessa tarefa de aumentar vocabulário, de te deixar mais à vontade na difícil tarefa de montar uma reportagem. E aí não era mais uma obrigação. A gente começa a querer ler tudo por curiosidade, quase um vício.
Depois dos jornais, fui para um site onde comecei a ter uma outra noção do texto dos outros. Eu tinha que editar, mexer, deixá-lo mais 'compreensível', atraente. Ajudei a orientar estagiárias e, graças a Deus, pelo menos duas delas sempre me agradecem pelas dicas e elogiam meu trabalho. No ano passado, acompanhei a reforma ortográfica e até tirava dúvidas das minhas amigas e de colegas de trabalho.
Escrevi agora tudo isso para relembrar minha intimidade com o português. Fazia tempo que escrever, para mim, não era um problema. Aí eu decidi vir para a França. Estudar numa universidade de comunicação onde o idioma é, claro, o francês.
Sim, eu já sabia tudo isso. Mas é muito diferente quando chega a hora de colocar no papel. Hoje tenho de entregar uma primeira versão resumida de um 'mémoire' (espécie de dissertação) em grupo. É uma tarefa complexa, porque o trabalho envolve a classe toda e cada grupo tem a sua responsabilidade. O meu dividiu as tarefas no fim da semana passada e acabei ficando tensa no sábado e no domingo para escrever minhas oito páginas. Fui dormir às 2h da madrugada de domingo para segunda, completamente esgotada. De pensar em francês, de digitar em francês, de tentar compreender cada expressão nova de cada disciplina (o trabalho ainda é interdisciplinar).
Na segunda, na reunião do grupo, meus colegas foram superssimpáticos e disseram que iriam ler os textos de todo mundo, para fazer ajustes, e que eu não precisava me preocupar porque eles sabiam que tinham que corrigir o meu francês. Uma das meninas até perguntou se eu queria ir embora, porque era uma fase de correção mesmo. Falei que não, que tenho de aprender e queria ouvir as dicas deles. No fim, decidimos voltar para casa e dividimos as tarefas (eu fiquei com a parte de capturar imagens para ilustrar).
Cheguei ao estúdio e me deu uma crise de choro. Daquelas fortes. É tão difícil estar de frente para os seus limites, sabe? Eu sabia que vir para cá incluía esses momentos, esses aparentes 'passos para trás'. Mas foi bem diferente chegar à situação de ficar perdida para escrever, ser quase orientada e ter o texto corrigido por um grupo de pessoas com 22, 23 anos. Definitivamente, fazia muito tempo que isso não acontecia comigo. Fazia muito tempo que eu sempre sabia o que fazer. E, quando não sabia, pelo menos dominava o idioma, a 'arte' de somar as palavras e fazê-las ter algum sentido.
Eu sei que vai passar. Sei que faz parte do processo. Espero daqui a algum tempo poder dar risada de tanto nervoso. Também sei que daqui a uma semana terei uma apresentação oral e estarei novamente tensa, até porque falar em público não era o meu forte nem em português...Mas é isso. Aguardem as cenas do próximo capítulo, porque essa novela promete sempre mais emoção.
lulis, sei que já conversamos sobre isso e também consigo imaginar, ao menos um pouco, a sua angustia e frustração mas ACREDITE!! Esse aprendizado ao qual você se propos não tem preço! É simplismente imensurável e que você com toda a certeza desse mundo irá rir em pouco tempo. Não ache ruim ser corrigida e ouvir opnião dos mais novos, ainda mais qdo eles nasceram falando esse idioma que vc decidiu aprender há pouco tempo (mt menos do que eles). E essa tal geração x aí diz que veio pra dominar o mundo...
ResponderExcluirE vai que vai, arrasa! Tenho certeza do seu sucesso.
beijo grande
Quanta emoção senti ao ler sua L'écriture...sempre soube com certeza o quanto você gosta de ler e escrever...você está na sua filha...realizando seu sonho, e emoção faz parte deste processo...Aqui estou eu aguardando os próximos capítulos e com emoção, ok? Bjs NEQUEAV
ResponderExcluirum beijo pra cada uma! e brigada pelo apoio de sempre. amo!
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